LITERATURA, SEXO E EROTISMO: CARTAS DE UM SEDUTOR, DE HILDA HILST

COLUNA LORCA

POR CHARLES BERNDT

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Ao longo da história humana, nas mais variadas civilizações, nas diversas expressões culturais e literárias ao longo dos séculos, o sexo, o desejo e o erotismo sempre estiveram presentes. Faz parte de nós, do que somos, vivemos e sonhamos. Lembro-me, por exemplo, dos poemas de Catulo, controverso poeta latino, nascido em Verona, entre os anos de 87 e 84 a.C, com os quais tive contato nas aulas de latim, na Universidade de Coimbra, e que me surpreenderam pelos seus versos eróticos, muitas vezes pornográficos. Algumas pessoas conhecem Catulo apenas pelos seus poemas mais famosos e estudados, dedicados geralmente à sua amada Lésbia, persona que até hoje não se sabe ter sido real ou fictícia. Mas a verdade é que Catulo escreveu sobre outras pessoas, citou em seus textos líricos também alguns homens. Vejamos dois exemplos:

XLVIII

Os teus olhos de mel, Juvêncio, se eu
os pudesse beijar continuamente,
continuamente eu beijaria até
trezentos mil sem ver-me satisfeito
nem se mais densa do que espigas secas
fosse a messe dos beijos meus e teus.

XVI

Meu pau no cu, na boca, eu vou meter-vos,
Aurélio bicha e Fúrio chupador,
que por meus versos breves, delicados,
me julgastes não ter nenhum pudor.
A um poeta pio convém ser casto
ele mesmo, aos seus versos não há lei.
Estes só tem sabor e graça quando
são delicados, sem nenhum pudor,
e quando incitam o que excite não
digo os meninos, mas esses peludos
que jogo de cintura já não tem
E vós, que muitos beijos (aos milhares!)
já lestes, me julgais não ser viril?
Meu pau no cu, na boca, eu vou meter-vos.[1]

Como bem se vê, Catulo escrevia tanto versos mais delicados e apaixonados como versos mais ousados, pornográficos, em que lançava mão de uma linguagem chula para descrever seu desejo, suas relações e seus amantes. Pois bem, quis eu começar com Catulo para evidenciar que desde sempre os grandes escritores estão a falar de sexo, explícita ou implicitamente. Em outras palavras, se o leitor me permite dizer desta forma, a literatura sempre esteve repleta de putarias. Poderia ficar a citar textos e escritores dessa natureza o dia inteiro, mas não é esta a minha intenção aqui. Em outra oportunidade, certamente, hei de voltar a este tema. Assim, finalmente, gostaria de falar sobre outra voz que se dedicou a esse tipo de literatura, a escritora brasileira Hilda Hilst.

Em Hilda Hilst, tal como vemos em Catulo, o sexo surge como algo natural, explícito, sem tabu, como uma parte essencial do ser humano. O uso de uma linguagem coloquial, recheada de palavrões, em muitos casos, pode assustar um leitor desavisado, mas a verdade é que a literatura de Hilda trata desses temas de uma forma muito delicada, procurando a beleza no gozo, no prazer, na satisfação dos nossos impulsos animalescos, na fragilidade dos corpos humanos. Assim, o primeiro livro de Hilda com o qual tive contato chama-se Cartas de um sedutor e é sobre ele que gostaria de tecer alguns breves comentários.

Publicado em 1991, Cartas de um sedutor é um romance que se divide em dois planos narrativos: no primeiro plano, que se passa no presente, temos a história narrada por um homem identificado como Stamatius, apelidado de Tiu, um catador de lixo que vive com uma mulher chamada Eulália; no segundo plano, temos as cartas de um sujeito chamado Karl endereçadas à sua puritana irmã, Cordélia. De forma geral, o romance traz cenas e descrições eróticas, sensuais, pornográficas. Mas é através dos relatos nas cartas de Karl que o leitor se deparará com o maior número de aventuras picantes, devassas e escatológicas. Eis um trecho da primeira carta:

Irmã amantíssima: gostaria de tocar-te. Mas se isso é impossível, gostaria que nos escrevêssemos novamente e esquecesses aquela minha pequena falcatrua sentimental (tu sabes a que me refiro), aquela bobagem do teu jovem amante num momento de extremada concupiscência: lambeu-me a rodela (deliciosa linguinha inexperiente, mas cálida). E depois se confessou contigo num destrambelhamento choroso e desconjuntado. Tolices. Irrelevâncias. A culpa (houve culpa?) não foi do moço. Tu sabes das minhas artimanhas para conseguir aquele régio prazer. Sabes também o quanto nos amávamos, tu e eu, o quanto te fiz feliz, gritavas, choravas até, quando meu pau aquilo. Não ignoras o quanto fui competente fazendo o impossível para que tu pensasses (quando estavas comigo) que na realidade fodias com nosso querido pai. (Sorte que, até hoje ou até onde sei, não nos coube.)[2]

No romance, não temos as cartas de Cordélia, o que ela escreveu ao irmão como resposta. Temos apenas o que escreveu Karl. Aqui, partilho um trecho da segunda carta, então:

Adivinhaste. Quanto nos parecemos, tu e eu! Perguntas quem é ele. Bem. Chama-se Alberto. Chamo-o de Albert a cause do meu querido Camus. O único. É belo igual a ele. Não gostarias que o chamasse de Albertina, pois não? Aliás, como sabes, Albertina era na realidade o motorista de Marcel, o gênio doentinho que espancava e cegava ratos. Com pouquíssimas exceções, os escritores em geral são nojentos! Gosto é dos livros, mas claro que não posso chamar Alberto de ”A Peste”, ou talvez sim ”A Morte Feliz”. Mas falemos agora de uma evidência perturbadora para a caterva e tão genuína e transparente para mim: como os machos se amam uns aos outros! Por que fazem desse fato tamanho mistério e sofrimento? Perdoa-me, Cordélia, mas a não ser tu, minha irmã e tão bela, não tive um nítido e premente desejo por mulher alguma. Mas sempre gosto de ser chupado. Então às vezes seduzo algumas de beiçolinha revirada. Mas o falo na rosa, nas mulheres, só in extremis. Há em todas as mulheres um langor, um largar-se que me desestimula. Gosto de corpos duros, esguios, de nádegas iguais àqueles gomos ainda verdes, grudados tenazmente à sua envoltura. Gosto de pés compridos, alongados, odeio esses pés de mulheres mais para fofos ou estufados-gordinhos e até quadrados e redondos eu vi. Gosto de cu de homem, cus viris, uns pelos negros ou aloirados à volta, um contrair-se, um fechar-se cheio de opinião. E as mulheres com seus gemidos e suas falações e grandes cus vermelhuscos não me atraem. As nádegas quase sempre volumosas, meio desabadas por mais jovens que sejam, me fazem sempre pensar na Pascoalina lá de casa, te lembras? Lavava os linhos de mamãe, a bundona branca, úmida, pastosa, uns balanceios nojosos. Bunda de mulher deve dar bons bifes no caso de desastre na neve. Leste sobre os tais que comeram os amiguinhos ou amiguinhas congelados? Lembra-te de um outro cara, um japonês, que literalmente comeu a amantezinha holandesa? Só que não havia desastre nem neve. Comeu em casa mesmo, e depois de ter passado um tempo no manicômio, quando saiu (não sei por que saiu) declarou: fui mal interpretado. E como é que se pode interpretar quem come literalmente alguém, sem desastre e sem neve? Voltando às nádegas. As tuas. Douradas e frescas. Tu foste única. Tuas nádegas também. Firmes, altas, perfeitas como as de um rapaz. Quanto a Albert. Tem 16. É mecânico. Não faças essa cara e não rias. Se tu o visses, teus grandes e pequenos lábios intumesceriam de prazer, assim como intumesciam sob os meus dedos quando eu os tocava fingindo esmigalharas polpinhas rosadas. Estás molhada? Não desejarias o pau de Albert indo e vindo no teu abiu-nêspera buraco? Comigo pedias: espera! fica! Espera mais um pouco! Choravas. Vem.[3]

Enfim, Karl, o narrador das cartas do romance, é um homem que põe em xeque os padrões de moralidade da nossa sociedade, denunciando a própria hipocrisia daqueles que dizem viver uma vida pura e casta, como é o caso de Cordélia. Nas cartas, ele fala sem medo e sem pudores sobre incesto, complexo de édipo, homossexualidade e outros tantos tabus. Desse modo, o interessante é pensar que a literatura de Hilda é transgressora na medida em que reflete um tempo ainda cheio de conservadorismo, preconceito, misoginia, homofobia, o que a torna ainda mais atual e necessária – é a voz de uma mulher, numa sociedade patriarcal e machista, a nos falar sobre assuntos muitas vezes proibidos.

Por fim, gostaria de dizer ao leitor que a minha intenção é, antes de mais, convidá-lo para ler a obra de Hilda Hilst e não propriamente apresentar a minha leitura. Assim, neste ano em que se homenageará Hilda na FLIP (Feira Literária de Paraty), por exemplo, talvez seja um bom momento para lermos e conhecermos um pouco mais essa escritora que nos encanta, provoca e excita. Gostaria de sugerir, ainda, que o leitor assista uma entrevista que está disponível no Youtube, concedida por Hilda à TV Cultura em 1990, na ocasião de lançamento do seu livro intitulado O caderno Rosa de Lori Lamby, que é anterior à publicação de Cartas de um sedutor. Nesta entrevista pode-se conhecer um pouco da personalidade da escritora e também o que a levou a começar a escrever textos eróticos e pornográficos. Hilda se orgulha de ser uma pornógrafa e fala sobre sua relação com o mercado editorial, que não lhe dava a mínima atenção enquanto escrevia coisas sérias. Concluo com um de seus poemas, retirado do livro Do desejo, que evidencia, de modo claro, o quanto o desejo é uma das forças motrizes da humanidade:

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.[4]

 

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[1] Ambos os poemas são traduções de João Angelo Oliva Neto, encontradas em O Livro de Catulo, São Paulo, Edusp, 1996.
[2]  HILST, H. Cartas de um sedutor. São Paulo: Globo, 2002.
[3]  Ibidem.
[4]  HILST, H. Do Desejo. São Paulo: Globo, 2004.