UÍSQUE DUPLO COM GELO

COLUNA

DUPLO COM GELO

POR ALEXANDRE MELO

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“Ela me deixou”

Essa é a única coisa que está em sua mente logo após terminar de atender seus últimos pacientes do dia. Ele, que se tornara um terapeuta de reconhecimento nacional, mantinha-se preso à partida de sua noiva, após um relacionamento de 10 anos.

Lembra-se de tudo o que conquistou desde que ela chegou em sua vida: antes, um homem sem foco nem planos, que vivia apenas o hoje. Ela percebeu seu potencial e sempre o incentivou para lutar por algo maior, pois sabia que ele era capaz e ele, completamente apaixonado, deixou-se levar pela luz que ela o trazia. Se formou, fez cursos de especialização, buscou os melhores profissionais do mundo para se tornar uma referência em sua área. Tudo porque um dia ela acreditou nele.

A mudança que ele passou não foi só no âmbito motivacional, acadêmico ou profissional. Começou a cuidar também de sua aparência e hoje ostenta um corpo definido, com roupas feitas sob medida pelas maiores grifes internacionais. É um homem que raramente passa despercebido pelas ruas ou nos hotéis onde se hospeda, atraindo sempre o olhar cobiçador das mulheres por onde quer que passe, muito, também, por ter conseguido resgatar o casamento de duas grandes estrelas da TV, o que lhe garantiu uma participação semanal em um programa da emissora com maior audiência do país. Com o foco na terapia de casais, utiliza em seus tratamentos as técnicas mais modernas que são descobertas nas grandes universidades mundiais, com sucesso incomparável.

Ele levanta de sua mesa, impecavelmente arrumada, e vai em direção à gigante coleção de livros que se orgulha e mantém na parede de seu consultório. Com um olhar inconformado, não consegue entender como aqueles livros conseguem ajudar a todos os pacientes que o procuram, mas que em nada adiantou para impedir a partida dela. Lamenta também nunca ter conseguido se dedicar ao seu sonho adolescente de ser escritor.

Continua caminhando pela sala, agora admirando algumas obras do pintor espanhol Joan Abelló, que o encantou em uma de suas viagens à Barcelona, onde viveu momentos inesquecíveis com ela.  Naquela viagem ele teve a certeza que ela era a mulher que ele queria compartilhar o resto da vida juntos. Continua caminhando por seu consultório, que é circundado de janelas que tomam toda parede e mostram ao fundo o movimento incessante da Avenida Paulista, suas luzes, seus visitantes. Pensa em quantas histórias de amor estão começando e terminando naquele lugar.

Volta para perto da mesa e abre o frigobar, mas resiste à garrafa de vinho que está acomodada por lá. O álcool torna-se seu refúgio em dias mais difíceis, mas ele nunca deixou que isso o dominasse. Permitia-se beber uma vez a cada quinzena, no máximo, sempre nas vésperas das suas folgas, para que isso nunca afetasse o seu lado profissional. Pega uma água com gás para se refrescar nesta noite quente de verão, um dos mais intensos dos últimos tempos, se acomoda no sofá de couro preto onde normalmente seus pacientes ficam durante as suas consultas e tenta resgatar onde ele poderia ter errado. Após meia-hora, sai do estado de torpor, levanta, apaga as luzes, fecha o consultório e vai em direção à garagem com destino ao seu carro, um BMW M240i, e sai em direção à sua casa, uma belíssima cobertura na Vila Nova Conceição.

Chegando lá, é recebido com muita alegria por Sabrino, seu cachorro da raça pug que é aquele que tem o poder de fazê-lo esquecer de qualquer dor, dúvida ou pensamento negativo. O seu amigão não o deixa em paz e não sabe o que faz, de tão feliz de ver novamente o seu dono: sai correndo pela casa, tropeçando e esbarrando no sofá, traz todos seus brinquedos para que ele jogue, puxa a barra da sua calça…

Após Sabrino se acalmar, ele enfim tira seus sapatos, sua roupa e prepara seu banho. Hoje é daqueles dias que ele quer ficar em sua banheira até relaxar completamente. Pega seu celular, abre o Spotify, escolhe uma playlist e clica no aleatório, como sempre fez durante sua vida. A imprevisibilidade, como sempre, prega suas peças e a primeira música que toca é Hard Woman, do Mick Jagger. Automaticamente ele percebe que não quer mais tomar o banho na banheira e opta por um banho rápido no chuveiro, principalmente ao ouvir o verso: “…I’ve got to let her go / I’ve got to say goodbye / How can I say goodbye to my baby? / She’s a tough cookie, hard lady / I’ve got to say goodbye…”

Em seu pensamento, dialoga com o cantor: “É Mick, eu preciso deixá-la ir, preciso dizer adeus, mas como dizer adeus para minha querida?” Termina rapidamente seu banho, veste uma roupa esportiva, pega seu celular, sua carteira, mas deixa a chave do carro no painel da sala. Essa não é uma noite que ele passará em casa sozinho, mais uma vez. Na frente do condomínio, pede um Táxi e sai, ainda sem saber para onde, um exato reflexo de sua vida.

 

 

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Alexandre Melo é contador, apaixonado por música, um bom livro, séries e filmes. Há 37 anos busca entender os mistérios que a vida e seus caminhos imperfeitos trazem. Sonha conhecer todos os países do mundo assim como as profundezas de sua própria alma.