ESPÍRITO SANTO – JOÃO PAULO PARISIO

Cada vez com maior frequência, o general broxava. Tamanha ignomínia não podia deixar vestígios. Por isso eclodira na região do convento uma epidemia de raiva. Vez em quando um morcego ou cachorro – relatos até de coelhos de olhos endiabradamente vermelhos – mordia uma freira que subia pro céu com tripa e tudo, ou com a alma ainda atada ao corpo descia ao cemitério nos fundos. Florido, é verdade. Quase sempre crepitantes noviças. Os bichos dementes tinham faro para juventude. O general sabia que não podia delegar a atribuição de morrê-las. Mesmo seus mais fiéis molossos e sabujos sofreriam a tentação de poupá-las, fruí-las, acoitá-las, desposá-las ou prostituí-las, ou tudo. Por muito tempo fora um deles, entendia do riscado. Especialmente o da faca. Não havia fidelidade canina entre os homens. Isso não passava de poesia. A palavra poesia lhe dava vontade de cuspir. Arte, de escarrar. Uma praga, erva daninha da civilização. Guernica, por exemplo. O que havia de arte nela fora destruído pela guerra viril. Purificado. Aí vai o outro e faz arte por cima. Ora, todo basco era um filho da puta, todo mundo sabia. Toda arte, pichação. Tanto que começara com aquelas garatujas nas paredes das cavernas – umas das mais antigas não eram na Espanha? Vai ver tinham sido os tataravós dos bascos! –, que o pessoal da ciência queria dignificar com mil mirabolantes interpretações. E o mundo inteiro estava pichado desde que o homem era homem. Arte era uma ação tática bem planejada e executada, o único teatro que interessava, o de operações. Os artistas deviam ser expulsos da vida em sociedade. Alguém queria discutir com Platão? Só achava a medida branda demais. Gafanhotos sempre sabem voltar. Era preciso exterminar, reunir todos e tocar fogo. Fazer autos, inquisições. E não só eles deixariam de fazer o que faziam como o que já haviam feito deixaria de ter existido, assim como com a morte das testemunhas seus fiascos se aniquilavam. Havia ele, é claro. Quando morresse os arrastaria para o túmulo e se dissolveriam com suas células. Sua epistemologia não ia além.

A agente era a madre superiora. Haviam queimado um com outro muitos fogos na juventude e servido de andaime recíproco em suas carreiras, uma parceria mais bem sucedida que a quase totalidade dos casamentos. Ela ainda exigia em troca uma fração das brasas remanescentes de sua proverbial lascívia. Um incêndio moribundo que resistia apenas no coração das cinzas e das trevas, no secreto pulsar dessas brasas esparsas, mesmo essa plêiade cada vez mais desfalcada. Seu desejo também perdera os dentes, ficara-lhe sob a forma de vício. Recusava-se a encarar esse fato assim como não olhava diretamente para a dentadura quando a mergulhava na solução antisséptica antes de dormir. Pavor de infecções. Vira bem na guerra do Contestado, nos hospitais de campanha, nas liças, do que elas eram capazes. Comiam vivo um homem, apodreciam-no por partes. Ali fizera sua fama, nada como terras devolutas para o nome de um homem crescer, se expandir. Ou o apelido, ou o título, se assim se quiser entender. Tivera muitos, sobretudo Cachorro Doido. Dizia-se que fora ele a dar cabo do último dos Três Monges, Santo Agostinho, o que passava por curandeiro, herbalista, teria ressuscitado uma moça e recobrado a saúde da desmilinguida esposa de um coronel. O futuro general julgava saber muito bem que cataplasmas e emplastros eram esses. O santarrão era um desertor condenado por violação, segundo um registro da polícia do Paraná. Esse terceiro monge era ainda o que indicava a localização de fontes d’água milagrosas, e a tradição local rezava que Cachorro Doido tinha inventado uma tortura em que colocava as pessoas amarradas de frente para essas fontes noite e dia em plena canícula, sem dar-lhes de beber. Não eram milagrosas? Que dessem um jeito de flutuar até suas bocas, desviando a rota estabelecida por Deus, acaso merecessem. O próprio José Maria de Santo Agostinho teria perecido dessa forma, sendo depois enterrado ao pé da fonte, para conspurcá-la.

