A ARTE DE SER UM LEITOR EGOÍSTA

COLUNA PITACOS 

POR LETÍCIA SANTOS

*

Olá, adictos da literatura. Cá estou de novo para mais uma semana com palpites baseados puramente no que eu gosto de ler, culpem a editora, ela deixou. Semana passada terminei minhas divagações falando para vocês sobre como a solidão é um traço marcante nos romances urbanos. O medo de ficar sozinho, a ideia de ser completamente só é algo que comumente coloca nossos amados protagonistas em problemas, e nós, os leitores, somos os maiores juízes de caráter da face da terra, simplesmente adoramos apontar tudo que eles estão fazendo errado. Ah! A doce agonia de querer entrar no livro e desejar bater a cabeça da(o) protagonista(o) numa parede… quem nunca? Portanto, vamos entrar no mundo de Karin Slaughter e seu maravilhoso livro Gênese, onde temos o personagem que merece um sermão e um monte de abraços, além de um bom terapeuta.

Se vocês procuram essa sensação deliciosa de não poder largar de um livro, torcer imensamente pelo protagonista, e de quebra ler um dos melhores enredos policiais e urbanos disponíveis no mundo, vocês precisam conhecer Will Trent. Ele é o tipo de personagem que você nem pensa que é o protagonista na primeira vez que lê. Fica pensando que erraram a sinopse, que o protagonista deve ser o outro policial totalmente ativo e cheio de trejeitos e contatos pela cidade toda. Will, o protagonista do romance não é o herói comum, e me recuso a dizer o principal motivo porque seria um spoiler sem tamanho, e isso por aqui é considerado crime capital. Vamos dizer que nosso rapaz (não importa a idade do Will, você vai pensar nele como um rapaz), é um detetive fora do comum. Atlanta é a cidade que nos oprime e nos encanta nesse livro, e é onde a saga de Will tem o seu desenvolvimento.

Uma das vantagens da literatura e dos romances urbanos é ser transportado para outra realidade, uma grande metrópole do sul dos Estados Unidos é totalmente diferente de uma metrópole no Brasil, mas com as mesmas mazelas representadas de um jeito ou de outro. Por exemplo, nosso protagonista sofre com o descaso que só uma cidade grande e populosa pode oferecer, ele é vítima da metrópole, e isso é tão evidente que dói. Will caiu no sistema da assistência social, as casas de acolhimento dos Estados Unidos para os órfãos, e literalmente se perdeu no mar de crianças. Essa facilidade com que ele pôde chegar ao ponto em que o vemos dificilmente seria possível numa comunidade menor, nunca aconteceria nas cidadezinhas charmosas e bucólicas de Gilmore Girls ou Hart of Dixie (sim, o vício aqui não é só em livros). Só nas grandes metrópoles é que a individualização e a padronização das pessoas são capazes de dar margem a uma trama dessa magnitude e complexidade, se perder na multidão é essencial para um bom romance policial e urbano.

Will Trent é um personagem com várias camadas, sendo deliciosamente contraditório. Gênese é o terceiro livro da trilogia, mas é o mais importante do ponto de vista do desenvolvimento da trama romântica do nosso herói.  Uma das vantagens dos trabalhos da Karin Slaughter é que você pode ler os livros separadamente e entender a narrativa, isso porque ela costura a trama de tal forma que o enredo é finito e coeso dentro daquela obra. Claro, se vocês forem cheios de manias, como eu, vão querer começar do primeiro, Triptico, e seguir a ordem. Mas, insisto que Gênese é definitivamente o ponto alto para o conflito do amor urbano. O adorável Will tem o desafio de escolher entre a segurança do relacionamento confortável e rotineiro que já tem, ou se mergulha em algo novo, algo que o tiraria da sua rotina, e por mais que isso pareça trivial, a maior parte das pessoas gosta de rotina. Lembre-se, você sempre pega o mesmo ônibus, o mesmo metrô, come a mesma comida. Humanos são criaturas de hábitos, e para um policial com a peculiaridade que Will tem, a rotina e a constância são elementos que norteiam seu cotidiano de maneira quase impossível de mudar, ou ele corre o risco de colapsar todo o sistema que criou para sua sobrevivência.

A questão aqui é: você tem estômago para encarar a busca por um assassino cruel ao mesmo tempo em que não quer que ele seja pego logo porque isso vai terminar a interação do casal que a maior parte das pessoas quer que se concretize? Uma das coisas que os amores urbanos plantam em nós é o egoísmo literário, e nada é mais egoísta num leitor do que desejar ardentemente que Will tenha outra vítima em suas mãos para ficar mais perto dessa mulher. Agora, qual das mulheres na vida dele vai ser seu par preferido para nosso detetive, isso já é com você.