VILÕES E MOCINHOS DA DISNEY: A HETERONORMATIVIDADE E AS SEXUALIDADES FORA DE LUGAR

COLUNA LORCA

POR CHARLES BERNDT

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Afinal de contas, o que é heteronormatividade? Bom, a resposta para essa pergunta já está na própria palavra: a heterossexualidade vista como norma, regra, padrão a ser seguido por todos e todas. Em suma, dentro dessa visão, todos são héteros, o correto, o normal e o aceitável é ser hétero, também. Mas quem não é? O que acontece com os sujeitos que não se encaixam nessa norma, que não são ou não aparentam ser heterossexuais? Bom, a resposta é dura: eles não existem.

Uma das prerrogativas da visão heteronormativa é o apagamento das identidades fora do lugar, isto é, o silenciamento e a invisibilização de todos que de alguma maneira, no que concerne à sua sexualidade e à sua identidade de gênero sobretudo, desviam da norma, daquilo que é estipulado como normal. Em bom e claro português: dentro desta visão, não há espaço para gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e todos que por qualquer motivo se veem afastados dos padrões de comportamento/vivência afetiva e sexual compreendidos como positivos, aceitáveis, normais, corretos. Para entender de forma prática como a heteronormatividade funciona é só ligar a TV, no Brasil e em boa parte do mundo. Nas diversas produções da teledramaturgia brasileira, por exemplo, ou mesmo nos telejornais, nos programas matinais e vespertinos, tudo o que você vai encontrar é um infindável número de gente hétero, ou melhor, de gente que aparenta ser hétero, não que o seja de fato. É essa a questão. Você pode até ser gay, lésbica, mas o importante é estar dentro da caixa, não fugir à regra. Se for homem, tem de ser másculo, durão, não mexer muito com as mãos nem ser afetado. Se for mulher, é melhor que esteja dentro do padrão de beleza, que seja magra, doce, calma, submissa e delicada. Enfim, estamos lidando com estereótipos e é deles que a heteronormatividade vive e através dos quais se sustenta.

Obviamente, você que está lendo este texto pode me dizer que as coisas já não são bem assim, já temos telenovelas com personagens gays, lésbicas e até transsexuais. Além disso, temos até jornalistas gays, todos sabem. No cinema, a coisa é melhor ainda: temos muitos filmes que retratam histórias de personagens LGBT (alguns deles agora ganham até Oscar), romances homoafetivos etc. Bom, isso é verdade, a coisa melhorou muito nas últimas décadas. Mas sou obrigado a dizer, a fazer o papel do casmurro da vez: ainda é muito pouco ou quase nada. Se você passar um dia inteiro em frente à TV de qualquer emissora do Brasil vai ver um número ínfimo (isso se você vir, estou sendo otimista) de sujeitos que não se encaixam dentro dos padrões heteronormativos. Se eu estender minha discussão para a questão da etnia/cor de pele, então, temos um problema tão grande quanto. A maioria das pessoas que vemos na TV, em filmes etc. são brancas – heterossexuais e brancas. A visão heteronormativa tende a ser não só LGBTfóbica, mas também racista e machista. Quem manda no parquinho, de verdade, é o homem, e de preferência o homem branco e rico. É esse o padrão.

Enfim, fiz todo esse caminho para chegar aqui, na conclusão de que nossas produções cinematográficas, televisivas e teledramatúrgicas são ainda muito centradas numa visão heteronormativa. E é verdade quando dizemos que as sexualidades e identidades fora do lugar, fora do padrão, são invisibilizadas e apagadas dentro desse processo. Mas isso é uma meia-verdade. Se você reparar bem, essas pessoas estão lá muitas vezes. E eu não estou falando só das personagens gays das novelas da Globo, cheias de estereótipos, que não ousam dar um beijo sequer. Estou falando, por exemplo, dos filmes da Disney.

Sim, há muita heteronormatividade nas animações da Disney. Os heróis e heroínas são sempre héteros, geralmente brancos, que se casam no final da história. Mas é aí onde mora o problema. Eu disse: os heróis são sempre héteros. Não podemos dizer o mesmo dos vilões. Sim, os vilões são sempre essas personagens que já fogem da regra por serem maus, por serem invejosos (será que só eles sentem inveja?). É interessante perceber a dicotomia nessas produções. Não há espaço para que exista uma mocinha que sinta inveja, rancor, que se vingue. Imaginem uma Cinderela que se vingasse da madrasta e das irmãs?! Não é possível. As produções da Disneytrabalham com estereótipos bem formatados e fixos. O interessante é que os contos clássicos aos quais recorre, os contos de condão e de fada europeus que traz à tona, não são nada dicotômicos nesse sentido. Numa versão medieval do conto da gata borralheira, a madrasta e as irmãs são castigadas pelo príncipe a mando de sua recém-esposa, que as faz usar sapatos de ferro em brasa. Em dada versão do conto da bela adormecida, a princesa não acorda exatamente com um beijo. Enfim. O que importa é perceber como a Disney castra, delimita, adapta e encaixa numa fórmula pronta todos os contos e histórias que pretende recontar. É por isso que o mal, os sentimentos não tão nobres, recaem sempre sobre aqueles são designados como vilões, a quem, no fim da história, restará apenas a danação e o sofrimento eterno.

