MEU TEMPO – CRÔNICA DE DOUGLAS MOREIRA

– Pai, posso ir trabalhar com você amanhã?

– Claro que pode filho.

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Por volta das cinco horas da manhã, o cheiro de café passado invadia o quarto e se misturava com o indefectível aroma de leite de rosas que meu pai usava como pós barba. Leite de rosas foi um cheiro da minha infância. Misturado à fumaça do cigarro e ao vapor que vinha do banho quente, criava uma espécie de sauna que se traduzia como o cheiro do meu pai.

Aos sábados, era comum que meu pai me levasse consigo para o seu trabalho na capital. Era uma forma de estar presente depois de vários dias chegando tarde em casa e, também, uma maneira de minha mãe ter certeza que naquele sábado o meu pai não teria que “dormir” na obra, por causa de algum imprevisto prendendo-o no serviço.

Eu adorava! Morava numa cidade pequena cercada de mato por todos os lados, onde não havia semáforo e, possivelmente, a construção mais alta que se podia ver era a caixa d’água da escola onde eu estudava. Eu não morava. Vivia isolado. Ir para a capital, onde meu pai trabalhava na construção civil, era o máximo da minha existência. Eu queria ver o mundo, eu queria ver os prédios, eu queria ver gente, eu queria acreditar que existia vida além da represa que cercava o meu bairro.

 Havia uma rotina em ir trabalhar com meu pai. Acordávamos cedo, tomávamos um café preto muito doce em casa ainda, conversávamos enquanto caminhávamos até a banca de jornal que ficava próxima à estação de trem. Meu pai comprava o mesmo jornal sempre! Parávamos no boteco da esquina e tomávamos outro café.  Caminhávamos pela plataforma da estação até onde ficam as últimas composições, porque lá havia menos gente e a chance de irmos sentados era maior. Invariavelmente meu pai cedia o seu lugar para alguma senhora e me ensinava que isso era educação e gentileza. Isso se refletiu profundamente na minha vida, porque eu nunca fiz uma viagem de trem ou metrô sentado. Sempre sentei apenas aguardando alguém para quem eu pudesse ceder o meu lugar. Tínhamos hábitos, eu amava esses hábitos.

O passeio de trem era dividido em duas partes. Na primeira, eu lia as páginas de esportes do jornal, que meu pai havia me ensinado a dobrar minuciosamente. Havia uma certa arte naquela forma de dobrar o jornal de maneira que quando você precisasse virar as páginas não acertasse um soco direto no queixo da pessoa que sentava ao seu lado. Arte. Técnica. Eram anos lendo jornal no trem às cinco da manhã que se traduziam na forma de dobrá-lo. Meu pai sabia o que fazia. A segunda parte, era de deslumbre. No meio do caminho os meus olhos se dividiam entre as notícias do futebol e os prédios que começavam a surgir. As cidades dormitórios com seus prédios pequenos, quase sobrados, iam ficando para trás e cedendo lugar aos altos prédios, e aquele movimento ralo de pessoas indo para a estação de trem era substituído por um vai e vem de gente que lembrava formigas de veraneio! Eu amava aquilo! Sentia que ao ir para a cidade grande naqueles sábados eu me tornava mais gente! Tornava-me parte do mundo real, do mundo além da neblina – companheira de vida – e mais além ainda do verde que me cercava do início ao fim do dia. De todos os dias. A cidade tinha sua mecânica, seus cheiros, suas retas, curvas e buracos negros. Eu adorava ver o nascer do sol na cidade grande, porque ele vinha esfumaçado e amarelado. Mas ora! Se havia tanta neblina onde eu morava, por que raios gostar daquele amanhecer esfumaçado da cidade grande? É que aquilo não era neblina. Era poluição! Fumaça vomitada dos escapamentos de ônibus lotados e carros velhos! Era a cidade… Ah, como eu amava a cidade! Meu pescoço doía quando saíamos do trem e começávamos a caminhar pelo centro até o nosso destino, porque eu andava como quem está no gargarejo de um espetáculo! Olhos arregalados e cabeça inclinada para cima. Via aqueles prédios infindáveis em sua altura e me perguntava “Quem faz essas coisas?”, no que rapidamente me respondia cheio de orgulho: Meu pai faz!

