NÃO É VOCÊ, SOU EU – VIVIANE BECCARIA

“Como ele pôde fazer isso comigo?”, perguntava-se ela durante a tempestade de pensamentos no cativeiro de seu leito. Ela não esperava perceber que todo fim é um luto. Vontade de morrer, vontade de matar aquele maldito que a deixou.

“Não é você, sou eu!”, a justificativa mais blasée e covarde que um homem pode dar a uma mulher despedaçada, traída, humilhada. “Sei lá, não sinto mais tesão, parece que não há mais aventura, descobertas entre nós dois, vamos seguir nossas vidas separados…” Cada palavra é uma facada, cada justificativa é uma sensação de horror.

Ela se levanta e, encarando o espelho, percebe o asco subindo pelas suas entranhas: “a culpa é minha, eu não me dediquei o suficiente, nunca mais serei amada novamente! Não sou boa o bastante para ter novamente um homem que me faça feliz!”.

O choro dissimulado não consegue mais se esconder e ele vai se tornando violento, invasivo, fazendo com que seu corpo estremeça, dilacerando o que sobrou de sua alma. As lágrimas duraram por muitas horas, lavando todas as impressões, deixando um vazio, uma falta barulhenta. Ela não queria mais ouvir! Ela precisava fugir!

Ao secar o seu rosto, ela já não era mais a mesma…Respirou fundo, ergueu-se e saiu. Deixando seu passado atrás daquela porta, olhava ao redor, não mais distraída, encantada pelo príncipe que virou sapo. Não! Ela passou a perceber o mundo, a enxergar as pessoas.

Enxergou a bela mulher que caminhava confiante e feliz com sua própria companhia, enxergou aquele casal que de tão confortáveis com a presença do outro, pareciam uma única pessoa. Enxergou aquele grupo de amigas conversando alegremente enquanto apreciavam suas cervejas no bar da esquina. “Qual é o segredo da felicidade deles?”, ela se perguntava, namorando a ideia de que a ausência dele não precisava ser mais uma presença.

Demorou certo tempo, dias talvez… Porém, em uma manhã de primavera, ela finalmente descobriu a resposta para todas as suas indagações, questionamentos, críticas. Ela ficou satisfeita, enfim. Apreciava o quanto sua própria presença lhe fazia feliz, aprendeu que o outro é o reflexo de sua energia e espírito, compreendeu que a sua plenitude não era responsabilidade de homem algum, era exclusivamente dela.

Livre, desabrochou, sua luz iluminava qualquer caminho que decidia seguir, seja com alguém ao seu lado, seja sozinha. Ela se bastava, ela era incrível, ela era dona de si!

Mas… E ele? Ele andava cabisbaixo por aí, procurando a felicidade em outros corpos. Continuou sem tesão, sem aventuras, pois ninguém foi capaz de fazer isso por ele. Mandou uma mensagem para ela; “sinto saudades, vejo que você está cada vez mais linda!”. Ela, com seu melhor sorriso, digitou: “não é você, sou eu! Só quero agora perto de mim quem é reflexo de minha alma!”.

 

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Viviane Beccaria 
(e-mail) é mãe coruja, professora e filósofa de botequim. Formada em Letras pelo Mackenzie e especialista em Língua e Literatura Inglesa. Apaixonada por cultura em geral (pop, cult, trash) e fascinada por música, tem uma trilha sonora (e um tema!) para todos os seus dias. Conte com ela para tomar aquela cerveja e conversar sobre o sentido (ou a falta dele) da vida.