A GEOGRAFIA DE NÓS DOIS

COLUNA PITACOS

LETÍCIA SANTOS

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É carnaval e eu estou lendo. Poderia estar bebendo? Sim. Poderia estar no bloquinho? Poderia também, mas sou preguiçosa e prefiro ficar em casa lendo e vendo série, mas não tem problema nenhum se você gosta mais de pular na avenida ou no bar, é uma escolha, e agradeço sempre que uma alma boa me traz caipirinha na cama. Então, vamos falar de escolhas hoje, seja ela de ir pular carnaval cantando marchinha ou pegar um livro feito para jovens adultos e se perguntar onde estava esse tipo de amor quando a gente era jovem, ou se você for o jovem, cadê esse crush maravilhoso (notem que a tia é fluente em gírias atuais). Apresentarei a vocês A Geografia de Nós Dois, da Jennifer E. Smith, uma preciosidade leve e envolvente do romance juvenil.

Quem não quer começar um amor em Nova York? Essa cidade é o sonho de consumo de muita gente e o primeiro palco do amor entre Lucy e Owen. Já falei aqui dos recortes incríveis que um romance urbano é capaz de fazer sobre organização social e cotidiano das cidades, conseguindo mostrar mundos totalmente diferentes, e neste livro a autora foi capaz de fazer isso de maneira delicada e que nos faz visualizar cada cidade em que os protagonistas estão.

Em cidades grandes costumamos ter dois lados opostos, o rico e o pobre, nesse caso, os dois não estão em bairros distintos, mas no mesmo prédio, a realidade verticalizada, quanto mais alto no andar, mais dinheiro você tem. Essa é uma história que se baseia no clichê do amor entre classes sociais diferentes, mas, não existe uma pressão dos pais ou tramoias de um(a) antagonista para separar o casal, o que acontece com eles é a vida.

Sendo de classes sociais diferentes e adolescentes sustentados pelos pais, eles precisam responder a certas expectativas e seguir os direcionamentos de suas famílias, e isso no livro não é mostrado como se os pais fossem vilões malvados, é apenas a vida, não era o momento deles ainda. Amores adolescentes tendem a ser enfadonhos para mim porque pecam por adotarem um tom definitivo, como se não houvesse amanhã ou se realmente o relacionamento fosse ser eterno, aqui não acontece isso. A autora nos apresenta esses dois personagens se conhecendo e interagindo num dia que tinha tudo para ser extremamente ruim para ambos, mas que melhora devido ao contato mútuo. Não vou contar qual é o evento que os une, mas posso dizer que é algo que os brasileiros se identificariam na hora e podem imaginar perfeitamente, principalmente a inquietação dos jovens nessa situação.

Uma das coisas mais interessantes nesse livro (além do fato de dois adolescentes nos dias de hoje sendo tão maduros), é que o romance começa em Nova York, mas mostra uma série de outras cidades, tudo isso porque em a Geografia de Nós Dois, o casal evolui separadamente, por motivos econômicos e de escolhas de estudos, ou rumos para a vida que estão entrelaçados com decisões familiares também. Enquanto Owen fica nos Estados Unidos, nos mostrando um pouco de como o sistema escolar deles é tão diferente do nosso, Lucy vai para a Europa, e a pobre moça sofre o pior pesadelo de quem vive em cidade grande e gosta da selva de pedra: vai para uma cidade com opções bem limitadas de vida social e distração.

O engraçado é que mesmo estando a meio mundo de distância, os dois tentam manter contato de uma forma não convencional e totalmente fofa. Lucy e Owen terminam sendo uma referência na vida um do outro, mesmo quando se envolvem com outras pessoas, o que claramente não é bom prelúdio para novos relacionamentos. É bonito e ao mesmo tempo em que dá uma pena enorme, já que sentimos a saudade e o desejo que os dois tem de se reencontrar, vivemos as dificuldades de adaptação que sofrem e sentimos junto com eles porque a narrativa é delicada e profunda ao mesmo tempo, nos levando pelas viagens dos dois, sejam elas mudanças de território geográfico, ou suas introspecções em sentimentos confusos.

Os dois sofrem de lonjuras, meus amigos, e disso a gente entende, quem nunca ficou meses sem ver um amigo querido que mora na mesma cidade? Mas, não pensem que esse livro é deprimente, muito pelo contrário. Esses dois jovens sempre têm escolhas, e por incrível que pareça, sempre fazem a coisa mais acertada para seu momento, nos presenteando com viagens por cidades encantadoras que os fazem dançar para longe e para perto, num ritmo que nos faz torcer para que finalmente estejam juntos. Esse romance é uma leitura leve e deliciosa, dá pra fazer em um dia se você estiver animado, invista nele, vale a pena.