NAS HORAS MAIS FRIAS: EXPECTO PATRONUM! SOBRE ESCAPISMO E MUNDOS DE FANTASIA

COLUNA LORCA

POR CHARLES BERNDT

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‘’A felicidade pode ser encontrada inclusive nos momentos mais escuros; só é preciso se lembrar de acender a luz”1

‘’Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diáfano da fantasia’’2

 ‘’As pessoas não escolhem os sonhos que têm, São, pois, os sonhos que escolhem as pessoas, Nunca o ouvi dizer a ninguém, mas assim deve ser’’3

 

Às vezes precisamos respirar, afastar-nos um pouco do mundo, das cidades, do caos da vida urbana, dos pesadelos do dia a dia, dos medos, das frustrações, das desilusões, do que nos sufoca – silenciar-se, ficar quieto, olhar o mar, as estrelas, ouvir o vento, apanhar uma flor, observar as garças, passear nas dunas da praia e conversar sobre literatura e mundos fantástico com o seu namorado. Enfim, amigos e amigas leitores, talvez seja verdade que todos nós, humanos neste mundo onde felizmente a humanidade não está só e nem é completamente soberana, precisamos sonhar, imaginar outros mundos e realidades, pensar que há lugares mais felizes, mais leves, mais doces e mágicos…

Bom, desde a minha infância sou particularmente atraído por essas histórias de fantasia e escapismo. Não sei explicar quando surgiu esse interesse, mas ele sempre esteve latente dentro de mim, desde a mais tenra idade, quando ainda não sabia ler e inventava histórias apenas olhando as figuras dos livros e gibis, como conta minha mãe. Talvez tenha sido por isso que me tornei professor de língua portuguesa e literatura. O amor pelos livros e pelas viagens que eles nos proporcionam foi fundamental na formação do sujeito que sou hoje.

Sendo assim, gostaria de comentar e relembrar algumas dessas histórias que marcaram minha infância e adolescência e que continuam a povoar a minha imaginação. Lembro, com carinho, do momento em que descobri os livros de J.K. Rowling, em que me vi transportado para o mundo do menino que sobreviveu, que dormia no armário sob a escada e que descobriu, aos onze anos, que era um bruxo e que iria estudar numa escola de magia e bruxaria. Apesar de todo sofrimento, do abandono e da solidão que sentia na casa dos tios que o criavam, devido à morte dos pais, Harry Potter sempre foi um menino sonhador. Recentemente assisti a uma entrevista em que a escritora J.K. Rowling comenta sobre a possibilidade de que, na verdade, toda a história envolvendo Harry Potter – a sua ida para Hogwarts e todas as suas aventuras – seria fruto da sua imaginação, algo que ele próprio criou em sua mente para suportar a vida difícil com os Dursley. Verdade ou não, essa teoria me fascinou e torna, a meu ver, a obra ainda mais bela e profunda. Harry Potter não é só uma história de fantasia sobre bruxos, elfos, duendes, dragões e hipogrifos, é uma fábula sobre amor, amizade e sobre a necessidade de sonhar e ter esperança.

Por volta dos meus doze anos, para além de Harry Potter, eu comecei a ler Tolkien, O senhor dos anéis. Um novo mundo se abria e eu me vi encantado pela riqueza e pelos detalhes da Terra Média. As descrições de Tolkien são dignas de um escritor romântico e eu costumo dizer que me lembram as magníficas descrições de José de Alencar, autor de Iracema O guarani, obras que eu leria somente aos catorze anos, durante as aulas de educação física, na biblioteca da escola. Enfim, a escrita cuidadosa de Tolkien e as suas histórias de amor e guerra envolvendo homens, elfos, hobbits, anões, magos e dragões ocuparam muitas das minhas noites infanto-juvenis. Em pouco tempo, eu havia lido a trilogia de O Senhor dos AnéisO Hobbit e O Silmarillion.

Por fim, para completar o tripé das obras de fantasia que me guiaram durante a adolescência, eu me deparei, numa tarde quente, com um livro em uma livraria: As crônicas de Nárnia. Lembro-me que não possuía dinheiro para comprá-lo e que precisei economizar durante algum tempo para poder adquiri-lo. E então fui levado numa outra viagem e por um novo mundo, que se abria dentro de um guarda-roupa de madeira. As sete fábulas da obra de C.S. Lewis, publicadas num volume único, não me saíram da cabeça durante algum tempo. Devo ter relido este livro pelo menos umas quatro vezes. Quando dormia, sonhava que andava pela floresta coberta de neve e que Aslam, o grande Leão, verdadeira alegoria de Jesus Cristo na obra de C.S. Lewis, levava-me para passear em suas costas e ver a vista do belo castelo de Cair Paravel.

Enfim, pensar nessas coisas, nessas histórias e nesses mundos de fantasia, até hoje constitui não só um hobbie para mim, mas uma espécie de terapia. Foi a partir dessas experiências que eu me tornei um leitor e é a partir dessas leituras que crio os meus contos e histórias também. Como estudante de Letras, e depois como professor de Literatura, pude ampliar minhas leituras e hoje tenho a felicidade de ter ao meu lado companheiros de caminhada como Machado de Assis, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Clarice Lispector, Drummond de Andrade, José Saramago e tantos outros. Sempre lembro, também, do poema de Manuel Bandeira: Vou-me embora para Pasárgada. É isso. Eu acho que sou apaixonado por Pasárgada, pela possibilidade de sonhar e viver em outros mundos, alcançáveis somente por meio da arte: seja a literatura, a pintura, o cinema…

Deste último, gostaria de mencionar as personagens dos filmes de Guillermo Del Toro, um diretor que por excelência costuma tratar sobre isso em muitos de seus filmes, sobre a necessidade humana de sonhar, sobretudo em situações e contextos difíceis. É o que vemos no filme El labirinto del fauno, em que a menina Ofélia, em meio a guerra civil espanhola, cria para si um mundo onde a dor e o sofrimento, se existem, são um pouco menores ou mais suportáveis. E não há como não citar o filme The Shape of Water (A forma da água), ganhador do Oscar de melhor filme, neste ano. Elisa, a moça sem voz, solitária e sonhadora, encontra a felicidade e o amor quando conhece uma criatura mágica e estranha, um ser, meio peixe e meio humano, vindo dos rios da América do Sul, que fora capturado pelo exército estadunidense, durante a guerra fria. O encontro entre o humano e o divino, entre o humano e o transcendente ou misterioso, é um dos temas mais antigos de nosso imaginário. Como não lembrar do rapto de Ganímedes? Um jovem e belo pastor de ovelhas que faz o supremo deus do Olimpo, Zeus, cair de amores por si, a ponto de transformar-se em uma águia e levar o rapaz para viver consigo, na morada dos deuses.

Assim, enquanto houver mundo, enquanto vivermos neste pequeno mundo azul, enquanto houver vida e mesmo quando a esperança estiver pequena, penso e quero acreditar que encontraremos uma maneira de sonhar e, talvez, sobreviver. Convido-te, então, a entrar comigo no guarda-roupa, a abrir a janela do teu espírito, a rabiscar versos mesmo quando a luz da candeia parecer opaca e singela. Um certo carpinteiro, bastante sonhador, disse certa vez que nós somos a luz do mundo. Não o desapontemos! Fiat lux! Ou, nas horas mais frias: Expecto patronum!

 

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Fala da personagem Albus Dumbledore no filme Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.
Subtítulo da obra A Relíquia, de Eça de Queiroz.
Frase do romance ‘’O Evangelho Segundo Jesus Cristo’’, de Jesus Saramago.