um poema de fábio pessanha

1.
a gente brincava de dizer
o que não se podia fazer nos domingos
de inverno, a gente corria
para casa com as mãos cheias.
exageramos de tanto crescer
para dentro das palavras.

2.
quando a gritaria se desfizesse
essa lenta letargia
da voz iria aos ouvidos
parcos. poucos
eram os laços que entoavam
gargantas meio tom abaixo
da harmonia que se fazia franca
ao destino replicante do eco.

3.
flertava contra a ilusão de se haver
anoitecido antes do tempo,
queria apenas
aquela voz rouca
arranhada
nos ouvidos

4.
era violência o que não faltava.

5.
toda tentativa de se arcar com os gritos era em vão.
a vingança era larga na satisfação do corpo errado.
os corpos se erravam muito. abriam-se
veias para o fluido rubro dos sonhos, desfeitos
na hora em que se chegava atrasado ao desejo
de flutuar sem asas, pois só havia pernas.

6.
corria.

7.
contra ou a favor, o tempo não importava,
nunca importa.       apenas corria.       o caminho
riscava o céu num desenho erguido entre o verde
e o violeta.           corria.        seguia o pé alçado
dentre tantos descaminhos. a sola era quente,
tomada de desvios.

8.
vingavam-se as horas
em que retilíneas eram as mãos
absolvidas do próprio tato.

provava-se de tudo nessa vilania.

comia-se de boca aberta para deixar os dentes
à mostra. bebia-se da saliva que respingava
na parede aberta contra a vontade dos murros.

9.
o buraco já escancarava o muro
e se enraizava uma luz ante os olhos
que só sabiam suas

10.
pálpebras.

 

*
Fábio Pessanha (Propriedade do Irreversível / Facebook) é poeta, doutorando em Teoria Literária e mestre em Poética, tudo pela UFRJ. Publicou ensaios em periódicos sobre sua pesquisa atual, a respeito do sentido poético das palavras, partindo das obras de Manoel de Barros e Paulo Leminski. É membro do NIEP – Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Poética, também na UFRJ. Coordenou e ministrou cursos no projeto de extensão “Poéticas – Projeto de Formação de Leitores Literários”, pela UNIRIO, realizado durante o ano de 2016 na Biblioteca Parque de Niterói. É autor do livro A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos e coorganizador do livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento, além de participar como ensaísta em outros livros e periódicos.