TRAÇA – MAIARA LEME

Nasci gato preto em junho ou julho de 2016, não sei bem. De pequena, eu nada sabia sobre superstição, e que nascer gato preto era tão ruim quanto passar por baixo de escada ou abrir guarda-chuva dentro de casa, mas já entendi ali que estar dentro de uma caixa com outros 5 gatos não era experiência bom.

Depois de muito sacolejar, cheguei naquele que seria o meu primeiro lar. Por sorte, eu estava enganada. Picaram-me a pata ainda antes de elogiarem meus olhos amarelos, e daquele que parecia ser o melhor sono da minha curta vida, nasceu uma dor que não me deixava deitar: machucaram a minha barriga, cortaram a minha orelha direita a qual vim a saber tempo depois que era a orelha errada, e ganhei um RG totalmente sem dados. É, ser gato preto dava mesmo vida azarada.

O lugar era um inferno, um arranca-rabo, não tinha comida para todos, nos enfrentávamos por rosquinhas coloridas, depois, nos batíamos por água, por querer andar e até mesmo por querer dormir. Gato é um bicho que gosta de bater, acharia bom ser humano que gosta de festejar. E foi assim que eu saí do inferno e fui para o meu primeiro banquete. Novamente, eu estava enganada.

O lugar era legal, as velas deixavam tudo quentinho e o cheirinho de frango com farofa estava ótimo. Vi de relance a minha imagem em uma garrafa muito engraçada, nela subiam bolinhas e lá no alto li a palavra Sidra, não podia esquecer! Eu estava feliz. Finalmente comeria e à vontade! O atordoar foi do tamanho da demora para perceber que estava sozinha e amarrada em um lugar que passavam muitas daquelas coisas que sacolejam, e todas bem perto de mim. Tive tanto medo.

Fui me esconder em um buraco e ali fiquei por vários dias, não imagino quantos. Fiquei muito magra mesmo. O medo de ser levada por aquelas coisas que corriam tanto não me deixava fugir, e depois de um tempo eu me sentia fraca para pensar, e era tanto aturdimento que não percebi que abandonei o buraco.

Chovia muito quando apareceu aquela humana e me colocou em um negócio que não tinha tomado chuva, me abraçou e me levou embora. Tive tanto medo. Entrei de novo naquele negocio que sacolejada, mas dessa vez não tinha caixa de papelão jogada no porta mala, agora eu estava quentinha emaranhara em uma pano fofinho enquanto pulava no colo.

Foi quando eu fui parar em um lugar muito claro. Muitas pessoas vieram me ver. Eu não entendia o que estava acontecendo, nem o motivo pelo qual mexiam tanto em mim. Limparam o meu rosto, me secaram, passaram uma água salgada várias vezes e em vários lugares do meu corpo magro, depois um creme, e por fim comi. Depois, eu comi outra vez. Aí, percebi que eu comia sempre. Foi quando eu achei o meu segundo lar, assim pensei.

Muito tempo depois, talvez seis dias, a humana que me levou para o meu novo lar, me levou novamente para dar um passeio. Depois de andar em um quadrado frio de metal, chegamos em um lugar muito engraçado. A humana disse pronto, chegamos em casa e eu não entendi bem por que raios ela tinha me tirado da minha casa?

Território novo, decidi explorar. O rodapé era colorido, algumas portas também. Tinha muito espaço vago só para mim. Uma mesa azul bem grande com bolinhas laranjas, a água era farta e se mexia, eu ganhei muitas borrachas coloridas para carregar, depois, achei bolinhas de pano e caixas de papelão pela casa. Estar ali era uma festa.

Foi quando a humana me chamou pela primeira vez de Traça. E eu não soube o que estava acontecendo, mas era tudo tão quentinho, e ela me dava amor, carinho, comida, e me fazia rir tanto, que sempre que ouvia Traça eu ia correndo, sempre vinha algo bom.

Demorou muito tempo para eu me aproximar daquela área aberta com vista para o mundo de fora. Tinha tanto medo, pois de lá dava para ouvir os barulhos daquelas coisas que sacolejam. Foi quando a humana começou a me levar para aquele lugar, mas ela nunca me abandonava, ficava comigo admirando a vista, enquanto me afagava. Desde então, aquele é o meu lugar favorito da casa.

A humana tem um cheiro tão bom, me lembra comida.

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Maiara Leme
 mora em São Paulo e é veterinária. Gosta de cantar no banheiro e em karaokês. Assiste séries à prestação e não vive sem requeijão. É mãe coruja de dois gatos vira-latas – Traça e Two Fu – e de um cachorro burguês, o Sparky.