SPUTNIK: PAIXÕES POR IDEAIS

Coluna Sidereus Somnium

Por Marcos Pedroso

*

Em 4 de outubro de 1957 uma esfera de metal equipada por antenas, elaborada e produzida com todos os critérios, fez história. Na noite do dia 4 a unidade de testes de foguetes da antiga União Soviética (URSS) foi palco para o Sputnik 1 alçar voo, alcançar o espaço e espantar o mundo como o primeiro satélite artificial a orbitar o planeta Terra.

Sua função basicamente foi emitir ondas de rádio, porém a subida do Sputnik 1 simbolizou mais do que a emissão de ondas eletromagnéticas. O evento deu início à corrida espacial entre URSS e Estados Unidos. Essas duas potências protagonizaram a já conhecida guerra fria, em que disputavam a hegemonia no mundo – seja ela ideológica, militar, política ou tecnológica. De um lado URSS defendendo a visão de mundo socialista, e do outro os EUA ao lado da visão capitalista. Essa disputa ajudou a dividir o mundo na época.

O lançamento da Sputnik 1 foi um dos episódios dessa disputa. Um dos grandes desejos desses países era a conquista do espaço. Para isso, disponibilizaram muitos recursos e especialistas na busca desse objetivo.

As conquistas no decorrer da corrida espacial mostraram a grande capacidade intelectual e tecnológica que o ser humano pode atingir. Por mais que houvesse a disputa entre duas superpotências na época, a colaboração de diversas pessoas envolvidas em seus respectivos países mostrou que a paixão por ideais pode nos levar longe, no caso da Sputnik 1, chegou ao espaço.

Aliás, o espaço e tudo contido nele é uma paixão antiga da humanidade. Portanto, não era de se estranhar que assim que a raça humana tivesse condições intelectuais, tecnológicas e motivação necessária, tentaria essa audaciosa façanha de “tocar” o cosmos.

Sempre houve um caso de amor entre o homem e o espaço, a abóboda celeste foi nossa companheira nas noites de festas e medos, aliás, a palavra Sputnik significa “companheiro de viagem”. E essa paixão humana se concretizou no período da corrida espacial.

As grandes paixões movem o mundo, e no caso da tecnologia espacial, esse sentimento foi o tempero do grande embate que ocorreu entre URSS e EUA. É inegável que esse clima competitivo entre essas nações, por mais que houvesse desgastes políticos e militares, impulsionou o avanço em direção à conquista espacial. As ideologias e paixões de ambas as partes permitiram que todos os envolvidos se superassem ao presenciar as conquistas inimigas.

Ao vencer a gravidade e alcançar a órbita terrestre, o companheiro de viagem Sputnik 1 desafiou o brio dos norte americanos.

Esse acontecimento fez com que os EUA repensassem todas suas estratégias referentes às ciências, inclusive repensar o sistema educacional norte-americano, pois eles se perguntavam como a URSS estava tão à frente tecnologicamente.

Umas das reações foi a criação em 1958 da National Aeronautics and Space Administration (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço), também conhecida como NASA.

Na URSS, o lançamento da Sputnik 1 representava a glória do mundo socialista e a grande capacidade dos soviéticos, mostrando que suas paixões e convicções no regime estava de vento em popa e só tinha a evoluir.

O Sputnik 1 foi somente um dos resultados dessa disputa apaixonada entre essas grandes nações. Ele ficou orbitando a Terra por algumas semanas, rádios amadores do mundo todo puderam captar seus sinais.

Essa conquista foi pioneira e mudaria o mundo para sempre. Enfim o homem conquistava, de certa forma, o que sempre desejou: o espaço.

O fruto desse embate tecnológico, movido principalmente por paixões por ideais de mundo, culminou no que vemos hoje. A raça humana já marcou sua presença espacial, centenas de equipamentos orbitam nosso planeta. Esses satélites artificiais possuem variadas funções, desde meteorológicas a estudos do Sol.

Nós vivemos na era digital em que o acesso à informação é instantâneo. O ser humano hoje vive um caso de amor com as inovações tecnológicas. A internet revolucionou a maneira como gerenciamos os conhecimentos e as interações humanas. Esses avanços não têm volta, pois a tendência é que a maneira como lidamos com a informação se diferencie cada vez mais.

Nada disso seria possível se não houvesse a presença dos milhares de satélites artificiais que neste momento orbitam a Terra.

O domínio dessa tecnologia deu confiança ao ser humano, pois nossos satélites, sondas e roovers estão espalhados pela vizinhança do Sistema Solar. Estamos investigando exoplanetas orbitando outras estrelas, observando luas dos nossos planetas vizinhos, pesquisando de perto e com detalhes o funcionamento da nossa estrela. Vislumbramos até a colonização do planeta que mais somos apaixonados, Marte. E tudo isso movidos por um ideal ou paixão se preferir. A raça humana não quer ser somente um mero terrestre, mas uma raça cósmica.

E, nesse sentido nosso companheiro de viagem o Sputnik 1 tem todo o mérito por ter sido um desbravador espacial. E independente das ideologias defendidas por URSS e EUA, o Sputnik 1 – e os acontecimentos da corrida espacial nos anos seguintes – mostrou que o ser humano, munido de condições intelectuais, técnicas, financeiras, e claro, motivado por paixões, pode chegar muito longe.