Quando chegávamos ao trabalho do meu pai, outro cheiro me arrebatava e se fixava na minha memória, o cheiro de obra. Era um cheiro de cimento que se misturava com a serragem do madeiramento. E tudo isso se agregava ao pó típico que se acumula no chão de uma obra, como saudade que se esfacela no capacho do peito quando o tempo passa e tudo o que resta é poeira.

Enquanto meu pai cuidava de cartões de ponto, compras para a obra e recebia os peões para um café, eu brincava com a Olivetti empoeirada no canto do cômodo onde viria a ser um banheiro chique quando a obra acabasse.

No fim do dia fazíamos o caminho de volta à estação. Despedia-me de cada prédio que eu lembrava pelo caminho e prometia a todos eles que um dia eu pegaria o trem com passagem só de vinda. Quando chegávamos à nossa cidade, antes de chegarmos em casa, meu pai parava noutro boteco. Tomava algumas cervejas, jogava sinuca, me comprava um ou dois bolinhos de carne com tubaína, um “Sensação” e depois de algumas horas chegávamos em casa.  Minha mãe nos aguardava. Nem sempre muito feliz.

[Corta. 15 anos]

Entrei naquele apartamento como quem vai não querendo gostar. O anúncio dizia “Vigésimo sexto andar. Excelentes 29 metros quadrados”. Era quase uma casinha de cachorro.  A sala era minúscula, a cozinha tinha uma janela para um vão interno do prédio de onde se viam todas as janelas abaixo e todos os seus futuros vizinhos cozinhando em roupas íntimas. O banheiro tinha aquelas cortinas que quando você liga o chuveiro voam para cima de você por causa do calor, como se quisessem fazer amor contigo! Era um horror! O quarto era ridículo, mal cabia uma cama e tinha um buraco na parede onde você deveria instalar o seu embutido e tinha uma janela. Uma janela. De onde se via desde o baixo Bixiga até o relógio do Itaú na Paulista. Olhei pela janela, vi aquela imensidão no início da noite onde o lusco fusco se mistura com os faróis de carros e as luzes dos prédios e disse baixinho: “Oi São Paulo, eu vou te ganhar!”.

Foi uma época muito louca! Bares madrugada adentro, plantas medicinais, bebedeiras homéricas, muita salsa, muitos amores, inúmeras paixões, inesquecíveis luares sonorizados pelo baixo do Flea, trabalho e mais trabalho, solidão, conquistas, derrotas, muita muita vida.

Eu te ganhei São Paulo.

Acordava cedo, tomava um banho e fumava um cigarro ainda com aquele vapor rondando o box, descia a pé os vinte e seis andares, comprava o meu jornal, dobrava-o minuciosamente para não incomodar a pessoa que se sentava ao meu lado no mesmo boteco onde eu tomava café da manhã todos os dias. Adorava os meus hábitos de cidade grande. Eu me amava na cidade grande. Adorava aquele som ininterrupto de sirenes e buzinas; A fumaça dos escapamentos me divertia! Aquela gente corrida nas faixas, parada nos pontos, os vendedores ambulantes e o cair da noite que sempre trazia novas oportunidades. Eu era da cidade. Eu era a cidade. Adorava ter conquistado tudo aquilo e ser dono do meu nariz, da minha vida. Amava ser resultado das minhas escolhas. Queria estar longe do mato, da neblina, do esquecimento. Não queria passar em branco na vida. Não seria mais uma formiga. Não seria cigarra que canta e morre seca. E não fui.

[Corta – 16 anos]

O cheiro do cabelo molhado da minha segunda filha é, sem dúvida, o cheiro da minha vida. E isso me realiza duplamente porque o cabelo dela cheira de forma idêntica ao do cabelo molhado do meu primeiro filho.

