O APAIXONANTE DIÁLOGO LITERÁRIO DE LETÍCIA SANTOS

COLUNA PITACOS 

POR LETÍCIA SANTOS

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Sou uma leitora voraz, é um vício que começou na infância e não pretendo tratar. Sofro de literatura crônica, gosto de mergulhar num bom livro (os que afrontam meu senso estético ficaram nos tempos da escola e da faculdade), a experiência de desbravar páginas e mais páginas de algo que prendeu sua atenção é uma experiência pessoal, mas, o que é comum a quase todos os leitores do mundo é a noção de que cada livro é um universo, e que com esse amontoado lindo de palavras podemos nos transportar para outros mundos, outras realidades. E é nesse exercício de inserção em mundos delicadamente construídos que nasce a sua preferência literária, e o seu amor ou desgosto por certo tipo de escrita. Identifico-me muito mais com construções que se passam num espaço urbano, é uma surpresa para quem me conhece? Não muita, não posso ver uma área afastada da cidade sem me perguntar onde está a padaria mais próxima e se tem sinal de internet, sou uma cria do asfalto e do concreto.  Consigo ler narrativas que se passam no interior rural, mas é com o mesmo estranhamento fascinado com que leio sobre culturas totalmente diferentes. Sabemos que existem diversos tipos de amores retratados na literatura mundo afora, amores em tempos de guerra, amores impossíveis, amores proibidos e trágicos, amores adolescentes, etc., e, todos eles podem ser encaixados dentro dos amores urbanos lindamente retratados ao longo da história da literatura.

A cidade muitas vezes se torna um componente tão importante na narrativa que não se pode imaginar certo personagem, ou autor, sem inseri-lo no contexto urbano ou em uma cidade específica. Um dos casos mais evidentes de entrelaçamento entre a obra e uma cidade pode ser encontrado num dos maiores ícones da Literatura Brasileira: Mário de Andrade. É impossível ler “Macunaíma”, “Pauliceia Desvairada” ou mesmo sua poesia sem ser levado imediatamente ao ambiente boêmio da elite de São Paulo, uma elite de artistas progressistas, que zombava de si mesma, era contraditória,  e que lograram retratar os costumes, inquietações e clima da época das revoluções que já transformavam São Paulo no que é hoje. Ainda que na obra de Mário de Andrade vejamos um bairrismo gritante em sua exaltação de São Paulo, fica destacado como seu amor pela cidade ajudou a retratar a vivacidade e efervescência dessa metrópole em sua obra. Se existe um amor verdadeiro e inquestionável na obra de Andrade, é o dele para com São Paulo. Nota-se que tenho um fraco pelo Mário de Andrade? É quase tão grande quanto o que tenho pelo Mário de Sá Carneiro, um autor português cuja obra “A Confissão de Lúcio” é capaz de nos transportar para a Europa Modernista, mais precisamente para as encantadoras Paris e Lisboa. O romance entre Lúcio e Marta tem como pano de fundo a vida nas duas capitais, sendo que o clima sensual e em constante ebulição de Paris é um ponto de contraste com a sisuda e saudosa Lisboa, que apesar de ter os mesmos cafés para tertúlias, os mesmos restaurantes, carecia da alegria e da vivacidade de Paris. E as duas cidades são belamente retratadas aqui, sendo impossível separar o cenário do romance que nessa obra se desenvolve.

Minha fraqueza por narrativas urbanas é justificada não só pelo pano de fundo, que pode mudar sua paisagem aqui do Brasil para a China, mas também pelo fato de que ler os personagens em seus cotidianos, é como viver em uma nova cidade, e se afeiçoar junto com os personagens aos locais, odiá-los, ou só registrá-los na memória. Foi o que aconteceu com entre mim e Lisbeth Salander. Confesso, com uma sombra de vergonha, que não coloquei muita fé na capacidade de Stieg Larsson de me surpreender e me fazer gostar da garota estranha do filme que todos estavam comentando, mas fui gratamente surpreendida, ao me deparar com essa preciosidade  dividida em três excelentes livros. A trama se passa na Suécia, um lugar cuja língua desconheço, e que me fez pesquisar a pronúncia de vários nomes e sobrenomes que lia e me eram estranhos, inclusive do co-protagonista Mikael Blomkvist. Nessa obra, vemos dois representantes ferozes da vida urbana conhecendo-se e entrelaçando suas vidas tão diferentes entre a agitação de Estocolmo e seus costumes tão diferentes dos nossos, o frio cortante do inverno é uma constante que não conhecemos, por exemplo, e me fez desejar experimentar andar na neve. Os personagens nos mostram lados opostos de uma mesma cidade, sendo ela produto de um lar problemático inserida desde cedo no sistema de acolhimento de órfãos (a injustiça com os mais fracos quase nunca muda, em época ou lugar nenhum do mundo), uma pária em aparência e incapaz de interações sociais padrões, enquanto ele é um homem bem sucedido, dono de seu próprio negócio e reconhecido nacionalmente por seus feitos. É um corte urbano muito bem feito, mostrando como dois nativos da mesma cidade tem visões diferentes de mundo e interações fascinantes, que me fizeram torcer por seu relacionamento complicado.

Nós, estudiosos da literatura, temos a mania de tentar enquadrar tudo quanto é coisa numa caixinha, classificando obras e artistas pelas características em comum. As obras que contém amores urbanos geralmente são fortemente marcadas pelas lindas descrições dos locais, pelo uso de afazeres cotidianos dos personagens para retratar o funcionamento urbano de onde vivem, é possível sentir Barcelona nos livros de Carlos Ruiz Zafón, com a ajuda da adorável família de amantes dos livros como os Sempere (seus personagens em livros como A Sombra do Vento), somos transportados para uma cidade que combina com a linguagem poética e misteriosa do autor. Barcelona merece obras que a retratem tão lindamente quanto a arquitetura e as mãos de Gaudí a deixaram.

Os amores urbanos e a literatura são tão ligados que eu poderia gastar muitas páginas citando os livros cujo teor é indubitavelmente urbanístico, e a maioria deles tem em comum, além de uma clara tendência a exaltação da cidade e o registro de costumes e tradições da época, a construção do romance e do amor lutando contra a impessoalidade que a cidade às vezes gera. É o amor que nasce num esbarrão, de uma troca de olhar na livraria, são amores que nascem do nosso cotidiano, poderia citar centenas de livros aqui, mas prefiro convidá-los a analisar seu próximo livro e encontrar nas descrições, nas falas, nas percepções do narrador e do personagem se há uma construção do cotidiano urbano. Se terminamos torcendo pelo amor nas selvas de pedra é  porque nos identificamos com o triste que é viver entre milhares (ou milhões) e ser sozinho. A luta contra a solidão na multidão é uma marca do amor urbano, e de romances épicos da literatura também.

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Letícia Silva Santos (@laetitiasjc) é professora não praticante, formada em Letras pelo amor à literatura e possui uma coleção de livros que nunca será grande o suficiente.