BLACKTUDE: RELAÇÕES INTER-RACIAIS NA SOCIEDADE HIPÓCRITA BRASILEIRA

COLUNA BLACKTUDE

POR VIVIANE BECCARIA

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Muitos ainda insistem na ideia de que o racismo não está intrínseco na sociedade brasileira. Essa é uma ilusão que beira à (falsa) inocência. Quando o assunto é o relacionamento entre pessoas de etnias distintas, não podemos deixar de observar o preconceito muitas vezes disfarçado de curiosidade ou a repulsa declarada.

Estou há mais de 15 anos em um relacionamento inter-racial. Eu e meu marido temos uma cumplicidade e parceria que vai além do tom de nossas peles. Mas, obviamente, nem tudo são flores em um relacionamento, imagine em um em que as pessoas são claramente diferentes.

Os questionamentos surgiram desde o inicio de nosso namoro, vindos de ambos os lados. Amigos negros preocupados com a probabilidade de rejeição por parte do círculo de relacionamentos de meu parceiro. Familiares temendo que eu fosse apenas um objeto de diversão, já que as mulheres negras em nossa sociedade são constantemente rotuladas de forma extremamente sexualizada. Por outro lado, familiares dele me olhavam com uma curiosidade que deve se assemelhar à sensação da visita de um ser de outro planeta.

E os desconhecidos? Esses não tinham o menor pudor em olhar com estranhamento aquele casal fora dos padrões que passeavam alegremente no shopping. Que ousadia!

O tempo foi passando, nosso relacionamento se fortalecendo e caminhamos para uma união definitiva. A maior preocupação de alguns espíritos de porco que souberam da nossa união era saber com qual cor nasceriam nossos filhos. E quando meu primogênito finalmente nasceu eles tiveram a oportunidade de tirar esse “peso” de seus ombros: nasceu branco, graças a Deus!

Eu acredito fielmente que o racismo foi institucionalizado no Brasil. Ele ocorre de formas absurdas e são tratadas como atitudes normais, corriqueiras, sem muita importância, afinal, aquela distinta senhorinha que perguntou se meus filhos eram realmente meus não tinha a menor intenção de me ofender.

Meu companheiro afirma que só entendeu a dimensão do racismo e o como ele é prejudicial depois que me conheceu e o quanto nós devemos observar e mudar esse cenário de somente um grupo específico deter praticamente todos os privilégios.

O privilegiado somente passa a compreender a gravidade da situação da população negra do Brasil quando passa a testemunhar constantemente cenas constrangedoras em que temos que provar o tempo todo o nosso valor e fazer valer nossos direitos mínimos como cidadãos.

Portanto, é muito importante discutirmos e estudarmos mais sobre a história dos grupos marginalizados no Brasil, mas antes de tudo, temos que assumir nossa responsabilidade no cenário atual. Principalmente, parar de disseminar a ideia de que o racismo não existe e minimizar situações claras em que ele ocorre.

Para pessoas conscientes, o que apontei nesse texto pode parecer um absurdo, inaceitável, mas infelizmente, isso ocorre constantemente em nosso meio. Precisamos buscar evolução, na qual um casal de diferentes raças possa andar tranquilamente, preocupado unicamente na construção de um relacionamento saudável e feliz, livre de olhares de julgamento.

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Fotografia: Aleplesch