O MACHÃO

COLUNA PITACOS 

POR LETICIA SANTOS

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Olá, pessoas, eu voltei! E como semana passada estávamos falando sobre O Conto da Aia e de como uma mulher pôde usar o sistema abusivo e opressor para se vingar, essa semana vamos migrar para um livro onde tudo ocorre num núcleo familiar. O Machão, de Harold Robbins, é um livro para você odiar o protagonista, sério, pense num homem embuste filho do demônio, é ele. E caramba, é tão bom poder odiar um protagonista desse jeito! Aí vocês devem estar se perguntando se andei bebendo – o que eu não faço há um tempo – ou pelo menos me chamando de maluca, já que estou falando para vocês desde que começamos essa edição de que para uma vendetta ser aceita pelos leitores é necessário criar um laço de empatia entre o responsável pela vingança e os leitores, e, de novo, é através da humanização do personagem que perdoamos suas atitudes e acabamos torcendo por eles, certo?

Pois bem, nosso macho alfa de peito peludo não é o agente da vingança que eu mais gosto nesse livro, ele é o alvo. O que um homem bruto, poderoso e com dinheiro demais coleciona na vida? Isso mesmo, relações abusivas com mulheres, sendo entre elas suas esposas e até mesmo sua filha. Badyr é o nome do protagonista, e ele representa em um só personagem conflito suficiente para remeter a tempos bíblicos, estou falando sério, o conflito entre a cultura judaica e a islâmica aqui são ponto forte para a caracterização do personagem. Estejam prontos para ler um personagem que é basicamente um príncipe do ouro negro do Oriente Médio, sim, ele é herdeiro de uma fortuna bilionária, e tem desde cedo falas e comportamento antissemitas que marcam suas ações em toda a narrativa.

Para entender melhor o que o leva a ser o alvo de uma vingança tão desejada por parte da própria filha, temos que entender que ele se casou cedo com quem era esperado, uma boa e comportada esposa do islã, que lhe deu só filhas, fato que lhe permitiu o escândalo de se casar com Jordana, uma americana que não é muçulmana e não façam essa cara de desaprovação para mim, eu disse que ele era odiável.

Essa receita toda de ódio, hipocrisia e meias verdades é o ambiente onde Leila cresce, e é interessante acompanhar sua evolução de filha adorada e literalmente de princesinha do papai para alguém que o odeia pelo abandono emocional, já que o dinheiro nunca foi um problema. O interessante aqui é que claramente o desgosto de Leila pelo pai passa pelo segundo casamento dele, e por mais que eu hesite em incentivar um lugar comum machista desses, devo admitir que o ódio pela madrasta é um clichê muito bem usado aqui, principalmente porque ela em seu ato de vingança consegue manter a fachada dócil por um tempo.

Vocês podem estar um tanto quanto surpresos por uma recomendação de vingança na família de uma filha com rancor pelo pai, não é? Soa bastante de novela mexicana, mas apesar de esse livro ser da década de setenta, o trajeto de vingança de Leila – cujo rostinho de coração e fala doce podem conquistar homens e encantar os distraídos – passa longe das maldades da Paola Bracho e está mais próxima de uma realidade que entendemos bem. Mentes jovens e revoltadas são terreno fértil para algo bem comum em nossa época: os líderes revolucionários de grupos extremistas, e sim, Leila se junta a um grupo terrorista que quer derrubar o seu pai, e ela planeja, treina e executa um plano para destruir a própria família e chegar em sua almejada vingança.

Será que décadas atrás, quando o livro foi lançado, esse cenário era improvável e só pertencente a livros de ficção? Um bom livro é capaz de despertar em seus leitores uma gama de emoções e espelhamento que possam causar proximidade, e quando parei para pensar nos livros que iria indicar em vingança me lembrei desse e pensei na edição surrada e amarelada que li, e foi com surpresa que cheguei nessa data de publicação, já que esperava algo mais recente, tola de mim, confesso, já que o tradutor foi nosso anjo pornográfico, o saudoso Nelson Rodrigues.

Ah, aviso aos navegantes mais pudicos, esse é um dos romances cujas capas com mulheres seminuas enganam um pouco, apesar de ter cenas explícitas, o livro é bem carregado em temas políticos e conflitos religiosos, inclusive, em última instância é triste ver como os anos passam e os conflitos idiotas continuam os mesmos e os jovens continuam sendo arrastados para isso seguindo um ódio que passa de geração em geração.

Relevem o pai idiota, machista e totalmente equivocado – ainda que o personagem tenha seu desenvolvimento bastante trabalhado e seja interessante -, e acompanhem como uma filha pode crescer e se tornar a algoz de um homem que idolatrava. A vingança é mais forte quando vem de quem amamos, isso é um fato, e sempre é um prazer ler como uma mulher é capaz de surpreender homens a seu redor, principalmente quando eles são cegos para sua força, como diria a própria Leila: “(…)homens, são todos iguais. Talvez algum dia vocês descubram que não somos apenas criaturas feitas para servi-los.” Leiam e divirtam-se, não é sempre que podemos ver uma jovem tão raivosa e intensa, e menos ainda numa briga com uma outra personagem igualmente intensa, fiquem de olho em Jordana, que de esposa troféu tem bem pouco. Até semana que vem!