O CADÁVER QUE SERVIA MACARRÃO – NATHALIE LOURENÇO

Mamãe morreu numa quinta-feira, de forma que na segunda já foi trabalhar. O procedimento era novo, coisa de um doutor lá de Goiás que passou décadas estudando a razão pela qual as galinhas, depois de terem suas cabeças cortadas, ainda continuavam a bater as asas e a correr com sangue em chafariz. Tinha a ver com uma memória diferente, que ficava guardada no próprio corpo, sei lá como ele explicou, que ainda podia reproduzir os movimentos do dia a dia sem precisar duma cabeça dando ordens. Antes de fazer com gente, ele testou muito. Deu um jeito das galinhas continuarem assim por meses e meses. Costurava para o sangue não vazar, e acho que devia ter uma pilha pra ativar, mandar eletrotelegramas que dissessem ao coração e outros órgãos, continuem, não é preciso fazer nada que não estejam acostumados. O homem passou anos alimentando galinhas mortas com pinça pelo buraquinho no pescoço. Acho que o que eles mais aprendem na faculdade é a não ter nojo de nada. Eu logo aprendi também.

Tudo isso ele nos explicou na capelinha do hospital, onde tínhamos ido rezar logo depois de mamãe morrer. O lugar cheirava a lustra móveis e era todo iluminado por velas elétricas, com lâmpadas no lugar das chamas. O procedimento já estava sendo implementado em todo o Brasil, ele disse, havia agora algumas centenas de desmortos, eu é que nunca tinha visto nenhum.

Ela era a candidata perfeita. O corpo em ótimo estado, não estava caída demais, entrevada, nenhuma doença ou ferimento a estragar a carne. Só o derrame na cabeça. Só. Nada de muito importante, disse ele. A decisão tinha que ser tomada em no máximo 40 minutos, senão morriam os neurônios do resto do corpo e aí já viu. Ficamos nós quatro, os quatro filhos enfileirados, ainda ajoelhados na madeirinha acolchoada da capela. Ninguém queria tomar uma decisão dessa, mas quarenta minutos. Frederico falou primeiro. Achava errado, a mãe merecia descansar, onde já se viu fazer com ela o que se faz com as galinhas? Lucas disse que não havia vergonha nenhuma, a mãe sempre se orgulhou de trabalhar e quando foi que podendo fazer algo por nós ela escolheria não fazer? Silmara lembrou que ela adoraria poder cuidar dos netos que ficaram pra trás e assim poderia ajudar com as mensalidades, escola particular não é brincadeira. E eu? Eu achava bizarro, monstruoso ter um corpo sem cabeça andando por aí em piloto automático. Comecei a discursar com uma ferocidade que nem eu sabia que tinha, dava pra ver as gotinhas de cuspe voando contra a luz das velas elétricas até a cara dos meus irmãos. Não era de propósito, mas que eles bem mereciam. Entrei numa espécie de transe, deitei o verbo mesmo, acho que usei até a palavra ignonímia, jesus, que eu nem sei como se escreve isso. Tão acesa eu fiquei que não dei reparo de Silmara que levantou e foi ter com o médico dizer que É Isso, Pode Ir Em Frente Com A Operação Sim.

Quis vomitar, mas era uma coisa muito pouco digna pra uma mulher de luto. Esperamos os quatro pelo procedimento na salinha de espera, eu queimando de raiva e de vergonha pelo que estava acontecendo do lado de lá da porta. Silmara e Lucas trocavam comentários sobre tudo o que passava na cabeça, para não ouvir o silêncio furibundo que eu e Frederico mantínhamos. Nas cadeiras do outro lado do corredor, um senhor aguardava a esposa sair da cirurgia, recusava o suco que a filha tinha trazido, não folheava revistas, nem olhava para a televisão. Olhava para a frente, através de mim e de meus irmãos como se esperar fosse tarefa que exigisse toda sua concentração, como se ele por acaso se distraísse um segundo sequer daria espaço para a morte entrar pelo buraco que os cirurgiões tinham aberto na esposa. Tolerava apenas a filha que apertava seu ombro, com a mão por cima do suéter macio, de ficar em casa. Desejei estar no lado oposto do corredor, com a Família Boa e Séria, a família que ainda podia sair dali com a mãe viva.

Fui para a máquina que vendia latas de sucos, refrigerante, garrafas de água, quem sabe esperando a chance de trocar de lugar com a filha do senhorzinho. Mamãe sempre ameaçava nos mandar para outra família quando reclamávamos da comida ou fazíamos qualquer outra pirraça. Agora já não parecia tão ruim. Apesar de tudo, ela via a família separada como o pior castigo de todos, então peguei a água e voltei a sentar com meus irmãos. Devia ter lhes metido mais a mão na fuça quando ainda era maior que eles.

