PORQUE TUDO O QUE É VIVO, MORRE – LETICIA SANTOS

A fascinação com a morte e as diferentes formas de lidar com o fim da vida – e presumir sobre o que acontece depois – é um tema recorrente nas formas de expressão artística dos seres humanos desde tempos antigos.

O Dia dos Mortos celebrado mundo afora de maneiras diferentes é o tema dessa edição, e especialmente fascinante para mim, já que em literatura temos uma grande quantidade de excelentes obras que flertam com a morte e com os fantasmas remanescentes dos que se foram, sejam fantasmas reais como em Os Garotos Corvos, peça interessantíssima de Literatura Fantástica de Maggie Stiefvater, ou as sombras de lembranças e sentimentos acumulados tão magistralmente por Marcelo Nocelli em Reminiscências, obra na qual somos confrontados em uma série de contos envolventes sobre envelhecimento, morte e o comportamento humano diante da inevitabilidade da perda.

Um dos mais famosos personagens da literatura e do imaginário popular, nosso querido Dorian Gray, não poderia lidar com a passagem do tempo afetando a beleza pela qual sempre foi conhecido, o desgosto com o encarquilhamento que os anos trazem, e a maneira com que lutou para evitar que a mortalidade o tocassem, fizeram com que o personagem de Oscar Wilde se tornasse um dos mais emblemáticos personagens do mundo.

Temos ainda as mais diversas tradições sobre morte e como lidar com ela registradas em livros incríveis mundo afora. Muda-se o local e muda a relação com a morte e sua celebração, já que a visão de cada um é moldada por preceitos religiosos, culturais e pessoais. Uma das mais fascinantes tradições do mundo para com seus mortos é a do México, que contrasta com a nossa, por exemplo, já que em vez de lágrimas e solenidades tristes, temos uma festa com cor, alegria, comida e música. E, ainda que o Dia dos Mortos mexicano seja assim tão colorido, um dos clássicos de sua literatura nacional, Pedro Páramo de Juan Rulfo, nos leva a uma viagem introspectiva e cativante sobre ancestralidade e relações familiares, aproximando o mundo dos espíritos do nosso. Podemos ainda, forçando nossos cérebros cansados a se lembrar das leituras obrigatórias na escola, evocar Gil Vicente e sua incrível e atemporal Auto da Barca do Inferno, onde vemos como uma série de personagens é julgada depois da morte, chegando ao momento de glória ou castigo despidos de influências terrenas, e portanto, incapazes de comprar favores ou ludibriar o caminho para o céu e o inferno.

A relação entre os humanos e a morte é um campo sem fim para romances, dramas e lágrimas. Quem nunca se comoveu com o mito de Orfeu e Eurídice? O homem talentoso o suficiente para encantar o Senhor do Submundo, que ganhou o direito de salvá-la da morte e que no fim não pôde aproveitar seu amor, é uma das relações com a morte mais linda e cruel de todos os tempos. A inevitabilidade do fim e a tentativa de encontrar uma fonte de juventude eterna é tema comum para aventuras célebres, já que a única certeza na vida é de que todos um dia iremos morrer. A capacidade humana de conjecturar sobre o que acontece depois é fortemente influenciada pela religião, é claro. Por exemplo, acabo de citar um mito da Grécia Antiga, cuja pós-morte é maiormente esquecimento e desolação, ainda que existam os Campos Elísios para os maiores heróis numa releitura do além. O fato de uma pessoa ter sido ou não boa durante a vida era menos importante para o conceito do submundo mitológico grego do que ter ofendido ou irritado um deus, por exemplo. O conceito de pecado não existia, as ofensas maiores eram aos ritos, aos costumes que eram pilares da sociedade, e que até hoje norteiam o ocidente, como por exemplo, respeitar o corpo morto e ter ritos funerários apropriados, tanto que vemos na Ilíada de Homero como Aquiles é descrito como louco de fúria e fora de si quando ele profana o corpo de Heitor: profanar um corpo, mesmo que de um inimigo não é considerado civilizado nem na Grécia Antiga.

A mitologia cristã herdou uma série de rituais e datas das religiões pagãs gregas e romanas, mas, sua relação com a morte e com o que acontece depois dela é totalmente diferente e rendeu-nos um dos maiores clássicos brasileiros, criado pelo genial Ariano Suassuna, criador do Auto da Compadecida e de todos seus personagens cativantes, que foram transformados em um filme, que pessoalmente, sempre sou obrigada a rever quando está na televisão, por pura vontade de rir com Chicó e João Grilo.

A morte, meus caros, não é apenas o fim da vida, é a porta que se abre na imaginação de muitos, é a fonte escura e de águas insondáveis onde vários poetas e escritores foram beber para nos presentear com obras incríveis. Juntem-se a mim conhecendo essas obras nessa edição para refletir sobre a morte e seus ecos no nosso mundo, porque, como diria o sábio Chicó: ela é o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.

 

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Leticia Silva Santos (@laetitiasjc) é professora não praticante, formada em Letras, pela Universidade de Coimbra, devido ao seu imenso amor à literatura. Possui uma coleção de livros que nunca será grande o suficiente.