FANTASMA DE AGOSTO – MARCELO LABES

i.
quando getúlio vargas
– e a história conta que
a história – mas quando
getúlio vargas decidiu por
fim à própria vida – a história
redime o fato ou o mantém
– quando getúlio dornelles
vargas decidiu puxar o
gatilho – que fizeram dos
integralistas? e dos nazistas,
que fizeram? quando getúlio
vargas, o pai dos pobres,
suicidou-se não havia
brasil, não havia pobreza –
quando getúlio vargas atirou
contra o próprio peito
– os pobres, a pobreza –
o pijama listrado azul e branco
– a pobreza, a pobreza –
recebeu a agressão do tiro
e um fiapo de sangue
escorreu sobre as fibras
de algodão.

ii.
os pobres fizeram fila
para chorar seu corpo
morto

os pobres fizeram fila
incendiaram carros
montaram barreiras

para chorar sua perda.
os pobres esperavam
mais do presidente

os pobres protegeram
agradeceram reverenciaram
o presidente

os pobres os pobres os
pobres os pobres os pobres
eu não.

iii.
setembro não chegará
se sucumbirmos a agosto

iv.
nalgum canto do brasil
um retrato na parede
denuncia que tivemos
estradas indústrias
siderurgia

nalgum canto do país
um fantasma se aproxima
e diz que pra viver
se precisa coragem
– a voz de getúlio vargas

pai dos pobres
fidalgo da soberania
príncipe dos estancieiros
imperador da covardia.

 

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Marcelo Labes nasceu em Blumenau-SC, em 1984. É autor de Falações [EdiFurb, 2008], Porque sim não é resposta [Antítese, Hemisfério Sul, 2015], O filho da empregada [Antítese, Hemisfério Sul, 2016], Trapaça [Oito e Meio, 2016] e Enclave [Patuá, 2018]. Integrou a mostra Poesia Agora (edição carioca), em 2017. Tem poemas publicados em Mallarmagens, Livre Opinião – Ideias em Debate, Ruído Manifesto, Enfermaria 6 e Revista Lavoura. Edita a revista eletrônica ‘O poema do poeta’, onde publica originais manuscritos, esboços e rabiscos de poetas e ficcionistas.