AMORES URBANOS – ROCCA

Eu não gosto dessa cidade – foi a primeira coisa que ele ouviu ainda antes de ver a boca dela e de lhe dar a sua. Sorriram, não sobre o que ela falou, mas para o outro, por estar com o outro. Pouco se foderam para a cidade, muito se amaram nela. Eles sabiam.

O hotel tinha aquelas sacadas antigas e ovaladas que ela amava, ele gostava de vê-la sentada nas poltronas clássicas, usando a sua camisa, usando roupa alguma, com as pernas jogadas sobre as imensas janelas de ferro. Gostava também de fotografá-la, ele sempre registrava esses momentos em que a felicidade já não o mantinha em si e isso tinha sempre algo a ver com ela. Quero te levar comigo, dizia, e enquanto ela lhe sorria com todo o seu corpo, eles eram leves de novo, sobretudo, estavam inteiros.

Naqueles dias eles tomaram chuva, café, gosto. Escolheram livros, beberam vinhos, ouviram pianos. Ele fumou mais do que ela, que usava a mão livre da dele para afagar-lhe os cabelos, a barba, o pescoço, enquanto ele segurava-a pelas pernas. Não falaram sobre qualquer coisa que não pudessem ver e só conseguiam olhar para o outro. Se acariciaram, se cheiraram, se beijaram, se lamberam, se comeram. Conversaram muito também. Gostavam de compor aquele cenário: deitados no escuro, entrelaçados.

E, sem perceber, aquela cidade que não era a deles os trouxe de volta, absolutamente envolvidos, como aconteceu desde o primeiro desembarque dela, aos braços da cidade velha, que, por sinal, ela também não gostou de cara. Que calor da porra – disse a um estranho que conheceu no voo, e que a levou para a casa, que, naquele momento, ainda não era aquela que seria a casa deles.

Eles não sabiam o que lhes aconteceria ao deixar aquela cacofonia. Mas ali, naquele caos de possibilidades e de gente, eles se queriam.

 

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Rocca é jornalista e produtora editorial. Tem mestrado em Arte e Cultura de Massas e atualmente é doutoranda de Literatura Hispânica.