DE TODOS OS MOTIVOS

COLUNA PITACOS 

POR LETÍCIA SANTOS

*

Minha lista de leitura é altamente variada, meus amigos, saio de cinco livros de ficção fantástica e foco numa coleção de romances policiais com uma facilidade enorme. Gosto de limpar o paladar, por assim dizer, lendo algo completamente diferente do livro que me deixou de ressaca literária anteriormente. Atualmente, é mais difícil um romance fofinho e leve me encantar, e digo isso porque está uma tarefa árdua achar uma narrativa onde eu não classifique a relação como tóxica e questione cada decisão dos personagens. Foi por isso que fiquei tão feliz de achar De Todos os Motivos, do Vitor Castrillo enquanto navegava pela Amazon. Comprar um kindle foi uma das melhores decisões que já tomei, com leve pressão dos amigos, porque me abriu um leque de oportunidades de leituras como essa.

Esse é um livro curto e deliciosamente divertido. Foi definitivamente uma leitura refrescante, porque se trata sim de um romance super fofo, e não tem outras palavras para definir. Henrique e Pedro são um casal super fofo e isso é definitivo, eles vivem um romance fofo que poderia acontecer com qualquer um de nós, meros mortais, e esse foi um fator encantador sobre o romance dos dois. Já disse que anda difícil de uma narrativa romântica prender minha atenção atualmente, mas, ao contrário da onda de amores impossíveis, personagens vilanescos e complicações emocionais difíceis de compreender, esse livro nos presenteia com algo que não apenas é lógico e encantador, mas que nos remete a uma série de sentimentos que muitos devem ter sentido durante os primeiros amores.

Os clichês são perigosos, ou estão extremamente bem feitos ou estragam muito facilmente. No caso do Vitor, ele conseguiu a coisa mais surpreendente do mundo, que foi combinar o plot de melhores amigos se apaixonando com as inseguranças de alguém que não sabe se está realmente sendo correspondido ou se está adequando os fatos aos seus sentimentos, e essa junção foi um sucesso. E então, nosso narrador, o adorável Pedro – que entrou para a lista de personagens que eu gostaria de guardar em um potinho e proteger do mundo -, faz a coisa mais comum para alguém de uma geração que respira e vive através da internet: ele posta sua história e suas dúvidas num fórum em busca de ajuda. E uma coisa que devemos esclarecer aqui, é que eu basicamente vivo na internet e odeio ser interrompida pela vida real, então, posso dizer com segurança que a reação ao post dele, é exatamente o que aconteceria no mundo de hoje, desde que fosse feito num lugar onde os haters malucos e homofóbicos não estivessem presentes, que é começar a shippar esses dois loucamente, o que traduzindo para os leigos em fandoms e internetês, é torcer muito pelo casal. E, lendo o livro, e já tendo um passado com romances de temática LGBT, senti um frio no coração, pensando a todo momento se esse ia ser mais um romance com um casal perfeito e com química, que acabaria em tragédia ou tristeza. O ponto é que tanto os leitores do fórum em que o Pedro postou, quanto os do livro, sofrem esperando que ele se declare para o melhor amigo e que eles fiquem juntos, e conseguir esse engajamento por parte do leitor é um feito gigantesco.

Um detalhe incrível dessa obra é que ela dialoga com quem vive em um mundo onde animes, filmes, memes e comunicação rápida é uma realidade, ele está repleto de referências geeks com as quais cresci, chegando até a rainha da internet Gretchen.

O segredo desse livro está na simplicidade do enredo e na complexidade da construção dos personagens. Fatos comuns, como decidir onde morar ao ir para a faculdade, sentir saudades insanas de alguém que se vê diariamente, ficar confuso com gestos que podem indicar mais que uma amizade… tudo é algo cotidiano, o que ajuda o leitor a se relacionar com os personagens, ao mesmo tempo em que podemos ver a construção cuidadosa das dúvidas e angústias do nosso narrador, que sofre com sentimentos de carinho profundo.

A sensação que tive foi de ver de fora como dois amigos meus seriam perfeitos um para o outro, e como deviam ficar juntos logo, para que os demais amigos pudessem desfrutar da concretização do melhor ship de todos. Até porque Pedro teve que assistir Star Wars pelo Bruno Henrique, e isso é prova de amor, porque ô filmes chatos, os fãs que me desculpem. O cotidiano dos dois é como o de qualquer casal, é normal e adoravelmente comum, e o fato dos dois serem gays – eu fiquei me perguntando se o Henrique é demissexual, o que gostaria de perguntar para o autor se um dia tiver a oportunidade – mas, sobre isso, resolvi aderir ao conselho da mãe do Pedro, que é o melhor do mundo: “Bruno Henrique não se entende, Bruno Henrique se sente e compreende.”

Leiam esse livro, é a coisa mais romântica e fofa do mundo, garanto um sorriso besta na cara durante a leitura toda, e um amor profundo pelos personagens. Romance bom é romance que termina bem, tá gente? Para sofrência gratuita já tem os jornais.