A (R)EVOLUÇÃO DAS MULHERES

COLUNA PITACOS 

POR LETICIA SANTOS

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Alex Craft é a personagem principal do livro A (r)evolução das mulheres. Ela é uma personagem fictícia, mas ela poderia ser eu, ela poderia ser qualquer mulher que resolveu que já é o suficiente, que não dá mais. A primeira coisa que você precisa pensar antes de ler esse livro é se está disposto a uma leitura realmente pesada, e não por causa das cenas explícitas, mas porque esse livro vai te levar para um lugar realmente escuro da natureza humana. Nessa obra, vamos entrar na parte primitiva que todos nós temos, aquela que nos faz ler esse livro e pensar: vamos caçar todos os estupradores e matá-los.

Mindy McGinnis conseguiu racionalizar completamente o assassinato a sangue frio e isso é um feito a ser aplaudido, e não se assustem, não estou dando spoiler, porque toda a premissa do livro te prepara para isso, inclusive uma das características da edição me causou estranhamento e certo fascínio, estava pronta para reclamar na editora até perceber o que era.

Falando sobre o livro e a vingança, Alex não é só uma menina que perdeu a irmã para um estuprador, ela simplesmente não aceitou que isso continuasse impune. A justiça não foi feita e isso a torturou, ela não podia lidar com o fato de que o homem que estuprou e matou sua irmã estivesse livre pela cidade pequena, esfregando na cara da sociedade que estava livre para fazer de novo quando bem entendesse. É então que ela começa a arquitetar sua vingança, e é aqui que isso me tocou profundamente, já que o livro está todo escrito em primeira pessoa, é muito fácil para uma leitora se colocar no lugar da Alex.

Aí você, leitor, pode estar franzindo o cenho para mim e dizendo mentalmente que leitores também podem se colocar no lugar da Alex, e eu digo não, vocês não podem. Esse livro é sobre mulheres, é sobre como a sociedade nos desumaniza e de como uma jovem garota resolve que pelo menos no ambiente que a rodeia isso não será tolerado, para alguém que não tem medo de ser estuprado e terminar sendo culpado por isso é difícil entender as ações da nossa protagonista, algumas delas vocês podem até achar exageradas demais. Mas, não se assustem, apesar do título e da premissa que o guia, o livro tem um narrador masculino, isso mesmo, o interesse amoroso da Alex ganha voz, ele é o contraponto masculino que se entremeia entre as vozes da Alex e da amiga que se esgueirou para sua vida, e cujo aparecimento e circunstâncias não vou esclarecer para não roubar a surpresa.

Um ponto importante a ser ressaltado aqui, é que quase joguei o livro na parede ao ver que ela teria de interesse amoroso um clichê teen americano padrão, sério, já estava preparando os dedos para acabar com a autora pelo vacilo gigante num livro desse calibre, mas fui gratamente surpreendida. Alex tem um romance que é permeado pela visão única que ela desenvolveu do mundo e dos garotos, ela vê o mundo de forma objetiva e isso é lindo, ela pede uma aceitação e a oferta de uma maneira que torna o relacionamento deles mais maduros que muitos outros retratados como verdadeiros clássicos eternos, tudo isso sem que ela sempre se lembre que tem um objetivo maior, que sua vida já não é dela, porque ela é uma vingadora.

A vingança da Alex é realmente uma missão, porque é o que movimenta a vida dela desde o momento em que esse tipo de violência entrou em seu cotidiano, a narrativa dela é toda pautada no antes e depois, como era a Alex antes de ser contaminada e como ela ficou depois, como se ergueu e se recompôs de um trauma tão grande que a maior parte das pessoas não pode lidar, como acontece com um dos personagens do livro.

Na minha coluna de apresentação do tema desse bimestre falei de como há pessoas que sofrem uma ofensa, ou violência, e são evoluídas espiritualmente o suficiente para sair da experiência com o coração aberto e com uma bela lição de vida. Sinto muito, mas não acho esse tipo de pessoa muito fácil de estabelecer empatia, o ser humano é falho e essa perfeição toda me incomoda em personagens. Entendo os que se entregam à dor, porque algumas coisas simplesmente não saram, não tem como. Pode-se, claro, se aprender a conviver com um grande trauma, mas dar a outra face e praticar o perdão é até ofensivo na minha concepção, sou rancorosa até a medula, reconheço.

Aqui nesse livro temos só as pessoas que se entregaram ao sofrimento, mas que tomam dois caminhos distintos: passivo ou ativo. O agente passivo do sofrimento só o aceita e o torna parte de seu cotidiano, geralmente se tornando tóxico, e não porque é triste, mas porque se recusa a deixar o trauma ir embora, lembrando a todos de uma realidade que preferiam esquecer, fazendo com que todos a sua volta saibam o motivo de sua miséria e sejam afetados negativamente por isso. E temos o agente ativo, aquele que também se recusa a deixar o trauma ir embora, mas que faz dele seu combustível de vingança, seja social ou pessoal, e Alex age nos dois âmbitos. Ela relembra sua pequena cidade que coisas horríveis são feitas para mulheres por homens que todo mundo sabe quem é, ela faz seus colegas da escola se lembrarem que certos padrões de comportamento são a base para a cultura do estupro, ela incomoda ativamente o mundo com a lembrança constante que a violência contra as mulheres é real e está acontecendo o tempo todo. E, por fim, ela me levou a uma conclusão triste: a vingança é redenção, mas é danação ao mesmo tempo.

Leiam esse livro, ele vale cada centavo e cada pontada no coração que vocês vão sentir, confiem em mim nessa.