A CASA DA VILA

COLUNA NO MEU TEMPO 

DOUGLAS MOREIRA

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A CASA DA VILA

O corretor suava e andava impaciente de um lado para o outro, aguardando que, enfim, o casal se decidisse. Já haviam feito inúmeras visitas e os problemas se repetiam: quarto pequeno, sala pequena, quintal pequeno, precisa de reformas, longe do metrô, muito caro, muito barato (os problemas devem estar escondidos). Não estava fácil encontrar um lugar para dar início à outra fase da vida.

Ao chegarem naquela vilinha, com portões na entrada e uma curva à direita que escondia seu verdadeiro tamanho, seus olhares se cruzaram com um fio de esperança de que talvez, fosse ali. Haviam acabado de olhar uma outra casa próxima, meio casa meio apartamento, e ele vislumbrou a queda das paredes, o polimento dos tacos, tintas coloridas nas paredes, crianças, churrascos, velhice… ele definitivamente estava empolgado e seu sorriso escancarado no rosto não o permitia ao menos um disfarce.

Não era o caso desta. O reboco todo descascado da parede da frente já indicava que o trabalho seria enorme. Ele esmoreceu. A travada da porta de entrada parecia o prenúncio da tragédia.  O primeiro olhar foi de desolação. Vidros quebrados, baratas mortas por todos os lados, marcas de tacos arrancados que deveriam ter sido de uma opulenta peroba rosa trazida clandestinamente de caminhão pelas estradas esburacadas do interior do país há pelo menos uns 50 anos. Só havia marcas. Não havia mais nada. O cheiro de mofo tomava conta do ambiente e a serragem fina arredondada por todos os lados lembrava que alguém ali era muito feliz. Cupins podem ser felizes.

Subindo as escadas do sobrado, ele só conseguia pensar em que momento voltariam para a casa anterior e fariam o lance que mudaria suas vidas. Cumpria tabela. O forro de cimento velho misturado com madeira tendia a cair – a qualquer momento – sobre suas cabeças divagantes e esperançosas. Não havia nada que o agradasse. O portão da entrada que o deixara com um pequeno sentimento de que desta vez poderia dar certo já não se abria o suficiente para que a esperança conseguisse passar por completa. A cada passo, uma vontade de dar três para trás e voltar uma casa.

Nada o prendia ali, porque nada havia ali. Descendo as escadas, o falastrão corretor lhes cercava como pombo que arrasta asas, procurando encontrar ou inventar naquele sertão árido uma pequena bica que os permitisse sonhar com a criação e o esverdeamento daquela paisagem seca.

Na sala de tacos arrancados, souberam que a moradora anterior esteve ali por longos cinquenta anos. De origem asiática e com inúmeros descendentes, nunca tinha feito uma reforma e nada indicava mesmo que houvesse feito. Entre a verborragia do homem suado e algumas cafungadas provenientes do pó, ele jogou seu rosto na direção da parede da sala, pouco acima da altura dos olhos, e notou duas luminárias que certamente foram esquecidas pelos familiares e pelo tempo. Provavelmente feitas à mão numa mistura de cal, cimento e gesso, pendiam fora de prumo, uma para cada lado, como se fossem sobrancelhas arqueadas pedintes dum carinho e talvez uma mão de tinta. Seu nervosismo com coisas tortas o fez caminhar até cada uma delas e colocá-las em seu devido lugar. Seu devido lugar na história. Nesse único momento, sentiu uma conexão pequena, porém, que o tirou exatamente do prumo. De leve, como brisa que se mostra e se esconde, sua nau sentiu que ali talvez houvesse terra, ainda que não totalmente à vista.

Mesmo assim, já batendo o pó das mãos e se preparando para mais uma vez agradecer e tocar sua levada, finalmente levantou os olhos e encontrou os dela, de um verde mediterrâneo, que se alastrava por todo aquele retrato e reluzia vida em qualquer canto empoeirado que se visse. Percebeu naquela fração de segundo que eram dois, dois sonhos, duas histórias, dois afluentes que se convergiam à mesma foz.

Após uma licença do senhor suor em bicas, ela o consumiu com aqueles olhos e o sorriso largo de criança que ganha presente que vem em caixa. Viu ali a queda das paredes, o polimento de novos tacos, tintas coloridas nas paredes, crianças, churrascos, velhice… viu que o nada era terreno fértil para se plantar…vida. E o feixe cadente de vida dela que transbordava daqueles olhos e da fala rápida, naquele momento iluminou cada centímetro da casa, da porta ao quintal, do caminho dos cupins ao tanque apoiado em paralelepípedos velhos… a vida dela mudou a vida dele. Arrebatou-o.

E se num primeiríssimo momento ele ainda tentou resistir, num segundo, sucumbiu.

Um ano se passou até que, entre lágrimas, copos de plástico e duas almofadas no chão, tivessem sua primeira noite na nova morada. Paredes que os impediam foram derrubadas, abrindo o espaço que a vida precisava. Tinta colorida por todos os lados e um mosaico de azulejos no quintal, divertiam e faziam pensar que seus netos adorariam falar que brincavam de descobrir qual deles se repetia em meio àquela miscelânea de cores e formas abstratas. O coração passou a bater de forma diferente. Passou a bater melhor.

Aquela casinha, naquela vilinha, que lembrava o interior de suas almas, era finalmente seu canto e descanso, e para sempre assim se chamou: casinha.

Descobriram que morar numa vila ia além de uma simples morada. Isso incluía pedir uma xícara de açúcar emprestada, emprestar um pouco de pó de café, sentar na calçada e ver as jabuticabas indo da flor à doçura, sem não antes serem quase que todas devoradas pelos sanhaços azuis-céu, observar as crianças arrancando os tampões dos dedos no asfalto irregular ao chutarem bolas ovais de tanto uso ou arranharem seus joelhos após homéricos e performáticos tombos em alguma das infindáveis corridas naquela pequena ladeira.

Descobriram que olhar para o céu e encontrar Vênus ali namorando a Lua continuava sendo possível, mesmo no meio de uma cidade caótica como a deles. Descobriram que morar numa vila os aproximava de si mesmos.

A porta nova da entrada ainda emperra, por conta do calor e da água constante que a chuva traz. E da casa velha e sem perspectiva, nada mais há lá. A não ser duas luminárias que lembram sobrancelhas, já não mais arqueadas e pedintes de carinho. Foram morar em outro lugar onde, sorridentes, recebem quem se aconchega naquele quintal de azulejos coloridos, sempre atentos às gargalhadas que vêm dos churrascos com os tantos amigos, ou dos gritos das crianças quando a chuva as pega desprevenidas, deitadas, olhando as nuvens formarem desenhos no céu.

 

 

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Douglas Moreira (@dougmoreira) é natural de Rio Grande da Serra/SP. Mora em São Paulo há quase 20 anos. É ator formado pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Marido da Perla, pai orgulhoso do Filippo e da Aurora.