O PORVIR ENTRE PERDAS E DANOS – MURILLO GARCIA

“Si no la matas tú, te matará ella. Las historias se repiten”.
– Trecho de “La piel que habito”, roteiro de Pedro Almodóvar

Que sinta tudo o que foi sentido, nem uma ponta de dor a menos. Em demasia, o desespero para que enlouqueça tanto quanto se pôde enlouquecer. Que não sobre nada, apenas o desamparo do que já não se faz mais presente.

Como num jogo de espelhos, as vilanias se escancaram nos mais primitivos instintos. Afinal, o que é de cada ser humano se não a constante dialética das livres manifestações psíquicas – egoístas, amorais, atemporais e nunca satisfeitas por si só – contra certa tentativa racional que cerceia tal expurgo – como lhe convém definir – em um formato que nem sempre se faz adequado?

É típico do pensamento imposto pela lógica cartesiana acreditar que a selvageria foi domada. Que os mais irrefreáveis sentimentos foram abafados pela vontade própria e resignação do ser humano. Em vão.

As relações, sejam elas quais forem, estão postas em investimentos libidinais que tornam um objeto constituinte de certa característica relevante em uma troca que pode estar na linha tênue entre as possibilidades de desenvolvimento ou a completa dependência. A energia que em determinada fase da vida constitui o próprio ego em um movimento narcísico é a mesma que, posteriormente, será direcionada ao outro. O objeto investido se torna parte de um ego identificado e, como tal, sustenta a integridade deste. Assim, este viés quantitativo pode constituir uma faceta que ganha contornos significativos quando diante de ausências irreparáveis.

O desejo de vingança, então, pode aflorar tal qual uma organização psíquica, um fenômeno reativo que direciona a finalidade desta energia agora dispersa. Em uma dinâmica que envolve fantasias e certas introjeções, a culpabilização do outro pela própria dor surge de forma sadomasoquista: o que se busca é provocar sofrimento, ao mesmo tempo em que os danos emocionais que tal atitude implica são tão significativos quanto. E mais: tamanha ambivalência gera um movimento no qual a destruição de tal objeto se faz também pela tentativa de reestabelecer laços e restaurar o que foi perdido.

Embora exista a possibilidade de ressignificação, o mal-estar se revela em um campo permeado por maldades e (auto) destruição.

Histórias imemoriais marcam essas prismáticas possibilidades – e pode-se pensar aqui, dentre tantas, a imagem de Hera, deusa do Olimpo constituída pelo amor maternal e benevolência, sendo tomada por rompantes de ira e vingança quando se deparava com as relações extraconjugais de Zeus, seu marido. E até mesmo o percurso da humanidade que se escreveu e se escreve sob as mais inacreditáveis manifestações de violência em busca de poder. Guerras foram declaradas, povos sucumbiram, nações se desenvolveram, ideias tomaram palanques e outras encontraram o descrédito neste pulsar desregrado que é próprio da constituição psíquica – individual ou coletiva.

Que fique claro: a proposta não é, e nunca será, a de ser maniqueísta, mas, sim, de reconhecer o corpo que age pelo ato pulsional que só se faz pela presença de tudo o que há entre paixão e vingança, amor e ódio, vida e morte num jogo cíclico que revela o óbvio: não há vencedor.

E deveria ter?


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Murillo Garcia
 (Site), tem 29 anos, queria fazer Cinema, mas foi estudar Psicologia. Cogitou a possibilidade de morar na Espanha, mas ficou em São Paulo. Pensa em escrever um romance, mas não larga a poesia. E tem a Lua em Libra.