Estávamos todos do mesmo tamanho agora. Então, paciência.

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Na segunda-feira, o chefe de mamãe ligou para meu chip pessoal, furibundo. Que Merda É Essa?

Ele nunca tinha tido uma funcionária desmorta. Reconheci imediatamente sua voz no meu cérebro. Eu conhecia o Sr. Evandro das festas de aniversário de mamãe que, tão educada, convidava todos. Até mesmo o chefe – que não tinha nem a delicadeza de recusar. Se berrava comigo desse jeito, direto na minha mente, interrompendo meu trabalho, imagina quem tinha a humilhação e o silêncio assegurados pela folha de pagamento.

Eu não podia ter passado lá pra deixar mamãe de carro pela manhã. Explicar tudo direitinho. Tinha que deixar ela ir sozinha, para não botar tudo a perder. Se eu não atrapalhar, ela continua a fazer tudo sozinha, acorda, toma banho, se veste, pega o ônibus. É um repeteco.  A única coisa que eu tenho que fazer é colocar uma pasta nutritiva pelo buraco no topo do aparelho em seu pescoço. A gente dá importância demais pra cabeça, mas o corpo também sabe das coisas.

O homem tinha demorado pra reconhecer mamãe. Acho que porque os principais traços da pessoa ficam na cabeça. Depois, pelos sapatos, a forma do corpo, o jeito de andar, o entendimento foi entrando no homem, do mesmo jeito que alguém entra numa piscina num dia frio. Devagar, por partes. Tentei tranquilizar ele, primeiro com o fato de que mamãe estava no trabalho sim, com a única diferença que tinha morrido. Tão exemplar ela era, que nem falecida tirou dia de folga. Depois, com jeitinho, fui explicando como funcionava. Ela está fazendo o trabalho dela, não está? Guardando as mercadorias no estoque? Tão bem quanto sempre? Então pronto. Ela continua a vir, ele continua pagando, ainda economiza o Vale Refeição. Sem enrosco, sem reclamação, sem caraminhola. Isso daí é coisa de quem tem cabeça.

Eu que não ia permitir ele mandar embora minha mãe. Justo ela, que não faltava um dia só. Não agora, com a atrocidade já feita. A cabeça enterrada num caixão específico, que encaixa depois num maior, quando for a hora. Ela que vendeu férias atrás de férias, mas nunca juntou nada pra se aposentar. Sempre algum filho precisando, aquele ralo aberto no fundo da poupança. Filho é despesa. Uma despesa que a gente ama muito, mas uma despesa, ela dizia. Sempre foi sem reclamar nas emendas de feriado, nos plantões entre Natal e Ano Novo. Não deixava ela viver em paz e agora queria mandar ela embora só porque estava morta? Não. De jeito nenhum. Ameacei meter um processo trabalhista póstumo. Era blefe, sei lá se gente morta tem direitos, mas ele é que não ia arriscar. Ele sabe que sou secretária em escritório de I.A.A. e tenho acesso às melhores Inteligências Artificiais Advocatícias.

Ele se despediu com beijinhos.

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Fui me acostumando com a nova presença dela. Mamãe sempre foi quieta. Faltava só os comentários durante a novela. Os suspiros fundos pela casa, a luz acesa para o xixi da madrugada. Nos domingos, continuava a preparar o macarrão com molho rosé, desde que os ingredientes fossem deixados na posição exata. Um domingo, havia uma caixa de feijão longa vida em vez de extrato de tomate na despensa. O cheiro era terrível. Tive que jogar tudo fora.

Lucas, Frederico e Silmara ficavam desajeitados quando vinham, não suportavam sentar com o corpo de mamãe à mesa, o cadáver que ainda servia macarrão no prato de cada um, mais do que eles tinham fome para comer, como sempre. O pior é que se não pusessem o prato embaixo da concha com que ela servia automática, ia tudo pra toalha de mesa. Uma porcalhada e adivinha quem ficava pra limpar depois?

As visitas foram rareando, coincidência claro, assim que saíram os trâmites da herança ativa, a conta salário que dividia os ganhos igualmente entre nós quatro. Tive que colocar tupperwares nos pontos da mesa onde aos domingos ela servia três conchas de macarrão. Levava pra almoçar no escritório durante a semana e assim fui engordando. Era uma pena que no último domingo ela não tivesse feito algo mais saudável, frango assado e legumes. Tentei substituir alguns ingredientes na despensa pra variar a receita, mas quase sempre resultava em desastre.

Fui pegando horror a molho rosé, mas comia, comia mesmo assim. Comida boa não se joga fora. Tem muita criança passando fome. Coisas que ela sempre dizia pra mim.

