O RACISMO PRESENTE NA OBRA MACUNAÍMA

COLUNA BLACKTUDE

POR LETICIA SANTOS

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Devem-se lembrar que, quando falei sobre o filme Pantera Negra e sobre o que é representação social, expliquei que a forma como os negros são retratados em arte e cultura é uma maneira de formar uma representação universalmente aceita pela sociedade de como imaginar e reagir à figura do negro. A literatura é uma importante forma de transmissão de conhecimento e de entretenimento, sendo portanto, parte importante na formação social de todas as pessoas.

Ao longo da história da humanidade, vimos o negro ser entrelaçado a uma imagem negativa, imortalizados em páginas de livros consagrados. Centenas de personagens vilanescos e de índole perversa permeiam nosso imaginário graças aos dedos de escritores talentosos que sabiam encantar as palavras e as pessoas. Agora vocês podem estar torcendo o nariz e questionando em que sociedade livros racistas são permitidos? É um absurdo inimaginável, você pode falar para esse texto – se tem como eu a mania de conversar com as letras. Bem, digo que fatalmente vou ter que estourar essa bolha de incredulidade ingênua com um único exemplo hoje: Macunaíma, de Mário de Andrade. Sim, vou usar uma das minhas obras favoritas, de um de meus autores mais amados, para mostrar que o racismo nosso de cada dia passa despercebido ainda que esteja enraizado em nossa mente.

Pegarei aqui emprestadas as palavras de um grande estudioso da Literatura Brasileira, Telê Porto Ancona Lopez, para que meus leitores possam se lembrar da época em que leram Macunaíma, essa narrativa entremeada de termos exóticos, palavras difíceis e referência étnicas:

Construindo uma rapsódia, Mário de Andrade pôde, através do sentimento nacional encontrado, pôr em prática duas teses suas: o primitivismo do povo brasileiro e a legitimidade estética da literatura popular e oral, para auxiliar a criação erudita.

A elaboração do enredo usou dos três elementos formadores da nacionalidade: índio, português, negro, girando em torno do eixo estruturador: as aventuras do herói Macunaíma (…)

A busca da brasilidade, da essência do que representa o brasileiro, teve no Modernismo a primeira inclusão ativa do negro como parte essencial na formação de nossa sociedade. O reconhecimento da mistura racial, que está na base da identidade brasileira – aqui devemos reconhecer que essa mistura é fatalmente fruto não de um amor exótico e tropical, mas, muitas vezes, da brutalidade do estupro das mulheres índias e negras, ainda que esse não seja nosso foco hoje –, lançou uma nova concepção de cultura, colocando o negro como peça de destaque na formação da identidade brasileira. A renovação da concepção da identidade nacional passou no Modernismo e em Macunaíma. Trata-se de uma revolução que trouxe o negro para o centro da discussão da elite intelectual desse país. E é aí que a coisa fica interessante, não é? Mário estava exaltando o povo negro? Ele tentou, mas como isso ficou registrado em suas páginas, trata-se de algo que sempre deve ser analisado com um olho crítico.

É no sétimo capítulo de Macunaíma que se concentra um dos momentos mais relevantes da narrativa para o assunto do negro, trata-se do capítulo da macumba. O herói negro recorre a uma famosa mãe-de-santo, Tia Ciata, personagem histórica importante para a cultura negra – quando sua raiva por não recuperar seu muiraquitã era demasiado forte. Neste capítulo, o leitor é confrontado com uma das mais evidentes realidades da cultura brasileira: a miscigenação. A macumba que se realiza neste capítulo é mais do que um ritual vindo dos negros, é uma celebração pagã que envolve brasileiros de todas as raças e crenças. Há uma enumeração das ocupações e da raça de cada participante da macumba, tudo visto pelos olhos de Macunaíma. É o herói que vê e descreve a polaca que incorpora Exu, é ele também que apresenta ao leitor como as tradições e crenças católicas foram incorporadas ao culto dos orixás vindos da África. Macunaíma constata num terreiro e em uma macumba o fato de que no Brasil não existe um só deus, e que do negro mais pobre ao político de alto cargo, todos têm um pouco da cultura negra e da macumba dentro de si.

A incorporação da cultura negra foi feita na obra, isto é um fato, mas a escolha do autor na caracterização de dita cultura peca pelo preconceito. A começar pelo título do capítulo, macumba, é conhecida no Brasil até os dias atuais como um ritual de magia negra, altamente condenável por parte dos cristãos – basta buscar as notícias recentes sobre ataques aos terreiros por todo o país, um deles chegando ao máximo do desprezo, onde os bandidos gravaram a situação em que obrigavam uma mãe de santo a destruir seu local de culto – e que faz com que a maior parte das pessoas olhe com desconfiança para o candomblé. Crenças populares à parte, é visível que a escolha de um terreiro de macumba para o palco de uma vingança violenta de Macunaíma contra seu inimigo não foi diplomático da parte do autor. Este capítulo reforçou – ainda reforça? – a crença popular de que macumba é um ritual obscuro e demoníaco dos negros comandados por uma mãe-de-santo, incorporada no livro por tia Ciata, que é figura histórica marcante da difusão da cultura negra no Rio de Janeiro, ou seja, uma personagem que existiu realmente e que no livro é apresentada como uma figura consciente de sua cultura e que a defende. No entanto, ao mesmo tempo essa inovação, essa valorização, feita a uma personagem histórica perde o brilho diante da constatação, evidente ao fim do capítulo, de que a macumba é um ritual dos negros, onde os brancos só participam porque foram tentados pelo ganho fácil da magia negra.

O capítulo reflete o racismo que sempre esteve entranhado na sociedade brasileira, o Modernismo merece louvores por ter inovado e colocado o negro num papel central da cultura brasileira, mas não devemos nos esquecer de que os modernistas e o autor de Macunaíma representavam a elite intelectual deste país, de famílias latifundiárias em sua maioria, e que mesmo tentando se libertar do preconceito, manifestava-o a olhos vistos. Lembram-se do que Macunaíma fez no final para se tornar o herói ideal, representante do povo brasileiro? Ele tomou um banho! Isso mesmo, um banho, ele se lavou. O ato que universalmente significa purificação e limpeza foi o que Macunaíma fez para tornar-se branco no capítulo V do livro. Em palavras da própria narrativa: <<Quando o herói saiu do banho estava branco louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele>>, o negro da pele de Macunaíma era sujeira que precisava ser lavada. Esta transformação ocorre quando o herói está com seus dois irmãos na viagem para São Paulo e não passa despercebido que quando Jiguê entra na água, ansiando por se tornar branco como o irmão, a sujeira do banho de Macunaíma impede que essa transformação seja completa, sendo que Jiguê fica, então, da cor do bronze novo. O último a tentar essa purificação racial é Maanape, que só consegue clarear as palmas de suas mãos e pés. A associação do negro ser sujo está aí para quem quiser ver, e, para parar de me alongar, deixo com vocês um relato muito similar de uma professora em um evento literário, analisem suas palavras, analisem o livro. O racismo está no nosso dia-a-dia disfarçado de conceitos, de elogios, de exaltações, e nunca confundam, não quero que queimem os livros, longe disso, mas gostaria de ler num manual didático de língua portuguesa para que essa discussão aconteça em sala de aula. O racismo está na literatura há séculos, mas, ele só mudará quando não for mais dado como simples característica da obra.