Tornou-se figura folclórica ele próprio, no decurso da guerra. Notabilizou-se até pelo hábito de coçar o ouvido com o mindinho num frêmito de pássaro e depois, talvez para encobrir o cheiro dos cadáveres da paisagem, cheirá-lo pelo lado da unha com tal deleite que o semblante se transfigurava e chegava a virar os olhos. Parece que virava os olhos em transes de matança, e prostitutas com quem estivera afirmavam que tinha o mesmo sestro na hora do êxtase. Daí outro de seus apelidos: O Vira-Olhos. Outro mais: Espírito Santo. Não por ser capixaba – muitos o eram –, talvez por ter deixado moças solteiras em condições de dizer aos pais apenas que repetira-se nelas o milagre da imaculada conceição.

E agora, como por castigo, sentia-se preso justo na ilusão de uma pintura que vira na igreja de São Tomé, em Toledo – Espanha! –, no curso de uma visita oficial, décadas depois do Contestado. Nela contemplava-se um homem, notadamente um nobre militar, sendo deposto na cova, com a armadura completa e impecável, por ninguém menos que Santo Estêvão e – Santo Agostinho, descidos do céu para esse fim, tão pio fora o conde cujo enterro ali se retratava, com muitas pessoas ao redor e santos e anjos em cima, inclusive Maria e Jesus Nosso Senhor. E era ali que ele estava embora em seu quarto, aos olhos de todos, no papel do conde de Orgaz, sendo que Santo Agostinho tinha o rosto do Santo Agostinho do Contestado. E ele não podia se mexer. Não podia estender a mão para apanhar a dentadura no copo. Ao contrário do conde medieval não trajava seu uniforme, não portava suas dragonas, suas condecorações, suas botas rangentes. Nu e esquálido, o lençol quase escorregando para o chão cobria-lhe apenas o ventre e o alto das coxas. Nisso estava parecendo mais um Jesus recém-descido da cruz. Só que velho. Mas vivo! O conde de Orgaz estava morto, ele não, estava vivo! Pudesse gritar um grito inumano…

Porém a porta se abria. Entrava uma moça. Ora ora se não era uma das noviças que não soubera ardê-lo! Não era parte da pintura: demasiado realista, sem alongamentos inverossímeis dos membros e dos traços, sem destacar-se com nitidez do fundo, como se o autor tivesse lançado mão do sfumato renascentista. Esfaqueara-a no útero, como às outras. Se fosse um fantasma traria ainda a bata ensanguentada. Demorara a reconhecê-la, até, porque não estava de hábito, mas em trajes civis, e trazia em cada uma das mãos objetos que lembravam os atributos dos santos, a exemplo dos de Santo Agostinho: a criança, a pomba, a pena de escrever, a concha, o coração trespassado, um livro com uma igrejinha em cima… Cada um tinha sua explicação. Recordava as lições da mãe, as aulas do catecismo. Mas a moça, a ex-moça, a moça, trazia na mão esquerda uma jarra d’água e na direita uma jaula de ferro com um cãozinho desses de raça pequena e insuportável, estrídula, infernizante. Não lembrava o nome. Uma variedade mexicana? Depôs a jarra a seu lado, no criado-mudo, tão perto que ele pôde aspirar-lhe o cheiro de lavanda, vislumbrar-lhe o pescoço franco. Criança, pomba, coração trespassado, conchita… Uma das poucas palavras que retivera do espanhol. A jaula do outro lado da cama, no chão. Retirou-lhe o lençol de cima, revelando o sexo cinzento, depauperado, ruinoso, cercado de escassos pelos brancos e verrugas senis. Sacou uma chave de ferro do bolso ou da bolsa, abriu a jaula e de lá tirou o cachorrinho, que tremia e babava uma espuma espessa, amarelenta, mantendo-o junto ao peito. Sorriu com ar de santa. Disse, traçando a cruz no ar: Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo. E soltou o Cão.

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João Paulo Parisio (Instagram) escreveu o livro Homens e outros animais fabulosos (contos) que sairá pela editora Patuá ainda esse ano. É autor também de Legião Anônima (contos) e Esculturas Fluidas (poemas), publicados pela Cepe editora e ambos incluídos na lista de melhores do ano organizada pelo crítico literário Alfredo Monte.