CACHORRO-LOUCO – RODRIGO NOVAES

A televisão estava ligada em um canal de notícias. Miguel esperava um telefonema. Tinha um serviço para fazer. Na tevê um desembargador dizia que sua categoria — de filhos da puta, pensou Miguel — dera aumento a si mesma, pois não dava para ir toda hora para o exterior comprar terno e por aqui um importado saía mais caro, além disso, argumentava ele, havia ainda camisas, sapatos decentes — italiano, claro! —, entre outras necessidades exigidas pelo trabalho. Disse isso com muita naturalidade — Miguel percebeu — e terminou enunciando que é de se esperar que a justiça precise estar sempre apresentável. Este é um filho da puta profissional, concluiu Miguel, desligando a tevê. Já estava pronto. Usava a sua antiga farda de policial militar. Fora expulso da corporação depois de um processo que levou seu batalhão inteiro aos tribunais, numa época bem curta de moralização das forças de segurança. Essas épocas vinham e iam, apenas para efeito midiático e para beneficiar algum grupo político em detrimento de outro. Mas os que se fodiam realmente eram apenas os soldados rasos, dentro dessa fascinante engrenagem que nos move a todos: o estado democrático de direito, um faz de conta que os caras no topo da pirâmide inventaram como cala-boca para os intelectuais de plantão. Miguel era cabo, e embora tenha sido expulso, não é verdade que tenha se fodido no final das contas. Tinha as conexões certas e, assim, um serviço ou outro para fazer, o que rendia mais dinheiro do que nos tempos de batalhão. O telefone tocou. Devia ser o sargento, presumiu Miguel. O sargento também não era mais da corporação. As patentes ficam, pensou ele antes de dizer alô. Seu interlocutor passou todas as informações em dois minutos. Sim, aqui é o sargento. Sim, serviço confirmado. É muito simples. Passo aí por volta do meio-dia. O dinheiro está comigo. Vamos recolher três vagabundos das ruas. Sim, tenho os endereços. Um deles se escondeu na casa da irmã no interior, mas já mandei buscá-lo. Vai ser na casa do meu cunhado, ele empresta a garagem. Fica no subúrbio. Sim, tranquilo. O quê? Não. São estupradores. Sim, os piores vermes, estupradores e pedófilos. Crianças também, malditos. Mataram depois. Sim, mataram todas as vítimas. Não, não. Não vamos fazer nada dessa vez. Não. A ordem é esperar. Pois é, são as ordens. Não, não vamos fazer nada, Miguel. Quer a grana? Obedece, então. Devemos esperar um tal de Cachorro-louco. A gente só leva os caras e aguarda por ele. Não sei. Passo aí meio-dia. Combinado. Miguel desligou o telefone. Serviço marcado. Merdas de estupradores, ainda por cima pedófilos, revoltou-se. Pior é não poder fazer nada, não poder arregaçar com eles. E quem é esse Cachorro-louco? Nunca ouvi falar dele. Não podemos nós mesmos fazer todo o serviço? Vamos ficar sem a parte divertida. Na época do batalhão não tinha disso. Todos participavam das torturas e execuções. Não tinha arrego pra vagabundo. O tenente-coronel podia voltar com o nosso grupo. Por onde ele anda? Deixa pra lá, é grana, então a gente obedece. Olhou para o seu relógio Seiko automático do tipo militar no pulso. Dez e meia. Era cedo. Ligou novamente a tevê. Zapeou os canais para passar o tempo.

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Rodrigo Novaes de Almeida
(1976, RJ) é escritor, jornalista e editor. Formado em Comunicação Social, com pós-graduação em Publishing. Atualmente, é editor de conteúdo didático, com passagens pelas editoras Apicuri, Saraiva, Ibep e Somos Educação. Em novembro de 2016, criou a Revista Gueto, portal de literatura que publica, divulga e lança escritores e poetas em língua portuguesa. É autor do livro Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), entre outros.