O BELO E O SUBLIME

COLUNA LORCA

POR CHARLES BERNDT

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 o amor entre homens no cinema

Escreveu Kant acerca do belo e do sublime:

«Os carvalhos altos e a sombra solitária no bosque sagrado são sublimes, as plantações de flores, sebes baixas, e árvores recortadas, formando figuras, são belos. A noite é sublime, o dia é belo. Os temperamentos que possuem o sentimento do sublime, quando a tremulante luz das estrelas rasga a parda sombra da noite e a lua solitária está no horizonte, são atraídos pouco a pouco pela calma silenciosa de uma noite de verão, a sensações supremas de amizade, de desprezo do mundo, de eternidade. O resplendor do dia infunde afãs de actividade e um sentimento de regozijo. O sublime comove, o belo encanta. O semblante do homem que se encontra em pleno sentimento do sublime é sério, às vezes rígido e ensombrado. Pelo contrário, a viva sensação do belo declara-se no olhar pela sua esplendorosa serenidade, por sorrisos rasgados e por um claro regozijo.» (Inmannuel Kant, Observaciones acerca del sentimiento de lo bello y de lo sublime, p.32)

Em outras palavras, para o filósofo prussiano, o belo está associado àquilo que geralmente, na cultura ocidental, compreendemos como positivo, luminoso, encantador. Evidentemente, essa ideia de beleza tem sua origem na Grécia antiga, na valorização dos sentimentos atribuídos a Apolo, o deus da luz, do sol, do equilíbrio, da serenidade, da razão. O sublime, no entanto, está associado a um sentimento um pouco mais complexo e se mostra tanto na luz quanto na sombra. O belo parece ser algo mais universal, ainda que esteja sujeito, obviamente, à época, à sociedade, à cultura e esteja sempre a variar, ao passo que o sublime é uma experiência mais pessoal, individual, subjetiva. Para Kant, a beleza é algo muito mais fugaz e está relacionada, muitas vezes, à juventude. Assim, para ele, por exemplo, o amor sexual é belo, a amizade é sublime. Em suma, dentro do pensamento kantiano, o belo é material e o sublime é espiritual, transcendental, metafísico.

No século XIX, com o romantismo, passou-se a refletir mais sobre o que seria, de fato, o sublime. É nesse sentido, também, que muitas vezes os românticos pensavam o sublime como algo obscuro, misterioso, repleto de névoas, fruto da subjetividade humana, sentimento próprio dos poetas, dos artistas, daqueles que supostamente teriam um dom, os chamados ”inspirados”. O sublime pode, ainda, estar relacionado à ideia de epifania. Pessoalmente, sempre que penso nisso, que tento definir o que entendo por sublime, lembro-me de Clarice Lispector. O que é a escrita de Clarice senão sublime? Lembro-me de um dos seus contos de que mais gosto, intitulado O búfalo. Nesse conto, uma mulher, uma mulher de casaco marrom, vai a um zoológico, em busca de encontrar o ódio, o ódio para matar, dentro de si, o amor que sente por um homem que a rejeitou. O problema é que era primavera e todos os animais estavam felizes, trocando carícias, acasalando – ou seja, a mulher depara-se com o belo. Mas não era isso o que ela buscava. Ela buscava algo mais profundo, mais forte, verdadeiramente assombroso e embriagante – uma catarse, em sentido grego, talvez. Assim, é só quando encara os olhos de um búfalo negro que ela experiencia a sua epifania, vê o sublime e, embriagada pelos olhos daquele animal, desmaia.

O cinema, tal como a literatura e todo tipo de arte, tem a capacidade de nos colocar, muitas vezes, diante do belo e do sublime. Sendo assim, gostaria, a partir de agora, de tecer alguns comentários sobre alguns filmes – filmes que retratam relações homoafetivas, isto é, relações de amor entre homens. Nesses filmes, tais como nos contos de Clarice, deparei-me, muitas vezes, com o sublime e, em outros casos, com o que Kant denomina de belo. Enfim, talvez devêssemos pensar que a beleza e a sublimidade não estejam sempre tão separadas, como quer o filósofo prussiano.

