NAQUELE DIA

COLUNA NO MEU TEMPO 

POR DOUGLAS MOREIRA

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Naquele dia, levantou seus olhos marejados, olhou-o profundamente e sem qualquer palavra, disse que estava cansada.
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Catorze longos anos antes, num dia de garoa fina com aquele vento gelado e cortante que se canaliza por entre os prédios petrificando a ponta do nariz, levantou-se da cama decidido que não enfrentaria a barra de estar só em São Paulo. Não estava preparado. A solidão da cidade grande o consumia e ele fugia dela como quem foge da terra se esvaindo atrás de si num pesadelo daqueles que parecem não ter fim. Levantou, trocou de roupa, pediu um pão na chapa sem amassar, tomou um café no boteco da esquina e saiu decidido a encontrar alguém. Era seu dia de folga e, encapotado, saiu sem rumo pelas ruas do centro à procura de um olhar que o cativasse, que retribuísse sua solidão e, talvez, com um pouco de pena dele, aceitasse seu ombro, seu calor, seu abraço.

A cada esquina uma troca de olhar diferente, olhares de medo, angústia, fome, sono… inúmeras emoções se amontoavam, porém, nenhuma que estimulasse o ímpeto para iniciar uma boa conversa ao pé do ouvido, ou trocar um cafuné sem compromisso. Caminhou gélido por toda aquela manhã de fim de outono sem que seu coração batesse de forma diferente, sem sentir algo que não sabia explicar, mas que sabia que ao sentir, reconheceria.

Foi na esquina de uma pequena rua na República que finalmente o frio derrocou e lhe tomou conta um breve sorriso que riscou seu canto de boca. Ele estava ansioso, ela, acompanhada. Não sabia como se aproximar, pensou se realmente era a atitude certa, repassou seus dias de solidão e ainda no contrapé, decidiu que sim. É agora! É ela! – pensou. Procurou informações com a moça do balcão antes de iniciar qualquer tipo de contato e descobriu que quem a acompanhava era seu irmão, cego. Tomado de alívio e um certo egoísmo, espelhou-se em seus enormes e reticentes olhos verdes que tudo viam e se viu como há muito não se via: Atordoadamente feliz. Ali, por um único, pequeno, infinito e arrebatador momento, viu-se irremediavelmente apaixonado.

Irem morar juntos foi de início absolutamente frustrante. Estaria mesmo preparado? Estariam? Aquela centelha de paixão do primeiro momento não se traduziu no cotidiano que viria a seguir. Não se entendiam, discutiam ferozmente, não tinham rotinas e tampouco histórias parecidas, não conseguiam ficar no mesmo espaço… muito mais por ela do que por ele, que ansiava carinho, atenção e desesperadamente tentava se livrar daquela solidão que crescia como raiz embebida em tempo de chuva. Porém, no inverno que se seguiu, os ventos mudaram, trazendo um frio ainda mais intenso que exigiu calor daqueles corações descobertos. E assim, numa noite ainda mais polar do que aquela manhã em que se conheceram, cederam, se aconchegaram no canto do sofá e sem emitir nenhum som que traduzisse a trégua, adormeceram juntos pela primeira vez. A paixão se foi – como se vai sempre – cedendo espaço a um amor sem prazo de validade que, ainda que finito fisicamente, seria intenso e sublime.

Incontáveis foram as noites de frio onde se entrelaçavam ou de calor onde se perdiam, as tantas em que assistiam qualquer bobagem na TV até a madrugada. Apesar de ela não beber, deitada em seu colo o acompanhava em suas incontáveis taças de vinho, retribuindo suas risadas bêbadas com uma roçada ao pé do ouvido. Eram felizes. Ciumenta, brava, temperamental, carinhosa, mal-educada, sincera e profundamente apaixonada por ele. Assim como ele por ela.

Não foi fácil para ela entender que mais gente, em algum momento, viria a fazer parte daquele romance ideal. Quando notou que outro par de olhos verdes caminhavam pelo pequeno apartamento e deixavam pegadas num terreno que era só dela, até então, uma incontrolável ira interna tomou conta de seu pequeno coração e, nervosa, evitou-o por um tempo. Ao perceber que não era mais a única em sua vida, irracionalmente se afastou por um tempo. O tempo do luto, da aceitação, da permissão. Ela não sabia, não tinha como saber, mas sim, era única.

Alguns anos se passaram e aquele relacionamento único entre os dois rapidamente se tornou um amor polígamo, onde inúmeras emoções se confundiam entre carinhos, gritos, arranhões e pedidos silenciosos de desculpas.

Não foi fácil para Maria, aquela gata vira-lata encontrada num petshop escondido numa ruinha do centro da cidade, aceitar que ele agora tinha uma esposa, que trazia na bagagem outras três gatas. E como se não bastasse, logo um bebê chegaria sem pedir licença, dividindo de maneira ainda mais injusta a atenção de seu amado. – Vida injusta! – Ela certamente gritaria se pudesse, logo após arranhá-lo profundamente como uma jaguatirica acuada de amor incompreendido.

Os anos se passaram e ela nunca se acostumou totalmente com aquela situação, com o ter que compartilhar sua outra metade com mais tanta gente. Apesar disso, amou-o profundamente por todos os dias de sua vida. Assim como ele a amaria para além dos dias de vida dela.

Naquela manhã em que nela não havia mais força suficiente para manter-se em pé, ele a tomou nos braços assim como fez por intensos catorze anos. Mirou profunda e amorosamente seus olhos verdes marejados, reflexo da inundação dos dele, lhe disse muito além da milionésima vez que a amava, a respeitava e que não sabia como agradecê-la por ter-lhe dado tanto amor, sem nunca lhe pedir nada em troca. Amor que não cabia numa vida só, amor que não se explica porque não é feito de palavras, é feito daquela matéria impalpável que toma o peito e comprime o ar que sai sem querer sair, expulso num suspiro que alivia e descansa o corpo. Ela, tal qual na primeira vez em que se viram, nada disse, nada miou. Abriu uma última vez aqueles olhos de um verde turmalina que tantas vezes o acolheram, aconchegou-se em seu colo, colocou sua pata sobre a mão dele, amansou lentamente a cabeça, cerrou os olhos e tornou-se eternidade.

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