RECEITA PARA UM DIA DE GAROA – NÊMESIS PARESCHI

Receita para um Dia de Garoa

Despertador tocando. Que horas são? Não acredito, tô atrasada de novo. Não quero fazer nada hoje. Levanto da cama, vou ao banheiro, uma escova de dente na pia, um par de chinelos no tapete, vou usar as roupas de ontem mesmo. Mas o perfume dele ainda está nelas. Melhor vestir outra coisa.

Que fome, vou comer alguma coisa e sair correndo. Já sinto falta do cheiro de café forte de manhã, apesar de eu sempre brigar por causa da bagunça da cozinha. Na geladeira, um pedaço da pizza favorita dele, marguerita com manjericão na massa integral; leite sem lactose, ele é alérgico; a pasta de soja que ele comprou pra começar a dieta e sempre usava maionese no lugar; queijo gorgonzola, que ele sempre usava pra fazer risotto pra mim; e um resto de vinho Reserva, Cabernet Sauvignon, minha uva favorita, tomamos juntos naquela noite… Esquece, vou comer na rua.

Celular na mão, aviso que tô atrasada. Depois de ontem não tô muito preocupada com o que os outros estão pensando. Só quero cuidar de mim e ter forças pra encarar outro dia. Tranco a porta, hoje sou a primeira e a última a sair.

No caminho, a padaria. Sempre tomávamos café da manhã aos domingos aqui. Peço um pão na chapa, na saída, requeijão e busco conforto num belo copo de pingado, café do coador, por favor. Começa a garoar lá fora, era de se esperar pra esse dia cinza. É, Terra da Garoa, hora de encarar o metrô. Compro uma garrafinha de água, mas o cheiro da coxinha está incrível como sempre.

Estação São Bento, descendo pelo lado direito ou esquerdo do trem, nunca presto atenção. Adoro essa ladeira, tanta vida aqui! Entro na quarta porta atravessando a rua. Minha chefe não tá de cara boa, mas a minha é pior. Olheiras e tristeza. Ela, já sabendo do que acontecia, me dá um sorriso acolhedor. Vai, menina, vai cozinhar.

Vestiário, cabelo preso, calça xadrez, dolmã, toque e avental. Guardo a bolsa e os problemas no armário. Bolos, tortas, éclairs, macarons e chocolate. Tudo que eu preciso hoje. Ficha técnica na mão. Preparo o mise en place. Pesar ingredientes, separar a batedeira, pré-aquecer o forno. Não posso esquecer de fazer a lista de compras de amanhã.

Vou começar pelos bolos e deixar os Petit Gateau prontos. Bolo de morango com merengue, ele ama frutas vermelhas. Torta de limão: massa no forno, recheio na geladeira, marshmallow batido. Ele gosta quando faço essa torta em dia de churrasco, diz que cai bem depois de exagerar nas carnes. Macarons em andamento, massa delicada, atenção ao ponto, cores vivas, usei as minhas favoritas. Lembro de quando tive vontade de comer macarons pela primeira vez. Ele andou a cidade e me comprou alguns mesmo sem dinheiro pra isso. Farinha de amêndoas não é um ingrediente qualquer, atenção no ponto ou perde a massa! Pronto. Só assar agora. Derreter o chocolate em banho-maria sempre, temperagem na pedra, que brilho lindo! Rechear éclairs, doce de leite, trufa e até goiabada. Tudo feito e de repente um alivio vem. Meu coração está mais calmo e minha vida, mais doce. Nem percebo o tempo passar. Como eu precisava cozinhar hoje!

4 horas da tarde e trocamos o turno. Vou almoçar finalmente, que fome de novo! Bar da esquina, há 40 anos na região, dono simpático com um pano de prato no ombro pronto pra ouvir o que quer que você queira contar. Ainda tem virado à paulista? Me traz um, por favor e uma limonada gelada.

Que tutu de feijão maravilhoso! Garoa ainda lá fora, mas me sinto confortável, como na casa da minha mãe. Comida quentinha, sorriso amigável, simplicidade à flor da pele. Bolinho de chuva com canela e açúcar pra finalizar, por conta da casa. Era tudo o que eu precisava.

Metrô, casa, solidão, mas feliz. Detalhes do dia a dia que fazem a vida ter sentido e aos poucos reconstroem a esperança. A expectativa da criança ao comer um bolo de chocolate, o consolo de uma xícara de café com leite, aquele prato de comida que lembra a infância e a beleza de poder cozinhar e levar um pouco de alegria a alguém. Pedacinho a pedacinho, ingrediente a ingrediente, eu me refaço.

Hoje quem faz o risotto sou eu. Quatro queijos. Não vou deixar um Cabernet Sauvignon estragar. Taça para vinho tinto. Banho quente primeiro! Agora sim. Faço um brownie só pra mim com muitas nozes e chocolate de primeira. Mesa posta com velas para mim mesma. Vou celebrar minha companhia hoje. Amanhã é outro dia.

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Nêmesis Pareschi (e-mail) é professora de inglês, confeiteira, graduada em Administração Hoteleira pela Universidade Anhembi Morumbi e em Gastronomia pela Universidade Metodista de São Paulo. Ama toda forma de arte, sonha em viajar por aí experimentando todas as comidas possíveis e aprendendo todas as danças que encontrar. Uma eterna aluna do mundo.