UNIDOS PELO LIVRO DA CAPA ROSA

ESCRITORXS DE QUINTA

Por Liliane Prata

*

Quando aquele livro de capa rosa chegou às minhas mãos ali, no décimo sétimo andar de um prédio na Marginal Pinheiros, onde ficava a redação da revista Claudia (quando eu ainda trabalhava lá como editora de comportamento) (e quando a editora Abril tinha muito mais revistas do que tem hoje e ficava na Marginal Pinheiros), pensei: “Manual da Faxineira, Lucia Berlin… Contos escolhidos… Nunca ouvi falar”. Levei o livro comigo no almoço. Li o primeiro conto, pensei: ah, mais ou menos. Li o segundo, pensei: mais ou menos. Li o terceiro e… Como escrever isso de um jeito não muito afetado? Senti que um portal se abria para outra dimensão, não consegui largar o livro e voltei bem atrasada para a minha mesa. Tá bom, talvez soe um pouco afetado. Em minha defesa, é verdade. Recomendei aquele livro para todo mundo com quem eu convivia por mais de cinco minutos por dia. Pouco depois de terminar a leitura e começar a releitura dos meus contos favoritos, conheci a Anita Deak.

Já conhecia a Anita virtualmente, pelos seus stories no Instagram. Às vezes, eu pensava: “Que mina inteligente”. Outras vezes, pensava: “Que mina louca”. Inbox aqui, inbox ali, ela me chamou para uma festinha na casa dela. Fui. Como convivemos por mais de cinco minutos naquela noite, falei sobre a Lucia Berlin. Continuamos batendo papo sobre contos. Não me lembro de quem falou primeiro sobre montarmos um grupo de leitura para ler tudo da Lucia Berlin. Dali a algumas semanas, decidiríamos incluir outros autores – sempre textos curtos, que pudessem ser lidos do começo ao fim na mesma noite, para serem discutidos na sequência. Mas, naquela festa, o pretexto era ler Lucia Berlin. A outra concordou na mesma hora. E a outra ficou feliz. De repente, as duas estavam muito felizes e animadas. No outro dia, Anita, que, além de inteligente e meio louca, é muito pró-ativa, chamou meia dúzia de escritores para participar do grupo. Também chamei alguns. Botamos a foto da Lucia Berlin no grupo do WhatsApp. Marcamos, cheias de expectativa, a primeira leitura para uma quinta-feira.

Compramos vinho. Petiscos. Naquela noite, compareceram duas pessoas: eu e a Anita. Quer dizer, sejamos justos: eu, Anita e Lucia Berlin. O livro impresso só fura compromissos quando a gente se esquece de levá-lo na bolsa.

– Essa capa rosa, hein, sei não… – Anita disse, a gente abrindo o vinho.
– Eu sei, a capa é pop, não faz jus à literatura da Berlin, mas o livro é mágico, você vai ver.

Não que eu e a Anita tenhamos preconceito com livros pop. Eu leio de tudo; ela, apesar de preferir os clássicos, defende até a morte que livros pops existam. Tanto eu como ela, aliás, já lançamos livros pops – dois juvenis meus ficaram na lista dos mais vendidos por meses, o dela foi finalista no prêmio Sesc (pensando aqui, quem me dera lançar outro livro pop que fosse parar na lista agora.) Mas a nossa ideia para o grupo de leitura era ler literatura contemporânea, até porque queríamos discutir os textos, analisá-los, esmiuçá-los, dizer coisas como “Veja como o autor economiza nos advérbios”. Era essa a nossa ideia. Queríamos aprender, queríamos ensinar, queríamos trocar, ah, queríamos tudo.

– Vamos começar lendo esse conto aqui, Mamãe? – eu sugeri, pegando o livro da capa rosa, e ciente de que Anita estava pesquisando sobre maternidade para o seu livro. Tinha visto nos Stories.

Uma lia duas ou três páginas em voz alta e dava o livro para a outra seguir a leitura. Goles de vinho. Minha gata passando pela mesa.

“Ela odiava a palavra amor. Falava essa palavra do mesmo jeito que as pessoas dizem
puta. (…) “O amor deixa você infeliz”, nossa mãe dizia. Você encharca o travesseiro chorando até dormir, embaça cabines telefônicas com as suas lágrimas, os seus soluços fazem o cachorro uivar, você fuma dois cigarros ao mesmo tempo”.

