HOJE NÃO

COLUNA NO MEU TEMPO 

POR DOUGLAS MOREIRA

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Minha ideia para hoje era escrever um conto de leitura fácil. Algo bem clichê, que fosse doce e aconchegante. Falar sobre as agruras de ser pai ou sobre a diversão que é morar numa vilinha. Porém, não será possível.

Isso porque, por mais que eu queira, não consigo fugir da tragédia que se impôs nestes últimos dias. Uma tragédia diária que, quando não muito exposta, quase passa despercebida, mas que quando esfregada nua e crua na nossa cara, nos desnorteia, nos tira o chão, nos entope as veias de uma realidade amarga.

Diante da barbárie, ficamos atordoados. A morte como rotina não é exatamente algo que consigamos nos acostumar. Assistir a vozes de luta serem sobrepostas pelo som do estampido das armas é desolador, desanimador. É amedrontador.

Há uma diferença enorme entre sentir medo quando você é uma alma vagante e solitária na vida louca e seu medo é que lhe roubem o celular se você estiver bêbado num ponto de ônibus. E quando você tem uma família, esposa ou marido, crianças em casa, você vive por eles e deseja a todo instante ter um escudo mágico que os proteja de todo e qualquer tipo de violência. Você sente medo, muito medo.

 É triste que o medo tome conta de seus pensamentos quando você sai de carro, para num semáforo com seu filho na cadeirinha e vê uma pessoa se aproximando. Ela vem vender uma bala, pedir esmola ou lhe assaltar? Este é o resultado do terror: ele acaba com o espaço da compaixão.

É noite de sexta e quando você acredita que não há mais nada que possa lhe afetar, você vê na TV que em mais um tiroteio uma criança de um ano perdeu a vida. Um ano apenas. A mesma idade da criança que perdeu o pai no dia anterior. Duas crianças de um ano que não terão a infância que mereciam, que qualquer criança merece.

Queria ser mais hábil e ter a competência de dissertar e analisar tudo isso sob um ponto de vista sociológico, filosófico, apontar falhas, instigar soluções…, mas hoje não. Hoje, me perdoem, eu só consigo ficar triste.

 

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Imagem: Jean-Michel Basquiat