CAMINHOS E DESCAMINHOS – CRÔNICA DE SILVIO PEREIRA DA SILVA

A noite estava quente, pois o dia havia sido ensolarado, mas ele não saíra como era de costume quando estava de folga para caminhar. Passou o dia no apartamento, nem para almoçar saiu, olhou algumas vezes pela janela, saiu à sacada, porém não se animou a curtir o sol na piscina, muito menos a caminhar. Ficou lendo, assistiu a um filme e ouviu música. Introspectivamente, aproveitou o dia para estar só.

No entanto, quando a noite se fez, sentiu uma vontade repentina e estranha de sair para caminhar no “Elevado João Goulart”, popularmente conhecido como “Minhocão”, todos que moram no Centro o conhecem assim. Uma imensa pista suspensa que corta o bairro da Santa Cecília.  Aproximou-se da porta da sacada e olhou as pessoas que caminhavam, exercitando-se, conversando, correndo, alguns em grupos, muitos sozinhos, aproveitamento o espaço deixado pelos automóveis. Pais e filhos, amigos e desconhecidos, cães e donos, jovens e seus skates, são os anônimos habitantes da metrópole que parece ignorar a vida, mas que pulsa vibrante.

Desceu e sentiu a temperatura da rua, percebeu então que estava bem mais fresco ao ar livre do que dentro do apartamento, realmente, um momento muito bom para andar. Seguiu até a subida do elevado e iniciou sua caminhada. Outras pessoas também seguiam por ali.  Apertou um pouco o passo, construindo um ritmo de marcha e passou a observar as pessoas. Alguns andavam como se não houvesse outros, mas muitos olhavam, até acenavam com a cabeça num gesto de interação. Dizem que muito se paquera no local. Amigos já lhe contaram de experiências interessantes, amores, amizades que surgiram nessas caminhadas. Os olhares se cruzam e nesse momento alguém pode descobrir o outro. Há espaço para todos, homens, mulheres, jovens, velhos.

Ele começa a refletir sobre os amores que podem surgir naquele espaço. Seriam duráveis? Só durariam uma noite? Um contato sexual? Um amor platônico poderia surgir? Tudo é possível, até o impossível, pois o amor não obedece regras de há muito tempo. Afinal, onde há pessoas, há amor, e ali passa a vida. Nesse momento, enquanto esses pensamentos fervilhavam em sua mente, uma jovem passou por ele e o olhou mais demoradamente. Ele retribuiu o olhar, imaginando que ela também refletia sobre os amores, sobre a vida. Porém não pararam para conversar, ela sorriu e seguiu na direção contrária, só um olhar lhe fora suficiente.  Esse primeiro indício de paquera despertou-lhe a vontade de continuar, decidiu ariscar e lançar mais olhares, com a possibilidade de piscadas e sorrisos. No entanto, parecia estar invisível, não houve nenhuma outra que olhasse para ele com interesse, de modo diferente ou sedutor.

O caminhar e flertar não estava dando certo. Sentiu-se sozinho e distante das pessoas. Só então se deu conta que foi o desejo de conhecer alguém, de libertar-se da solidão vivida naquele dia que o fez sair do apartamento. Solidão que parecia rondar sua vida nos últimos tempos, às vezes, boa companhia, outras vezes, motivo de dor e sofrimento. Foi o vazio criado pelo isolamento que o compeliu a caminhar. Assim como outros, sem rumo certo, sem pretensões de encontros, mas, paradoxalmente, esperando que isto ocorra. Compreendeu que o melhor era não ter muitas expectativas e continuou a andar, analisando prédios e ruas que podiam ser vistos de cima do elevado. Assim, ele seguiu vivendo os riscos e prazeres presentes em uma provável conquista na solitária e povoada Metrópole.

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Silvio Pereira da Silva é doutor na área de linguagem e educação pela Faculdade de Educação da USP, mestre em Letras na área de Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana também pela USP – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, e especializado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela Fundação Santo André – Coordenadoria de Pós-graduação, Pesquisa e Extensão. É professor de Literatura e Língua Portuguesa e exerce a função de coordenador dos cursos de Letras Licenciatura e Bacharelado, na Universidade Metodista de São Paulo – UMESP. Por anos ministrou aulas na Rede pública, dedicando-se ao estudo de Literatura.

Fotografia: Miguel Pixies (Instagram / #purelovesp)