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O chefe dela me ligou outra vez. Voz pegajosa fazendo contornos diretamente no meu cérebro. A Morte Fez Muito Bem Pra Dona Karina. É A Mais Produtiva. Nada Dessas Merdas De Ficar Parando Pra Fumar, Jogar Papinho Mole. Com Ela É Trabalho, Porra. Não Falta. Não Fica Doente. Não Tira Feriado. Quem é morto sempre aparece. Rará. Promovi, Ué. Agora Ela É Supervisora. Dar o Exemplo Né. Isso. Troca as Roupas no Armário Por Tailleur, Escutou?

Promoção me parecia ocasião importante, então no dia seguinte vesti também o Tailleur e segui mamãe pelo transporte público. Foi fácil sentar ao lado dela, ninguém quis pegar o assento próximo da mulher sem cabeça, mesmo quando eu ofereci.

Chegamos e ela bateu o ponto e seguiu para área de estoque, enquanto eu me identificava na portaria. O lugar era grande, com caixas empilhadas por toda a parte, e caminhões encostando em portas de garagem para despejar ainda mais caixas ali dentro. Fazia muitos anos que eu não visitava o lugar, mas reconheci alguns como Suzana, a motorista de empilhadeira que por um tempo aparecia em casa para jogar dominó com mamãe e vender maquiagens Avon. Era uma mulher tão magra que sua calça parecia ter uma perna só. Lembrava também de Diógenes, etiquetador, um senhor de sobrancelhas permanentemente assustadas, que quase encostavam na linha onde começavam os cabelos. Ele sempre dava os melhores presentes no aniversário dela. Os dois me cumprimentaram com um movimento de cabeça, mas não vieram conversar. Já o sr. Evandro me recebeu com grande entusiasmo, e tapas sonoros nas costas. Desde Que Sua Mãe Morreu, A Produtividade Aumentou Quinze Por Cento No Setor. Me levou para um tour pelo grande galpão, e quando passamos pelos descarregadores vi que me olhavam feio. Primeiro pensei que me odiavam pelo que tínhamos feito com mamãe, que nos achavam monstros insensíveis. Segui até a sala do Sr. Evandro, para assinar como responsável a documentação do novo cargo de mamãe, um contrato que eu mesma tinha desenvolvido, adequado às suas condições peculiares de trabalho. Eram maços e maços de papel, tudo em três vias, mais as rubricas. A voz do homem era ainda mais irritante ao passar pelas orelhas do que quando chegava direto ao meu cérebro. É, Agora Dona Karina Tá Mostrando Pra Esses Bundas Moles Como Se Trabalha.  Com Ela Na Supervisão, A Vadiagem Vai Acabar. Pode Anotar Giovana, Tua Mãe Tá Fazendo História Por Aqui. Saí da sala com os dedos doendo, as mãos com manchas de tinta e uma irritação vaga, como uma coceira na mente.

Procurei mamãe e a encontrei lá nos fundos, organizando caixas em prateleiras. O mesmo trabalho de sempre, mas de roupa social. Não quis atrapalhar. Um café seria bom pra me acalmar antes de voltar pro meu próprio escritório, então fui para a copa, um canto do galpão arranjado com mesa, micro-ondas, galão de água e garrafas térmicas, preenchidas com café que os próprios funcionários faziam. Suzana conversava com uma outra funcionária, olhando ao redor, e quando me aproximei para encher o copinho descartável, ela virou o copo dela, engolindo o conteúdo ainda quente e começando a se afastar. Levantei a voz: Suzana, Tudo Bom? Ela diminuiu um pouco o passo, mas não parou para responder Não Posso Ficar Aqui Perdendo Tempo Com Você. Você Devia Saber. A Culpa É Da Puxa-Saco Da Sua Mãe.

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Demorei pra perceber o que estava acontecendo. Mamãe fazia tudo sozinha, não precisava de mim para nada além da pasta nutritiva. Ela era como um barulho familiar pela casa, uma TV que se deixa ligada. Até que eu reparei numa grande mancha na altura do quadril. Colocaram lixo nos bolsos dela. Cascas de fruta, restos de marmita. Ela não parecia se importar, quem ficou triste fui eu. Você Tem Que Ignorar. O Que Elas Querem É Ver Você Irritada. Não Dê Esse Gostinho Pra Ninguém. Coisas que ela dizia antigamente. Então deixei passar. Só que agora eu reparava nela, toda vez que chegava em casa. Um dia chegou com rabiscos nos braços, feitos com canetas esferográficas. Volta Pra Tumba, coisas assim.  Em alguns pontos a caneta tinha furado a pele, as letras pontilhadas de casquinhas de ferida. Outro dia voltou com etiquetas coladas na roupa toda. Sei que ela não sentia nada, não via nada. É como eles dizem, é mais difícil para quem está vivo.