Os vilões da Disney são, quase em sua totalidade, sujeitos que não se encaixam no padrão heteronormativo. Eles são gays ou lésbicas? Não sei se poderíamos dizer isso. Mas podemos dizer que eles não se encaixam no estereótipo de heterossexualidade, além de possuírem características, trejeitos, que culturalmente são atribuídos às pessoas LGBT.

Assim, em O Rei Leão, de 1994, sem dúvida um dos mais emblemáticos e clássicos filmes da Disney, temos o vilão Scar, um leão invejoso e ardiloso, que se torna rei através de um golpe, assassinando seu próprio irmão, Mufasa. É interessante perceber a dicotomia entre o claro e o escuro no filme: Mufasa, um rei bom e generoso, é um leão forte, másculo, com pele amarelada e juba vermelha. Scar é magro, desmilinguido, afetado em seus gestos e tem o pelo e a juba escuros. Um outro elemento interessante desta animação é a amizade de Scar com as hienas, que, sem que saibamos exatamente porque, são banidas do reino, excluídas e marginalizadas. É com a sua ajuda que Scar põe em prática o seu plano maligno e assume o trono.

Além de Scar, em O Rei Leão temos outras duas personagens que não se encaixam dentro do padrão heteronormativo e que, de alguma maneira, contrastam com a identidade dos mocinhos: Timão e Pumba. De fato, trata-se de dois solteirões, dois excluídos, que ao não se encaixarem na sociedade, vão viver num lugar afastado, longe de tudo e todos, criando o lema hakuna matata. São os dois que encontram o pequeno Simba, filho de Mufasa, e criam-no até que se torne adulto. Há quem diga que são o primeiro casal gay da Disney e que provaram que dois homens podem criar uma criança! Brincadeiras à parte, todos sabemos qual é a função de Timão e Pumba na narrativa: com seu humor, têm a função de aliviar a tensão dramática da história principal. É assim que vemos o suricate vestido com uma saia, dançando a hula, ao lado de Pumba, a fim de afastar as hienas e Simba possa enfrentar Scar. Quer uma apresentação de drag queen melhor? Mais uma vez, então, percebemos que personagens afetadas, fora do padrão heteronormativo, quando não são vilões, aparecem como verdadeiros bufões. Se se tratasse de uma telenovela brasileira, Timão e Pumba seriam dois cabeleireiros bem-humorados, com jargões prontos, por exemplo. A fórmula é bem conhecida.

Em uma outra animação, anterior ao Rei Leão, e de grande sucesso, A pequena Sereia, lançada em 1989, deparamo-nos com um outro vilão, quer dizer, desta vez com uma vilã, Úrsula, a bruxa do mar, que tem a forma de um polvo. Úrsula é o contraste perfeito de Ariel, a doce e sonhadora princesa, filha do Rei Tritão, que se apaixona por um príncipe humano, Eric. Úrsula está longe de todos os estereótipos femininos de nossa sociedade tão machista e misógina, a começar por sua aparência física, que é a de uma mulher gorda, espalhafatosa, que fala alto e é dona de seu nariz. Uma mulher assim, dentro do mundo heteronormativo, dominado pelos homens, em que as mulheres são vistas como objetos, submissas e servis, só poderia ser a vilã, não é? Ariel é a mulher perfeita: ingênua, de voz mansa, traços delicados, branca, magra, submissa e que sonha em se casar. Talvez a mocinha só fuja do padrão ao se rebelar contra o pai e lutar por seu amor, seguir sua vontade. Ainda assim, se foge, é para casar. Úrsula, no entanto, é uma bruxa, masculinizada, ameaçadora, que tem sede de poder e que deseja ser a rainha do mar, tomando o lugar de Tritão. Obviamente, como dissemos, ela só poderia ser uma vilã – uma mulher tendo poder! Imaginem, que audácia. Isso é coisa para os tritões, para os machões, dentro da visão heteronormativa. Por fim, destaco, ainda, a obsessão que Úrsula tem por Ariel, em diversos momentos da animação nós a vemos dizer: ”Ariel será minha”, ”Ariel me pertencerá!”. Não é difícil perceber certo tom erótico, a meu ver.