Três ou quatro vezes por semana, desde que ele era de colo ainda, eu o levo à padaria. Sempre a mesma padaria. Todos o conhecem por lá e o adoram. Apesar de irmos à padaria para comprar as coisas do café da manhã, ele toma seu café por lá mesmo. A cada momento vem alguém com um pão de queijo, uma fatia de mortadela, de queijo prato, um suco, uma fruta… De repente o rapaz que corta mortadela pega meu filho no colo e o leva para dentro da padaria para que ele conheça os fornos e onde são feitos os pães. Meu moleque vai sorridente e de lá volta com um pão quente e crocante. Eu o sento em cima do balcão de onde ele pode ver todos que chegam e o cumprimentam pelo nome, ao que ele sempre responde “Bom dia!”. Saímos da padaria, falamos sobre os grafites que sempre vemos pelo caminho, chegamos em casa e enquanto eu preparo o café para sua irmã e sua mãe, que ainda dormem, ele toma uma água de coco e conversa alucinadamente com seu E.T de pelúcia, que é sempre um bom ouvidor.

Quando não é dia de escola, vamos para a rua tentar por no alto uma pipa que fizemos juntos. Nem sempre sobe, nem sempre venta o suficiente, nem sempre damos linha o suficiente. Dar linha é fundamental. Se não há vento procuramos algum casulo pendurado numa das tantas árvores que existem na nossa vila. Acompanhamos o caminhar das formigas, ouvimos o canto da cigarra e tentamos a todo custo encontrá-la, sempre em vão. E vamos ao ninho do sabiá para ver se os filhotes já romperam suas cascas e vieram ganhar a cidade.

Se tem chuva, banho de chuva. Se não tem, banho de mangueira. Daí aproveitamos para encher aquela poça de água rasa que se transforma em piscina olímpica e forma campeões.

Se é dia de almoço especial, limpamos juntos os camarões, esquentamos o azeite e preparamos a massa. Que delícia ver aquelas mãozinhas misturando a água com a farinha e vendo surgir dali o nosso almoço.

No fim da tarde sentamos no meio da rua com os outros vizinhos e, enquanto eu tomo uma cerveja com a pequena no colo, ele corre pra lá e pra cá, brincando com os amigos ou querendo o colo da mãe, que sempre dá, porque mães são assim, mães dão. Doam. São.

Os apartamentos ficaram pra trás. Assim como aquela angústia de ganhar a cidade. Aquela ansiedade sem fim. Não sei se ganhei a cidade ou se ela me ganhou. Talvez tenhamos entrado num acordo velado. Sou dela e ela é minha. Mas não nos cobramos mais. Eu não voltaria pra minha pequena ilha cercada de mato e neblina por todos os lados. Mas aqueles cheiros, aqueles caminhos, aqueles botecos com seus cafés horrivelmente deliciosos, o correr das cidades apressadas pela janela do trem, o jornal dobrado e o caminhar com meu pai, o aguardar da minha mãe… Isso corre em mim com o suor que se deita. E apesar de hoje a vida ser mais calma, por dentro ela é uma tempestade que me joga, me movimenta e me acalenta. A pipa, a chuva, meu moleque descalço…

Ainda é a minha cidade. Mas não é a minha cidade porque agora é a nossa cidade. Eu amo, eu odeio, eu bebo, me deito e sigo. Sonho, canto, choro e caminho. Comigo, contigo. Consigo. Sim, eu consigo. Eu consegui.

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– Pai, o que é aquela fumaça branca?

– É neblina Filho. É neblina.

 

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Douglas Moreira (@dougmoreira) é natural de Rio Grande da Serra/SP. Mora em São Paulo há quase 20 anos. É ator formado pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Marido da Perla, pai orgulhoso do Filippo e da Aurora.

Filippo Frenda Moreira gosta de brincar na rua, chupar pirulito, assistir E.T e Frozen, ama a irmã Aurora e adora a escola! E, claro, adora ir ao parque da Aclimação com o papai e a mamãe! Ele é o dono das obras de arte da página.

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