A gota d’água foi quando chegou do trabalho com a roupa do avesso, sem a camisa debaixo do paletó. Que devem ter pensado os estranhos no ônibus, vendo o peito frio estremecer a cada solavanco da condução? A raiva me subiu a cabeça a ponto de acionar o chip cerebral e ligar pro Sr. Evandro sem ter pensado no que ia dizer. Você Não Está Vendo O Que Estão Fazendo Com Ela? Foi o melhor que consegui improvisar. Ele não pareceu muito surpreso nem abalado. As Pessoas Não Gostam Muito Dos Seus Chefes. Faz Parte Do Jogo, Giovana. Ela Tem Que Se Impor. Não Adianta Ficar Fingindo Que É Gente Como A Gente Lá No Estoque.

Era isso. Ele não ia fazer nem nada. Grande surpresa, como se desse pra contar com esse homem pra alguma coisa. Comprei um daqueles broches com nano câmera e microfone, conectado diretamente ao meu chip cerebral. Preguei diretamente na lapela antes dela sair de casa, pedi uma folga no meu trabalho e fui à desforra. Primeiro só observei. Quem colava coisas, quem colocava o pé para ela tropeçar, quem xingava baixinho. Perto da hora do almoço, entrei em ação. Distribuí trabalho extra para uns, coloquei outros para reorganizar toda uma fileira do estoque em vez de comer, e anunciei uma ação por Assédio Sexual contra Diógenes, ao ver enojada que era ele o culpado pelas roupas que chegavam ao contrário. Ela voltou pra casa sem um arranhão e quase podia ouvir ao meu lado os comentários dela sobre a novela. No dia seguinte voltei ao meu trabalho, parando a cada meia hora para acessar a câmera, observar e distribuir ordens. Ninguém mais questionava, maltratava, resmungava entre dentes. Mamãe mandava pra valer naquele lugar agora. Me dava alegria só de ficar no chip assistindo os olhares de respeito e de medo. Juntas, nós trabalhávamos muito bem. Estava supervisionando a reorganização do setor C pela câmera quando minha chefe me fez voltar ao meu próprio trabalho. Me passou um comprido sermão cuja ponta terminava em um afiado Está Demitida. Fez com firmeza, seriedade e elegância. Prestei atenção em cada palavra, era um estilo que cairia bem em mamãe.

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Frederico, Lucas e Silmara vieram almoçar domingo para celebrar a nova promoção de Mamãe. Agora ela era Gerente Regional dos estoques, acima até do Sr. Evandro. Humilde, continua trabalhando diariamente no mesmo estoque, na mesma filial, guardando as caixas cada uma em seu lugar, enquanto eu passo ordens e respondo às perguntas dos gerentes das outras filiais. Ela serve o macarrão com molho rosé e os pratos vão sendo estendidos debaixo da concha em perfeita sincronia. Bebemos uma Coca-Cola 5L, colocamos o futebol na televisão enquanto mamãe lava a louça. Silmara trouxe também os filhos, que recebendo ordens, beijaram a avó, ficando confusos por alguns segundos sobre que parte deveriam beijar, se a avó não possuía bochechas. A mais velha se decidiu pelo ombro e os outros dois seguiram o exemplo. Os rapazes adormeceram no sofá e Silmara foi fazer café. Todos abraçaram mamãe antes de ir. Acho que voltarão na semana que vem. Domingo é dia de família.

Com a casa vazia, começo a pensar na segunda-feira. Apesar de ajudar mamãe com as coisas do trabalho, ainda me sobrava muito tempo em casa, e, em parceria com uma das Inteligências Artificiais Advocatícias iniciantes do meu escritório anterior, abri um escritório especializado em direitos trabalhistas para Desmortos. Amanhã teria reunião com a família de uma desmorta que morreu outra vez em acidente de trabalho e sei que temos chance de conseguir uma bolada. Procuro na rede precedentes para casos de vivos que possam alimentar a I.A.A. com novos argumentos, enquanto mamãe assiste o Fantástico. É bom que descanse, esse ano vendeu as férias de novo. E quem sabe quanto tempo mais ela tem antes de finalmente se aposentar? Nesse dia, quem sabe – é só uma ideia – eu assuma o estoque em seu lugar? Os Filhos São Continuação Da Gente. Isso é coisa que ela dizia.

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Nathalie Lourenço é redatora publicitária e autora do livro Morri por Educação (Ed. Oito e Meio). Publicou contos em revistas literárias como Parênteses, VacaTussa, Blecaute, Philos e outras. Nasceu em 1984, ano que tem uma carreira paralela como livro distópico, num dia próximo o suficiente do Natal para seu nome fazer sentido. Tem 5 graus de miopia mas tira os óculos para dormir. Seus pesadelos estão sempre fora de foco.