(contém spoilers)

Lilting

Lilting, lançado em 2014, no Reino Unido, com direção de Hong Khaou, é um filme intrigante. Trata da história de uma mãe cambojana, que vive na Inglaterra, e tem de lidar com a perda de seu filho, Kai. Ela vive em um lar para idosos e, em meio ao seu luto, passa a conviver com Richard, ex-namorado de seu filho, que também sofre com a morte do rapaz. A grande questão do filme é a comunicação ou a falta desta, já que a mulher, Junn, não compreende inglês. Richard passa então a se comunicar com ela através de uma tradutora. Juntos, os dois não só revisitarão o passado, a fim de matarem as saudades de Kai, mas passarão a se conhecer um ao outro. A beleza está no amor dos rapazes e no modo como, mesmo depois da morte, Richard não esquece o amado. O sublime manifesta-se na relação do inglês com a mulher cambojana, no modo como os dois passam a se compreender, através de seus olhares e, sobretudo, da cadência de suas vozes, que transmitem dor, saudade, alegria e tristeza.

 

Praia do futuro

Lançado em 2014, com direção de Karim Ainouz, Praia do futuro é um filme intimista, que trata, principalmente, da relação de dois irmãos, Donato (Wagner Moura) e Ayrton (Jesuíta Barbosa). Donato é salva-vidas na famosa Praia do futuro, em Fortaleza, e é através de sua profissão que conhece Konrad, um piloto alemão de moto-velocidade. Os dois se apaixonam e se mudam para Berlim. Anos mais tarde, Ayrton, que sempre enxergou o irmão como um herói, sentindo-se abandonado, parte para a Alemanha, em busca de um acerto de contas. Em suma, o filme explora muito bem as relações masculinas, os seus dilemas, prazeres e dramas. Assim, se a beleza parece estar no modo como se dão essas relações, o sublime reside no silêncio, no barulho do mar, ao fundo, num constante sargaço que persegue as personagens durante toda a história.

 

Beautiful something

Com direção de Joseph Graham e lançado em 2015, este filme nos conta a história de três homens: Jim, Bob e Brian. Os três são homossexuais e cruzam a noite da Filadélfia em busca de ‘’qualquer coisa bela” (eis uma boa tradução para o título do filme em português, a meu ver). Assim, é um filme sobre a busca pessoal, de cada um de nós, pela beleza, ou, se preferirmos, pela felicidade. Brian é um poeta em crise, autor de um livro único, apaixonado por seu melhor amigo hétero, que vive em busca de um amor, de alguma coisa que preencha o vazio que sente – mais do que os homens, parecem ser as palavras aquelas que são capazes de curar a sua dor. Bob é um homem velho, bêbado, bem-sucedido financeiramente, que vaga pela noite em sua limusine, em busca de aventuras com homens mais jovens. Mas ele esconde um segredo: perdeu seu grande amor para a guerra do Vietnã. Jim, por sua vez, é um jovem ator, rebelde e sonhador, que mantém uma relação com Drew, um escultor famoso. Desse modo, nessa busca por prazer e autoconhecimento, acompanhamos os dramas humanos dessas três personagens, que, como todos nós, procuram algo que seja belo. O sublime parece estar aí, na busca, na viagem, que talvez não tenha fim.

 

Taekwondo

É um filme argentino, de 2016, dirigido por Marco Berger. Dentre os quatro, talvez seja este o filme mais belo do que sublime. O filme explora, de um modo bastante livre e natural, o universo masculino, os seus micro-mundos, as suas contradições, jogos, tensões sexuais etc. O filme se passa na casa de campo de uma das personagens principais, Fernando, que convida seus amigos, aparentemente todos héteros, para passar ali uma semana de férias. Entre esses amigos, quase todos de infância, está Germán, a quem Fernando conheceu há pouco, no treino de Taekwondo. Germán é assumidamente homossexual e esconde isso dos outros, inclusive de Fernando. Assim, entre muitas cenas de nudez, em que o diretor explora muito bem a beleza do corpo masculino, veremos Fernando e Germán se envolverem cada vez mais, num quase infinito jogo de sedução, através de olhares e palavras dúbias. O momento de sublimidade acontece, enfim, quando na última cena, vencendo seus medos, aquilo que vinham tentando reprimir, vemos os dois fazerem aquilo que queríamos que tivessem feito durante todo o filme.