A VILANIA DA RELIGIÃO PROTESTANTE NA OBRA DA POETISA EMILY DICKINSON – GILLIALE JEREMIAS

“Faith” is a fine invention
For Gentlemen who see!
But Microscopes are prudent
In an Emergency!
– Emily Dickinson

Muita gente fala por aí – pelo menos aqueles que tomam a Literatura e os textos literários como objeto de análise e crítica – que para se interpretar um texto devemos tomar os referenciais históricos e sociais em que estão inseridos os autores, e não somente a análise do texto por si só. O cotidiano dos autores e seus “diários pessoais” são abertos e lidos para que possamos entender um pouco mais sobre determinado texto literário e, indo um pouquinho mais a fundo, o convívio familiar e determinados posicionamentos intelectuais e políticos, assim sendo, podem também estar presentes na forma e no conteúdo do texto.

Em Emily Dickinson, poetisa lírica norte-americana e precursora do Modernismo no século XIX, o conservadorismo religioso da família Dickinson perpassa discreto e pungente nos versos da poetisa que, de maneira sutil, ironiza este posicionamento familiar e mostra a vilania por parte dessa religião protestante no seio familiar da sua casa.

O protestantismo e a sua migração para o Novo Mundo, que ia desde os países europeus – Inglaterra, França, Espanha etc. – até os Estados Unidos, vinha não somente com barcos e mantimento para sobrevivência na nova terra, mas com ideais e fundamentos religiosos que iriam fundamentar a cultura do novo lugar e daqueles que nasceriam dessa nova cultura que lhes era imposta. A conquista, certamente, não foi pacífica e passiva. Guerra, escravidão e imposição de valores são traços marcantes dessa época e seguiram firmes por anos adentrando o século XVII e XVIII e perdendo o seu caráter aparente e dominante através da Independência dos Estados Unidos. Certo? Bom, não é bem assim. A imposição religiosa seguiu firme através dos anos chegando aos versos da poesia norte-americana no século XIX e mostrando a sua força impositiva e existencial no ideal do cidadão norte-americano daquela época e até mesmo no de hoje.

A religião que vemos e temos hoje em dia, com suas sedes e congregações cheias e repletas de cidadãos de bem e dispostos a ajudar ao seu próximo, não se expressava exatamente assim no período em que ela agia juntamente com o Estado. A igreja cobrava impostos, interferia nas ações particulares e expunha aqueles que não a seguiam, ou melhor, excomungava-os de suas denominações e grupos. As aulas de História nos dão exemplos diversos disso. Até mesmo o contexto literário. Podemos exemplificar com “The crucible”, peça teatral escrita por Arthur Miller em 1953, que retrata a cidade de Salem, Estados Unidos, sobre o regimento dos puritanos no século XVII. Dentre tantos outros escritos, Arthur desvela em seu texto dramático a posição da igreja protestante ante as mulheres solteiras, as religiões de matriz africana e do relacionamento fora dos padrões estabelecidos e, de maneira irônica, trata de revelar seus posicionamentos um tanto excludentes, intolerantes e até mesmo racistas.

Emily Dickinson, assim como Miller, traz para a sua poesia elementos históricos e sociais que servem como referenciais para uma poesia lírica e engajada em questionamentos intrinsecamente pessoais e que representam o todo Universal ao mesmo tempo. A sua forma concisa em poemas com sintaxes – frases poéticas – curtas e precisas, com ritmos e imagens próprios, traz ao fazer poético de Dickinson um traço distintivo de sua autoria e nos mostra o quão revolucionária pode ser a forma e o conteúdo de um “simples” poema.

O poema que serve de epígrafe para este ensaio nos chama a atenção para a forma de pensar “ambivalente” ou mesmo “confusa” da poetisa com relação à religião e à ciência, concomitantemente, e nos faz refletir sobre o papel da religião na vida de uma autora feminina do século XIX. Vamos ao poema da epígrafe factualmente!

Poema curto, conciso e todo imagético, o poema “Faith is a fine invention” é cheio de referenciais. A palavra “Faith” inicia o primeiro verso estando entre aspas, querendo sugerir algo a mais, dar a impressão que é isso ou talvez não o seja. A poetisa define a palavra fé entre aspas como “a fine invention”, uma boa invenção, “for Gentlemen who see”, para Homens (Senhores) que veem. Aqui, a fé, categorizada como boa invenção para Homens que veem, dá-nos a impressão de ser um artifício de bom proveito para homens nobres (veja que Gentlemen está em letra maiúscula e conjugada no plural) que podem ter acesso ao conhecimento, pois conseguem ver (who see). Logo após, ela adiciona “But Microscopes are prudent”, mas microscópios são prudentes, “In an Emergency”, em uma Emergência, concluindo que os recursos científicos são prudentes (racionalmente cabíveis, portanto) em uma emergência. As imagens evocadas pelas palavras “Faith”, “Invention”, “Microscopes” e “Emergency” nos deixam um tanto confusos, quase que duvidando se o eu-lírico (ou a própria poetisa) acredita ou não na fé religiosa, pois traz ironia em todo o corpo do poema do começo ao fim. Correlacionamos a fé com a invenção da mesma e os microscópios com a emergência. Duvidamos e colocamos a crença e a descrença equiparadas. Isso é o fazer poético de Dickinson e, talvez, um traço marcante de toda a sua obra com extensão de quase 1.800 poemas escritos.

Poemas como o que acabamos de analisar e outros conhecidos poemas dela como “I never lost as much but twice”, “Success is counted sweetest” e “I died for Beauty – but was scarce” são cheios de posições metaforicamente irônicas ante o sistema religioso de sua família, a questão da morte e da própria vida. Emily Dickinson tinha pensamentos contrários aos de seus próximos, já havia saído do monastério e negado publicamente a sua fé naquele sistema religioso. Era progressista e transgressora da ordem vigente causando escândalo àqueles que ainda acreditavam na eficácia da fé e da religião. A poetisa expunha de maneira deliberada em sua poesia suas posições espirituais (ou não), filosóficas e políticas, fazendo com que a sua poesia não se encaixasse no período em que estava produzindo. Era metade do século XIX e poucos ousavam contestar, ainda mais uma mulher de família protestante. Emily o fazia com ímpeto poético.

Reguladora de costumes e castradora de opiniões adversas, a religião se mostra como uma instituição que, de alguma forma, sempre limitou a livre expressividade do indivíduo que não se mostra concordante com seus sistemas internos. Para Emily, a religião se camufla em metáforas bem construídas numa poesia que, mais do que explica, explicita um modo de ver de uma mulher que se sentia pressionada pelas forças opressoras de um sistema religioso que a cercava e não representava seus eus interiores que eram tão questionadores, confusos e múltiplos. A religião, mais especificamente a igreja protestante, raramente aceitou a diversidade de pensamentos, antes disso, castrava-os e detinha-os. Emily Dickinson era diversa. Apresenta-se diversa ainda hoje ao lermos seus poemas. Compreender e entender a sua poesia requer uma mente pensante com asas ao imaginário e ao questionamento de quase tudo, coisa que a religião dificilmente o fará.

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Gilliale Jeremias (Instagram / E-mail / Site) é professor de línguas inglesa e portuguesa que tenta colocar, de maneira lúdica,  as questões linguísticas e literárias no âmbito da sala de aula para crianças que conhecem somente a leitura através das telas dos seus celulares e tablets. Mestrando em Estudos Literários com aspirações à escrita, busca sua formação no mundo e nos livros em suas diversas plataformas físicas ou digitais.”