SOBRE PEQUENAS E GRANDES FELICIDADES

COLUNA NO MEU TEMPO 

POR DOUGLAS MOREIRA

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Grandes felicidades. Poucas vezes somos tomados de emoção de forma abrupta dos pés à cabeça. Me lembro, quando criança, da emoção de aprender a andar de bicicleta, de quase pegar o papai Noel na sala deixando os presentes, ou já adolescente, do primeiro amor, do primeiro beijo… já mais adulto, de ser aprovado na escola de teatro após algumas tentativas, encontrar o amor da sua vida e que te dará filhos lindos e incríveis, assistir o nascimento das suas crianças… A verdade é que emoções fortes nos tomam por completo raras vezes na vida. Aquele sentimento que te invade, te traz lágrimas, te deixa com a respiração acelerada. Ah, como é bom sentir que você está vivo e que a vida nestes momentos se abre para novos horizontes onde você vislumbra um futuro de felicidade plena!

E as pequenas felicidades? Aquelas que no nosso dia a dia são as que nos injetam gasolina e que nos dão fôlego para continuar acreditando em dias melhores. Ganhar um dinheiro extra, comemorar o aniversário da sua esposa comendo um hambúrguer clássico tão despretensioso quanto gostoso, ver seu filho conseguindo dar aquele pulo do sofá que ele estava ensaiando há tanto tempo, ver sua filha conseguindo virar sozinha em cima da cama após trezentas e vinte e sete tentativas seguidas, ver que seus vizinhos ficaram contentes com algumas coisinhas que você ajudou a fazer na vila onde mora, receber aquele abraço apertado daquela pessoa com lágrimas nos olhos que acabou de te assistir em cena, desligar o celular durante todo o final de semana, não ter prazo pra entregar um trabalho pra poder se dedicar a ele com afinco e saber que terá tempo de dar seu melhor, comer pipoca vendo Toy Story pela enésima vez com seu pequeno… Taí! Essas são as nossas pílulas diárias de ânimo.

Mas nesta semana tive uma felicidade que não se compara a qualquer outra! Por não ser do tipo grande, daquelas que impõe uma curva na sua vida, por não ser pequena, daquelas que te empurram na caminhada diária. Esta semana foi tresloucada! Ganhei da minha esposa uma máquina de lavar louças! Sim, uma máquina de lavar louças que lava as louças de verdade! Me vi criança ganhando brinquedo novo, me vi adulto ganhando brinquedo novo! – Ora – talvez alguns digam – Mas que futilidade! – Sim, mas uma futilidade que me fez verter lágrimas!

Sejamos sinceros, extremamente sinceros: Você gosta de lavar a louça? Você ama lavar a louça? Vou expor em números o quanto a louça é um atraso na sua vida. Vamos a contas básicas e de padaria sobre de quanto tempo você desperdiça na sua vida lavando a louça!  Se uma pessoa normal (porque há as anormais que adoram lavar louça e lavam 4 vezes por dia!) faz isso entre os seus 10 e 70 anos, são 21.900 dias em que você tem que encostar a barriga na pia para deixar brilhando aquele prato que vai ser sujo dali algumas horas novamente. Se você gasta 30 minutos por dia fazendo isso, são 657.000 minutos, que correspondem a 10.950 horas, que se traduzem em 456 dias ou, traduzindo em miúdos, você passa 1 ano e 3 meses da sua vida lavando louça!

Certamente você nunca fez essa conta, mas pare imediatamente para pensar que você passa 1 ano e 3 meses da sua vida esfregando pratos! Ok, eu poderia fazer a conta de quanto tempo você perde na vida dentro do trem indo trabalhar, ou dentro do seu carro no congestionamento, mas estas não são opções! Lavar a louça é! E é uma opção que eu não entendo! Definitivamente eu não quero passar quase um ano e meio da minha vida lavando louça! Não quero perder um tempo inacreditável lavando caneca, esfregando garfo ou tentando tirar aquela sujeira encrustada da panela de feijão que queimou! Não quero… sabe o que eu quero? Passar mais um ano e três meses da minha vida vendo meu filho brincar, minha filha rolar na cama, olhando para a minha esposa, tomando cerveja (no copo, porque eu sei que a máquina vai lavar!), indo à praia, ao parque, ao cinema, lendo um livro, ou simplesmente assistindo um capítulo de Black Mirror onde as máquinas de lavar louça do futuro são dotadas de uma inteligência artificial que as faz revoltarem-se contra os humanos por não suportarem mais lavar louça e quererem sua libertação! Eu quero ter tempo para o ócio!

Sim, talvez eu esteja exagerando. Afinal, como impressionar aquela crush (ainda está em voga esse verbete?) lavando a louça do jantar do primeiro encontro? Ou como tirar das pessoas o direito de serem legais e se oferecerem para lavar aquela louça pós-churrasco quando estão entupidas de picanha, coraçãozinho e cerveja, abduzidas pela digestão, mas que ainda encontram forças para dar aquele tapinha nos pratos e fazerem a política de bom convidado? Ah… como? Me digam! Como usurpar aquele grito – Deixa que eu lavo a louça! -sufocado na garganta das pessoas logo depois daquela feijoada de sábado? É, definitivamente estou exagerando. Lavar a louça é poético – assemelha-se a lavar a alma. Alguns dirão que é um momento de reflexão… Sim, é. Um momento em que você despende energia e esfrega até ver seu rosto refletido no fundo de um prato.

E há uma coisa que poucas pessoas param para pensar e isso talvez seja a maior verdade em relação ao tema: A louça é eterna. Ela sempre existirá, você não. Assim como um desodorante fuleiro, a louça não te abandona. Sendo assim, o primeiro passo em direção à libertação tem de ser dado por você, ou por alguém que o ame profundamente (como no caso da minha esposa), que vai te arrancar as amarras, apartá-lo desse rodamoinho detergental (inventei,ok.) e colocá-lo novamente no caminho da luz. Da luz do botão “ligar” da sua máquina de lavar.

Por tudo isso, lanço aqui esse manifesto! Que todos tenham, em algum momento de suas vidas, o direito à uma máquina de lavar louças, porque a vida é mais que pratos sujos, talheres incrustados e panelas encardidas! Porque eu não quero uma vida na louça! Eu quero é uma vida louca!

Ps.: Meu bem, obrigado! Me emociono só de lembrar que estávamos juntos na hora de colocá-la para funcionar pela primeira vez. Aquele spray de água jamais vai sair da minha memória… precisamos dar um nome para ela. Beijo.

 

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Imagem: Joan Miró