PRESENTES E VELAS – MARCOS RAMOS

A madeira acima não tem forma alguma, nem o forro. Não vejo nada. Nem a silhueta que, ontem, tão perfeitamente, as folhas desenharam acima de mim. As poucas luzes nada me informam. Sei apenas que não estou só. Em volta de mim há desejos. E muitos presentes. Muitos. Mas nenhum deles é meu. Divago no ontem.

Saí decidido. Já é quase seu dia! Comemore. Saí. Mas sozinho, o que é raro. Lembro-me que quando saía, nunca estava só. Sempre, algum pensamento ou espectro me acompanhava. Neste dia, porém, estava tão vazio de pensamentos quanto os meus bolsos de cobres. Desacompanhado de todo, fui para a rua. Leva, pode fazer frio. Deixou-me ir.

A rua não garantia proteção alguma. Nunca garantiu. Era, na verdade, a manifestação física dos temores da minha mãe. Não havia motivos para preocupação, havia? Perdido eu já me encontrava e assim pretendia continuar. Lá fora você ainda é filho. Protegeu-me de longe. Tentou, pelo menos.

Andei. Parecia já estar longe de casa. Enganei-me. E sabia o porquê. Sempre e devagar. Não corre, menino, vai cair. Quando era pequeno, eu tinha as pernas tortas. Corria de um jeito engraçado, me disseram. Pernas de alicate. Uma perna cruzava a outra. Quem me via, esperava minha queda, mordendo os lábios de apreensão ou de quase riso. Nunca caí. Nunca mais quis correr, porém. A pressa passou a causar náusea. Andei devagar, mas andei.

Devagar e sempre. Os riscos que corro na rua não são só meus.

Talvez por não saber onde ia, o caminho e o tempo se alongavam. Olhei para o lado e lá estava ela. Dei-lhe três nomes. Não atendeu a nenhum. Porém não havia necessidade de chamá-la. Acompanhou-me sem ambição e, assim como eu, desapressada. Talvez quisesse comida, eu não tinha. Mas deitou ao meu lado naquele banco de madeira. Olhei para cima e ela também: folhas desenhistas. Se viu o mesmo que eu, não sei. Fiel como um cão de jangada, não me deixou. Fiel. Ouviu-me a noite toda – ou o que pareceu ser uma noite – protegeu-me de perto. Divaguei no presente.

Eu só tinha saído, porque precisava de outro presente. Precisava e queria. Novinho em folha, imaculado. Pronto para usar. Em casa já não tinha. Já é quase o meu dia e não ganhei nenhum. Mas não corri atrás, só procurei: um que me satisfizesse.

Lembrei   que   eu   costumava   esperar   muito   dos   presentes   que    recebia. Desembrulhava, olhava. Vivia-os. Depois jogava para o canto, sugados e esquecidos.

Assim, eles deixavam de ser. O prazer de estragar um presente me acompanha desde sempre. Acabou de ganhar e já quebrou? Nada mudou, mãe – a não ser as pernas – quando não estrago, enjoo. E se enjoo… Presente jogado fora.

Criança torta, adulto turvo. Divago no ontem.

Já havia saído de casa há tempos e nem percebera. Não corre, menino.

Olhei para cima, fielmente acompanhado: as folhas desenhavam minha imagem e semelhança. Deitado na madeira, cabeça para cima e mãos cruzadas no peito, eu me vi. Como um espelho de fundo estrelado, lá estava eu pairando sobre mim.

Fiel latiu e eu olhei para o relógio: passava da meia-noite. Já era meu dia. Será que dormi? Começava a data que eu dividia com todos eles. Felicitações mórbidas. Gerei vida enquanto lembravam os mortos. Era uma espécie de consolo vindo da minha mãe. Protegia-me com palavras.

Eu não queria ver gente chorando no meu dia. Celebrem os vivos, pomba! Não queria dividir o holofote com quem nem aqui mais estava. Junto-me a eles? Hoje?

Acima, a silhueta que eu via, cada vez mais nítida, olhava-me de volta. Não via mais o céu e as folhas: eu via o chão, o banco e Fiel dormindo… Sobre mim, como aquele espírito que, no início, pairava sobre as águas.

Acho que dormi. Fiel latiu. Teve que fugir.

Corre, menino! Representação física dos temores de minha mãe: a rua roubou meu presente. Tudo tão rápido. Precisei correr e não corri.

Parece que não houve caminho. Sensação estranha de quem chega sem ter andado. Do banco de madeira até porta de casa, passaram-se segundos apenas. Sei que, de alguma forma, cheguei. Só não lembro como. Levaram-me? Tenho certeza que ela não dormiu. Divago no hoje.

Mãos cruzadas sobre peito. A posição parece a mesma de outrora. Olhos para cima. Ainda é meu dia? Não sei. Só sei que estou em casa. A companhia aumenta aos poucos. Muitos ao redor. A gente nunca sabe o que fazer quando se está no centro. Sensação claustrofóbica de estar debaixo de holofotes. Parece que esperam que eu faça algo, que eu diga algo. Não sei o que faço aqui. Devo cantar junto? Não digo nada: não quero e não consigo.

Muitos presentes. Nenhum deles é meu. Afasta de mim, não te conheço, não te vivi. Não os quero. Muitos votos e desejos a minha volta. Não os vejo, mas sinto. A luz está apagada, meu rosto iluminado. Acima de mim não há nada. Madeira e forro disformes.

Muitos presentes. Nenhum que me satisfaça. A rua roubou o que eu procurava. Nem deu tempo de vivê-lo, de estragá-lo. Arrancou o presente de mim. Por que eu não corri, mãe? Na rua, você ainda é filho. Mórbidos votos, concluo que ainda é meu dia. Não sei o que fazem, se cantam ou se choram. Confundo sopro com respiração. Lágrima com riso. Procuro explicação, não sei se encontro.

Já não dividia a data com mais ninguém. Eu sou o motivo dessa reunião. Todos estão aqui – ou quase todos, não saberia dizer ao certo. As velas indicam os anos? No centro, olham para mim. Eu, mais uma vez, de olhos fechados, desejo um desejo em silêncio: Deixe-me ir. Hoje é meu dia.

Talvez domingo, a pedra role e eu saia.

Sinto as velas se apagarem.

Colho.

 

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MARCOS RAMOS é cria da periferia de Diadema – SP, formado em Estudos Lusófonos pela Universidade de Coimbra, Licenciado em Letras -Português/Francês pela UNESP – Assis. Atualmente é mestrando em Literatura e Vida Social também pela UNESP e se encontra quebrado financeiramente, por conta de um estágio de pesquisa não remunerado que decidiu fazer às cegas na Sorbonne, além de correr contra o tempo para escrever e entregar uma dissertação.