O mesmo se verifica em muitas outras animações da Disney. Em Alladin, de 1992, temos o vizir Jafar, um feiticeiro, que deseja assumir o lugar do sultão de Agrabah. Para isso, ele finge estar apaixonado pela princesa, Jasmine. Os seus planos são atrapalhados pelo ágil, jovem e belo Alladin, que ama a princesa de verdade e livra a cidade das garras do feiticeiro. No fim da animação, ainda temos a oportunidade de ver Jafar se metamorfosear em uma serpente, numa clara analogia ao episódio bíblico de Gênesis 3, quando Eva – uma mulher, evidentemente – cede à tentação e aceita o fruto proibido. Já em outra animação, Hércules, de 1997, podemos ainda ver o deus Hades, rei do submundo, senhor do mundo dos mortos, ser representado de uma forma bastante semelhante. Hades, como Scar, opõe-se drasticamente a Zeus, seu irmão, representado de forma máscula, esguia, viril, senhor do trovão, soberanamente justo e bom. Enfim, poderia citar uma série de outros exemplos, de vilões de animações da Disney que são sempre personagens afetadas, fora do padrão heteronormativo, que contrastam com os mocinhos, sempre muito bem definidos em sua heterossexualidade e retratados como justos, nobres, corretos. Aos vilões, aos que não tiveram a sorte de ser agraciados com a coroa da normalidade e do que é culturalmente visto como belo, natural e normal, resta quase sempre a inveja, os sentimentos menos nobres, a tristeza, a solidão, o castigo.

E por que isso acontece, afinal? Bom, talvez, ao separar de forma decisiva o bem e o mal, ao negar a própria ambiguidade da alma humana, ao trabalhar com dicotomias e com estereótipos, ao separar os mocinhos dos vilões, os filmes da Disney nos digam, de forma subliminar, que todo aquele que não se encaixa nos padrões heteronormativos são maus ou não merecem estar ao lado dos heróis, em outras palavras, não podem nem merecem ser felizes. Não acredito que isso seja proposital nem que os roteiristas da Disney pensem ou queiram transmitir isso. Mas é preciso que saibamos que essa é a visão que impera ainda em nossa sociedade, em nosso imaginário cultural, isto é, esse discurso tem raízes em nossa cultura, no preconceito, na discriminação, na violência e na segregação sofrida pelos sujeitos LGBT em nossas sociedades. Não fosse isso, já veríamos há mais tempo filmes como Call me by your name recebendo um Oscar; veríamos mais personagens LGBT em filmes, séries, telenovelas, representados de modo natural, sem que seu lado afetivo seja escondido, negado, ou que eles sejam sempre cabeleireiros ou carnavalescos bem-humorados; e até nas animações veríamos vilões e mocinhos menos estereotipados; enfim, não fosse a permanência da heterossexualidade e do comportamento atribuído a ela como uma identidade padrão, opressora, como algo a ser imposto e compreendido como única forma possível de ser, teríamos um cinema, uma teledramaturgia e uma produção de entretenimento muito mais democráticos e diversificados.

Em verdade, a heteronormatividade não é um problema dos LGBT ou de quem não se encaixa nela. É um problema de todos nós. É por culpa desse pensamento que pais que abraçam filhos em shoppings são confundidos com homossexuais e são agredidos, também. Trata-se de um pensamento extremamente opressor e idealizado, que, ao fim e ao cabo, violenta e causa sofrimento em héteros, gays, lésbicas, pessoas trans etc. Cada vez mais, precisamos não só valorizar a pluralidade das identidades, das formas de ser e viver, mas criar ferramentas que combatam o preconceito, que informem, que proporcionem o diálogo, o pensamento crítico. Evidentemente, é na escola, através da educação, o lugar ideal para se começar a mudar isso.

Quem sabe, então, possamos levar nossos filhos um dia ao cinema para assistir uma animação em que os dois heróis são dois príncipes ou duas princesas que se amam ou, ainda, um rapaz que descobriu ser, na verdade, uma princesa. E o vilão, se ele tiver que existir, seja um deputado, em pleno século XXI, que propõe a cura gay… Não, esperem, essa é a realidade! Queria eu que fosse ficção. Quem sabe um dia, quem sabe. Bibidi-Bobidi-Bu2…!

 

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1Apesar de nosso foco recair sobre os filmes da Disney, compreendemos que isso vale para o cinema de modo geral, bem como para a teledramaturgia, etc.

2Para quem não sabe, esta é a palavra mágica dita pela fada madrinha ao ajudar Cinderela, no dia do baile no Castelo Real. É através desse encantamento que uma abóbora se transforma numa carruagem, que os ratos se tornam cavalos, um cão em cocheiro e o vestido aos trapos de Cinderela se torna um lindo e reluzente vestido azul.