SABRINO

COLUNA DUPLO COM GELO

POR ALEXANDRE MELO

*

Depois de uma sequência de dias cheios no trabalho, um dia de folga vem bem a calhar. Ele tinha planejado dormir até mais tarde, mas às 7 horas em ponto acorda assustado com lambidas em seu rosto. Com uma expressão confusa, tenta entender como Sabrino pulou na cama e acabou com sua ideia de dormir, com sorte, até às 10 horas, mas o carinho incondicional do seu cão o desarma e logo um sorriso aparece em seu rosto. Enquanto percebe a barra do edredom sendo atacada ferozmente, vai até o banheiro para sua rotina matinal. Lava o rosto, escova os dentes e coloca uma calça de moletom preta bem confortável e uma camiseta branca larga, da época que estava acima do peso.

Vai em direção à cozinha para preparar um café, aproveitando a distração de cachorro. Resolve fazer uma refeição mais caprichada pela manhã: faz um suco de laranja, uma tigela de cereais com iogurte e vai preparar uma omelete recheada com queijo, presunto, requeijão e toques de orégano. Ainda sonolento, não percebe que a bandeja do presunto está à beira da mesa e escuta o barulho desta caindo no chão. Antes que possa esboçar qualquer reação, percebe um pequeno vulto que aparece e desaparece como se fosse um ninja. Sabrino, que segundos antes estava em sua cama brincando com o edredom, agora está na sala se deliciando com todas as fatias que conseguiu pegar. Provavelmente essa é uma refeição que o seu cachorro não esquecerá.

Após ter tomado o café, levanta, lava a louça e cogita ir para a academia, ideia que rapidamente sai da sua mente. Se sente com um leve torpor, com reações e pensamentos mais lentos do que o habitual, com uma preguiça incomum em seus dias de folga. Ao mesmo tempo, deseja aproveitar esse dia de outubro, com uma temperatura bem agradável e um lindo céu azul, e resolve passear pelo parque Ibirapuera com seu companheiro inseparável. Calça um tênis, pega seus óculos escuros, a chave do carro e a coleira do cachorro. Quando Sabrino percebe que ele pegou a coleira, sai correndo de felicidade, tropeçando em tudo, como já é de costume. Ele o pega no colo e após chegar em seu veículo, o acomoda de uma forma que ele fique quietinho até o destino, mas instantes depois, após o carro começar a se movimentar, já o percebe todo agitado em sua cadeira de transporte.

Chegando no parque, coloca os seus óculos, o fone de ouvido, escolhendo a playlist das suas 100 músicas preferidas, põe a coleira em seu cão e começa a caminhar em um ritmo mais acelerado do que gostaria, por causa da ansiedade e agitação de Sabrino. Como em qualquer sábado no Ibirapuera, percebe-se uma grande movimentação de pessoas, mas neste dia ele não consegue se conectar com a agitação local. Vê as bicicletas passando, casais de mãos dadas, pais com seus filhos, mas se sente como se estivesse numa dimensão paralela. Toma sua água com gás e vai ao setor do parque reservado aos cachorros, onde solta o seu Pug para brincar, correr e gastar uma energia que parece não ter fim.

Ele nem vê a hora passar e quando percebe já são quase 16 horas. Coloca Sabrino na coleira e se prepara para ir embora quando nota um amigo da época da faculdade vindo em sua direção. Eles trocam trivialidades e quando seu amigo pergunta como está seu relacionamento, ele desconversa e já sinaliza que está indo embora. Já faz algum tempo que o peso que o oprimia no passado não tem mais a mesma intensidade, mas não é num dia leve como este, que ele sente a liberdade palpável como há tempos não sentia, que ele vai permitir que esses pensamentos venham à tona.

Entra no prédio, deixa Sabrino no apartamento e sai novamente em direção ao mesmo mercado que frequenta desde que se mudou para este bairro. Hoje ele não quer fazer nenhuma refeição elaborada, então busca os itens que já faziam parte da sua rotina: queijo gouda, salame italiano, um vinho Pinot Noir, um pote de sorvete Häagen-Dazs, entre outros. Já na fila para passar no caixa, ele olha para o carrinho e tem uma percepção que algo ali estava errado, se retira imediatamente devolvendo todos os itens aos seus lugares. Sentiu uma necessidade de resgatar aquela pessoa que era em seu passado, aquele adolescente com vontade de conhecer o mundo. Ser novamente, pelo menos por aquele dia, o Gustavo Santana sonhador, e não o Gustavo Santana terapeuta renomado. Ao olhar seu carrinho agora, abre um largo sorriso ao ver o que tinha: amendoins variados, salgadinhos, tubaína, ameixas e uma caixa de mini Eskibon, além de um saquinho de petiscos caninos em forma de palito que o Sabrino tanto adora. Assim que chega sua vez, a caixa, habituada ao vê-lo comprar os mesmos produtos de sempre, pergunta se era isso mesmo que ele levaria. Com sorriso no rosto, ele confirma e paga o valor indicado pelo computador.

Ao chegar em casa, dá alguns palitos para o cachorro, o que o deixa satisfeito por algum tempo, e prepara todos os petiscos comprados para consumir enquanto coloca para assistir uma série que uma paciente indicou. A série não o seduz em nenhum momento e no meio do terceiro episódio ele já está dormindo em seu sofá. Ao abrir os olhos, percebe que já é noite e olha para o chão onde vê Sabrino exatamente na mesma posição que a dele, todo encolhido. Dá um sorriso e percebe que mesmo tendo a possibilidade das maiores realizações, a sua satisfação verdadeira pode estar nas coisas simples.