FLORES PARTIDAS

COLUNA PITACOS 

POR LETICIA SANTOS

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“Ele perdeu o fôlego. Bile e sangue cor-de-rosa escorriam de sua boca. Ele pressionou a nuca no chão. Esforçava-se para respirar. Emitiu um som de engasgo.

Estava chorando.

Não, não estava chorando.

Estava rindo.

— Você não tem coragem. — Os dentes brancos ensanguentados dele apareciam entre os lábios molhados. — Sua puta gorda inútil.

Lydia enfiou os dedos no joelho dele de novo. Sentiu os nós dos dedos pressionados ao torcer os restos de ossos.”

Eu terminei de ler um livro essa semana e já chego mostrando um dos meus trechos favoritos, que é de quando a vítima pode finalmente sentir um pouco de prazer ao se vingar do algoz. Já recomendei Karin Slaughter pra vocês na edição passada, mas aquela vez foi no contexto de amores urbanos, agora, é no contexto de vingança. Flores Partidas não é um livro fácil de ler. Vamos falar desse pedacinho que temos ali em cima, percebe-se que Lydia está torturando um homem? Percebe-se que ele a provoca? Às vezes, nos livros, não precisamos de esforço nenhum para sentir empatia com a vingança dos protagonistas, ela não é só justa, ela é necessária para que nós, como leitores, tenhamos um pouquinho de esperança de que o universo guarda alguma justiça nele.

Hoje me dei conta que dos livro posicionados fora do mundo fantástico, é muito comum que a vingança seja contra um homem, semana passada a vingança era de filha contra pai relapso, por exemplo, e isso ocorre porque a literatura reflete um pouco da realidade: homens machucam mulheres numa proporção muito maior do que o contrário. É assustador ler um livro como Flores Partidas e pensar que tudo o que foi feito para as vítimas ali acontece todos os dias ao redor do mundo, e o pior, no livro é retratado como os homens que machucam são os mais comuns ao nosso olhar: o pai da amiga, o político ilibado e bem quisto na comunidade, o engenheiro de sucesso, o homem que nunca levanta suspeitas, mas que esconde do mundo sua natureza predatória.

Nesse livro temos várias camadas de acontecimentos, e a primeira coisa a destacar é que ele é sobre duas irmãs, Lydia e Claire, as duas são as protagonistas, que tiveram a vida marcada pelo desaparecimento da irmã mais velha delas, Júlia. Agora, você deve estar pensando, as duas estão investigando e se vingando de algo que aconteceu num passado distante? Sim, porque Karin Slaughter passa boa parte dessa obra nos fazendo ver como o desaparecimento de uma pessoa é pior do que sua morte, já que quando não se tem um corpo, um caixão para enterrar, a esperança vai corroendo a alma dos que ficaram, é triste. Esperança estava na caixa de Pandora, então, ela pode ser uma coisa ruim também, não é? Prepare-se, porque nesse livro nossa esperança é que as duas consigam respostas e que matem de vez a esperança de ver a irmã na rua, ou que ela volte um dia, é triste, mas é verdade.

A perda da irmã mais velha destruiu essa família, e abriu caminho para o pior tipo de homem que pode entrar na nossa vida: o babaca controlador e tóxico. O livro começa com a morte de Paul, marido de Claire, e sua morte é estopim para que ela saia da vida protegida e totalmente controlada que ele tinha orquestrado para ela, e essa saída do casulo da irmã caçula é essencial para que todo o mistério ao redor do desaparecimento de Júlia seja finalmente solucionado.

Uma vez que descobrimos o responsável pelo que ocorreu com essas irmãs a vontade que temos é de que elas saiam queimando meio mundo, porque uma das coisas fascinantes nesse livro é que ele mostra que o abuso sistemático de mulheres só ocorre com uma grande parte da aquiescência da sociedade, até que ponto realmente podemos nos ilibar do que ocorre? Claro, temos os agentes da violência, mas há muitas camadas de corrupção e crimes para que eles escapem da justiça, e, por isso mesmo, não queremos que eles sejam presos, queremos sangue, dor e tortura, a mesma que eles infligiram para suas vítimas, e isso é o que conseguimos.

Assustador não? Saber que vamos ler um personagem tão revoltante que desejaremos que tivesse sido mais torturado, porque a catarse da nossa sede de vingança termina tão rápido! Uma boa vendetta nos torna mais do que espectadores, nos torna consumidores vorazes da dor do culpado, porque ele merece cada corte, cada golpe, e ainda é pouco. A vingança em Flores Partidas não é só de Lydia ou Claire, é de todas aquelas que perderam um pouco de dignidade e inocência mundo afora. Leiam, é tão inquietante quanto envolvente, foi-me impossível de parar antes de ter certeza que a missão foi cumprida.