– Essa mulher é foda – lembro de Anita ter falado, no fim da noite, depois do segundo conto lido. – Essa mulher é foda!

Passamos algum tempo falando sobre como, além de forma, o texto de Lucia Berlin tem vida. De como ela trabalha as imagens com precisão, como não se prende a fórmulas rígidas e consegue efeitos únicos, como é capaz de, com simplicidade e frases enxutas, traduzir a atmosfera de uma cena com profundidade e criar uma empatia pelos seus personagens e situações das mais improváveis. Lucia Berlin é capaz de fazer o leitor chorar em um trecho sobre jardinagem e rir em um diálogo sobre doenças terminais. Como ela conseguia? A gente tentava explicar, pegava o texto, lia mais um pouco, analisava mais um pouco, se rendia à força das linhas mais um pouco.

Na semana seguinte, veio a Graziela Brum, desconfiadíssima, louquíssima, vivíssima, falando de como Lucia Berlin escrevia mais ou menos e contando sobre o projeto que ela toca, as Senhoras Obscenas. “Espero que este grupo leia Hilda Hilst, essa sim sabia escrever”, disse. Veio o Gael. Lindo, criativo, ansioso para sair o resultado do prêmio Barco a Vapor, no qual seu infantil era finalista. Veio Marcos Vinícius, que fumava sem parar e encantava a todos com seu talento para a crítica literária e para falar sobre o processo de escrita dos seus romances históricos. Veio Camilo Gomide, discreto, que primeiro só ouviu e depois ensinou praticamente tudo o que o grupo sabe sobre literatura norueguesa. Veio o Mauro Paz, roteirista, que já foi finalista do Prêmio Sesc e do Prêmio São Paulo, já coordenou campanhas enormes como diretor de criação, acha uma bobagem tudo isso e tem certeza de que o ser humano é inviável. Natália Zuccala, que se apresentou como “escritora, professora e vice-versa”, estranhou que a gente fala demais no grupo de WhatsApp, mas logo começou a falar também.

Não demorou muito tempo, Grazi começou a gostar de Lucia Berlin (“Embora nem se compare a Hilda Hilst em termos de linguagem”). Natália mostrou que faz a melhor camponata do mundo e que fica muito tensa quando acompanha o resultado das eleições. Mauro deixou escapar que às vezes tem esperança no ser humano. Eu confessei que acredito em extraterrestres e sonho em ir para a quarta dimensão. Anita mostrou que é viciada em editar textos até ficarem impecáveis, e não poupa nem contos de Ernest Hemingway. Foram chegando outros participantes. Alguns vão só de vez em quando. Outros são convidados, vão quando podem, acolhem e são acolhidos, e fazem toda a diferença. Ficamos íntimos rapidamente. Pegamos outros autores para ler: já lemos Guimarães Rosa, Clarice Lispector, e também Natalia Borges Polesso, Caroline Rodrigues, Rodrigo de Almeida, e também Murakami, e também Cortázar e tantos outros, além de produções nossas – “esse é um trecho do livro que estou escrevendo”, “este é um conto que amei quando escrevi e que agora estou odiando”, “esse nem eu sei o que é, me ajudem a descobrir”. Ouvimos cada leitura atentamente até o fim. Conversamos. Damos sugestões. Trocamos opiniões e referências. Bebemos vinho. Rimos. Falamos sério. Bebemos mais vinho. Desfalamos o que tínhamos falado sério.

“Não lemos toda quinta? O nome do nosso grupo pode ser Escritores de Quinta”, Gael sugeriu, no elevador. Eu não estava. Devia estar indo dormir feliz, depois de mais um encontro. Feliz, e cheia de ideias, e cada vez mais apaixonada pela literatura, como todos nós ficamos a cada encontro. Somos estes: apaixonados por literatura, apaixonados por escrever, pela amizade, pelas possibilidades da existência e de um pequeno grupo de leitura. Só isso, e tudo isso… E, a partir desta semana, estaremos todas as quintas por aqui falando de literatura com vocês também.

_______________________
Liliane Prata é escritora e jornalista. Entre seus livros, estão Sem Rumo (Planeta) e Eu Odeio te Amar (Gutenberg). Liliane mantém um canal no YouTube, Canal da Lili, onde fala sobre comportamento.