SEM DEIXAR RASTROS

COLUNA PITACOS 

POR LETICIA SANTOS

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– Esporte é folclore – disse Clip Arnstein à platéia repleta de jornalistas. – O que povoa nosso imaginário não são apenas as vitórias e as derrotas. São as histórias. Histórias de perseverança. De garra. De dedicação. De decepções. De milagres. Histórias de triunfos e tragédias. Histórias de voltas por cima.”

É meus caros, esporte é paixão. Harlan Coben sabe bem disso, ou jamais poderia ter escrito Myron Bolitar, um dos meus detetives favoritos no mundo literário, até coloquei acima do Poirot na minha lista de preferência pessoal, para vocês terem uma noção do tamanho do meu amor por ele.

No livro Sem Deixar Rastros, que é minha indicação dessa semana, vemos o nosso adorável ex-jogador de basquete, atual agente esportivo preguiçoso, e pessoa de coração de ouro, mergulhar de cabeça em um mistério que vai levá-lo de volta à sua maior paixão. E não se enganem, Myron tem muitas mulheres marcantes ao longo de sua vida, como seu melhor amigo Win faz questão de lembrar ao longo do livro, mas, sua maior paixão sempre foi o basquete, o esporte que o abençoou e o desgraçou durante toda a vida.

O desaparecimento de um jogador importante de um grande time de sua cidade faz com que um velho conhecido peça ajuda a Myron para encontrar sua estrela das quadras sem chamar a atenção da imprensa e da polícia, já que não podem se dar ao luxo de um escândalo do tipo às vésperas de jogos decisivos. Partindo dessa premissa simples, vemos como é doloroso para nosso protagonista se ver tragado novamente para o centro do mundo do esporte que tanto ama, mas que não pertence a ele completamente. Ficou difícil de entender? Eu explico: a carreira de Myron no basquete não seguiu o caminho regular, que ocorreria com um jogador estrela nos Estados Unidos. Sabe aquela trajetória linda da estrela esportiva da escola secundária que se torna a estrela universitária, que ganha campeonatos na NBA? – Viram como aprendi todo o esquema lendo os livros? – Então, essa não é a história do Myron, até porque sagas cheias de perfeição e felicidade não rendem bons dramas, nem bons personagens, por isso, e por motivos que vocês lerão, Myron tem seu sonho tirado dele muito precocemente, e essa parada no basquete dita toda a dinâmica de sua vida pessoal e profissional.

Paixão é algo que te motiva, que te faz levantar da cama e ir viver. Perder a possibilidade de atingir a grandeza absoluta no mundo que foi sua vida por anos é um baque capaz de derrubar qualquer um. A vida do nosso detetive nas horas vagas foi tirada dos trilhos quando não pôde mais jogar basquete, ele ficou mal, e depois pior antes de melhorar, então, logicamente, quando mais de uma década depois ele, de repente, é sugado para os holofotes de um mundo que quase o destruiu, uma pessoa sã fugiria correndo, porque nada bom pode sair de jogar sal em feridas abertas, não é? Os amigos de Myron sabem disso, a família dele sabe disso, a namorada dele sabe disso, mas quando se trata de paixões pessoais, não importa quão caro seja o preço a se pagar para voltar a experimentar a sensação de completamento que a comunhão efetiva com nosso objeto de apreço vai oferecer, nós vamos pagar.

Basquete não é só uma paixão para Myron, é um divisor de águas em sua vida, é literalmente o que pauta seu antes e depois. Ler esse livro é como ter a experiência de ver um drogado em recuperação ser tentado com sua droga favorita, mas não só uma tentação pequena, de tê-la perto de si, mas de ter que tocar, sentir o cheiro, e saber que experimentar novamente vai trazer de volta aquela sensação inebriante de prazer. Mergulhem nesse mundo, descubram que basquete é pior que heroína para algumas pessoas, e de quebra, se deliciem com um bom mistério.