VOZES QUE ME TOCAM: MÁRIO CESARINY

COLUNA LORCA

POR CHARLES BERNDT

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Hoje gostaria de iniciar uma espécie de coluna dentro desta coluna chamada Vozes que me tocam, isto é, perdoem a confusão, gostaria de iniciar o hábito de publicar, pelo menos uma vez por mês, um texto dedicado a falar sobre os escritores e os pensadores que de alguma maneira me tocam, influenciam o meu pensamento, a minha escrita e, obviamente, quem sou. Aliás, esta coluna, por si só, já traz o nome de uma dessas vozes que me inspira e com quem vivo a dialogar: Garcia Lorca. Portanto, quero evocar uma outra voz, alguém que, inclusive, tem uma história bastante semelhante à de Lorca. Trata-se do poeta e pintor português Mário Cesariny.

Mário Cesariny foi um importante poeta português, principal representante do movimento surrealista em Portugal. Nascido em Lisboa, na freguesia de Benfica, passou a ter contato com o surrealismo francês na década de 1940, quando conheceu, em Paris, o poeta André Breton, por quem se viu influenciado. Cesariny foi, ainda, perseguido pela ditadura salazarista, por conta de sua homossexualidade, algo que nunca fez questão de esconder.

Como é típico dos surrealistas, percebe-se na poesia de Cesariny a crítica aos comportamentos tidos como normais, o uso tempestivo e descontínuo da linguagem – os constantes trocadilhos, jogos verbais, automatismos, paródias e o uso de um humor negro – surge então como contraste à visão normativa imposta nas sociedades contemporâneas. Em diversos textos, o poeta aborda de modo claro a homossexualidade, o que lhe rendeu muitas polêmicas e críticas. A partir da década de 1980, Cesariny passou a se dedicar inteiramente à pintura, não deixando de lado seus traços e ideais surrealistas, agora exprimidos através das artes plásticas.

Sendo assim, gostaria de dividir com o querido público leitor, alguns poemas deste homem que marcou parte de minha vida, que influenciou e ainda influencia minha escrita. Ao lado de poetas como Garcia Lorca, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner e Carlos Drummond de Andrade, Cesariny é uma dessas vozes a quem recorro sempre que me sinto demasiado só, sempre que tenho a sensação de ser o único a não saber direito quem sou. Em muitos de seus versos, inclusive, o que mais se nota é a procura constante do eu, de si mesmo, que não deixa de ser, de um modo bastante pessoano, a busca pelo outro. Desse modo, deixo cinco poemas, em forma de aperitivo, como convite para que conheçam este poeta ou voltem a revisitar seus versos sempre desassossegados, tempestuosos, doces e amargos ao mesmo tempo[1]:


POEMA

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


O ÁLVARO GOSTA MUITO

O Álvaro gosta muito de levar no cu
O Alberto nem por isso
O Ricardo dá-lhe mais para ir
O Fernando emociona-se e não consegue acabar.

O Campos
Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia
Ficavam-lhe os olhos brancos
E não falava, mordia. O Alberto
É mais por causa da fotografia
Das árvores altas nos montes perto
Quando passam rapazes
O que nem sempre sucedia.

O Fernando o seu maior desejo desde adulto
(Mas já na tenra idade lhe provia)
Era ver os héteros a foder uns com os outros
Pela seguinte ordem e teoria:
O Ricardo no chão, debaixo de todos (era molengão
Em não se tratando de anacreônticas) introduzia-
-Se no Alberto até à base
E com algum incómodo o Alberto erguia
Nos pulsos a ordem da kabalia
Tentando passá-la ao Álvaro
Que enroscado no Search mordia mordia
E a mais não dava atenção.
O Search tentava
Apanhar o membro do Bernardo
Que crescia sem parança direcção espaço
E era o que mais avultava na dança
Das pernas do maço de heteronomia
A que aliás o Search era um pouco emprestado
Como de ajuda externa (de janela ao lado)
Àquela endemonia
Hoje em dia moderna e caso arrumado.

Formado o quadrado
Era quando o Aleyster Crowley aparecia.
«Iô Pan! Iô Pã!», dizia,
E era felatio para todos
e pão de ló molhado em malvasia.


VISTO A ESTA LUZ

Visto a esta luz és um porto de mar
como reverberos de ondas onde havia mãos
rebocadores na brancura dos braços

Constroem-te um ponte
que deverá cingir-te os rins para sempre

O que há horrível no teu corpo diurno
é a sua avareza de palavras
és tu inutilmente iluminado e quente
como um resto saído de outras eras
que te fizeram carne e se foram embora
porque verdade sem erro certo verdadeiro
nada era noite bastante para tocarmos melhor
as nossas mãos de nautas navegando o espaço
os corpos um e dois do navio de espelhos
filhos e filhas do imponderável
de cabeça para baixo a ver a terra girar

Quero-te sempre como não querer-te?
mas esta luz de sinopla nas calças!
este interposto objecto
e o seu leve peso de eternidade


YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

O JOVEM MÁGICO

O jovem mágico das mãos de ouro que a remar não se cansa muito e olha muito depressa (como se fosse de moto) veio hoje ficar a minha casa
Vivia longe
longe já se sabia
tão longe que era absurdo querer determinar
metade campo metade luz
aí era a sua casa o sítio onde era longe
mesmo de olhos
fechados (como ele estava)
e de braços cruzados (como parecia dormir)
o jovem mágico das mãos de ouro
que era todo de empréstimo à minha noite
que falou
por acaso que nem se chamava assim
(segundo também contou) tinha vivido há muito
ele, que estava ali, era um falsário
um fugido de outro basta ver os meus olhos
nada sabemos
de nós a não ser que chegamos
sem uma luz a esconder-nos o rosto
belos e apavorados de estranhos casacos vestidos
altos de meter medo às aves de longo curso
nem há
noites assim não há encontros
ao longo das enseadas
não há corpos amantes não há luzeiros de astros

sob tanto silêncio tão duradoura treva
e não
me fales nunca eu sou surdo eu não te oiço
eu vou nascer feliz numa cidade futura
eu sei atravessar as fronteiras das coisas
olha para as minhas mãos que te pareço agora?
No entanto
surgiu como simples criança
conseguia sorrir sentar-se verter águas
com as mãos na cintura livre natural
ele que era um fantasma um fugido de outro
um que nem
mesmo se chamava assim
o jovem mágico nu de todos os sítios da Terra.

[1]Todos estes poemas foram retirados do site Escritas, mas recomendamos o livro Poesia, da editora Assírio Alvim, publicado em 2017, em Portugal.