CINCO POEMAS DE DELMIRA AGUSTINI

CAMPO MOVEDIÇO

Por Mariana Basílio

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Amanheci em 2019 com o peso das tartarugas nos olhos e a confiança dos imaginários corcovados soterrados nos dedos. Assim, dou início ao meu trabalho de tradução nessa nova (e fresquíssima, aventurosa) coluna – que é mesmo vértebra poética – na potente revista Vício Velho. Primeiramente, agradeço ao empenho e carinho de Carolina Hubert.

O nome da coluna, Campo Movediço, foi escolhido de uma mescla entre um verso de Cecília Meireles e outro verso autoral (não sei se já vivo). Por aqui, veremos circular – e apalpar na areia dos nossos olhos – alguns dos nomes mais emblemáticos da poesia latino-americana, estadunidense, africana e europeia: sendo, principalmente, mulheres.

Espero que possam apreciar a nossa jornada.

Que seja propenso e indelével, Undivé!

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Delmira Agustini (Montevidéu-Uruguai, 1886 – 1914) é considerada uma das poetas mais proeminentes e precursoras na poesia modernista uruguaia. Se especializou na sexualidade feminina em uma época em que o mundo era ainda mais patriarcal.

Seus temas tratam de fantasia e matérias exóticas e eróticas. Eros, deus do amor, é uma das figuras mais presentes em sua poética, aparecendo em diferentes momentos da obra literária da autora. Los cálices vacíos (1913), sua terceira obra, foi dedicada a Eros e significou sua entrada no movimento de vanguarda modernista.

No dia 14 de agosto de 1913, Delmira se casou com Enrique Job Reyes, tendo solicitado a separação um mês e meio depois, divorciando-se oficialmente em 5 de junho de 1914. Em julho do mesmo ano, Agustini foi assassinada pelo seu ex-marido, que depois cometeu suicídio.

Publicou em poesia El Libro Blanco (1907), Cantos de la Mañana (1910), Los Cálices Vacíos (1913) e Correspondencia íntima (1969, póstuma).

 

O INEFÁVEL

Eu morro estranhamente. Não me mata a Vida,
Não me mata a Morte, não me mata o Amor;
Morro de um pensamento mudo como uma ferida,
Vocês não sentiram nunca a estranha dor

De um pensamento imenso que se enraíza na vida,
Devorando alma e carne, e não consegue dar flor?
Nunca levaram dentro uma estrela dormida
Que os abrasava inteiros sem dar nenhum fulgor?

Cume dos Martírios! … Levar eternamente,
Desoladora e árida, a trágica semente
Cravada nas entranhas como um dente feroz!

Mas arrancá-la um dia numa flor que abriria
Milagrosa, inviolável… Ah!, maior não seria
Ter entre as mãos a cabeça de Deus!

 

LO INEFABLE

Yo muero extrañamente… No me mata la Vida,
No me mata la Muerte, no me mata el Amor;
Muero de un pensamiento mudo como una herida,
¿No habéis sentido nunca el extraño dolor

De un pensamiento inmenso que se arraiga en la vida,
Devorando alma y carne, y no alcanza a dar flor?
¿Nunca llevasteis dentro una estrella dormida
Que os abrasaba enteros y no daba un fulgor?

Cumbre de los Martirios! … Llevar eternamente,
Desgarradora y árida, la trágica simiente
Clavada en las entrãnas como un diente feroz!

Pero arrancarla un día en una flor que abriera
Milagrosa, inviolable!… Ah, más grande no fuera
Tener entre las manos la cabeza de Dios!

sed

A SEDE

Tenho sede, sede ardente! Disse à maga, e ela
Me ofereceu seus néctares. Isso não, me enfada!
Então, uma fruta rara, com seus dedos de maga,
Espremeu numa taça clara como uma estrela;
E um brilho de rubis se fez na taça bela.
Eu provei. É doce, doce. Há dias que me embriaga
Tanto mel, mas hoje me repugna, me estraga!
Vi passar pelos olhos da fada uma centelha.
E por um verde vale perfumado e brilhante,
Levou-me até uma clara corrente de diamante.
— Bebe! disse. Eu ardia, meu peito era uma frágua.
Bebi, bebi, bebi a linfa cristalina…
Ó frescor! Ó pureza! Ó sensação divina!
— Obrigada, maga, e bendita a limpidez da água!


LA SED

Tengo sed, sed ardiente! dije a la maga, y ella
Me ofreció de sus néctares. Eso no, me empalaga!
Luego, una rara fruta, con sus dedos de maga,
Exprimió en una copa clara como una estrella;
Y un brillo de rubíes hubo en la copa bella.
Yo probé. Es dulce, dulce. Hay días que me halaga
Tanta miel, pero hoy me repugna, me estraga!
Vi pasar por los ojos del hada una centella.
Y por un verde valle perfumado y brillante,
Llevóme hasta una clara corriente de diamante.
—Bebe! dijo. Yo ardía, mi pecho era una fragua.
Bebí, bebí, bebí la linfa cristalina…
?Oh frescura! ?Oh pureza! Oh sensación divina!
— Gracias, maga, y bendita la limpidez del agua!


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O INTRUSO

Amor, a noite estava trágica e soluçante
Quando sua chave de ouro cantou na minha fechadura;
Logo, a porta aberta sobre a sombra congelante,
Sua forma foi uma mancha de luz e de brancura.

Tudo aqui iluminaram seus olhos de diamante;
Beberam em minha taça seus lábios de frescura,
E descansou em minha almofada sua cabeça fragrante;
Me encantou seu atrevimento e adorei sua loucura.

E hoje rio se você ri e canto se você canta;
E se você dorme, durmo como um cão às suas plantas!
Hoje levo até em minha sombra seu cheiro de primavera.

E tremo se sua mão toca a fechadura,
E bendigo a noite soluçante e escura
Que floresceu em minha vida sua boca madrugadora!


EL INTRUSO

Amor, la noche estaba trágica y sollozante
Cuando tu llave de oro cantó en mi cerradura;
Luego, la puerta abierta sobre la sombra helante,
Tu forma fue una mancha de luz y de blancura.

Todo aquí lo alumbraron tus ojos de diamante;
Bebieron en mi copa tus labios de frescura,
Y descansó en mi almohada tu cabeza fragante;
Me encantó tu descaro y adoré tu locura.

Y hoy río si tú ríes y canto si tú cantas;
Y si tú duermes duermo como un perro a tus plantas!
Hoy llevo hasta en mi sombra tu olor de primavera.

Y tiemblo si tu mano toca la cerradura,
Y bendigo la noche sollozante y oscura
Que floreció en mi vida tu boca tempranera!

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INEXTINGUÍVEL…

Ó você que dorme tão profundo que não desperta!
Milagrosas de vivas, milagrosas de mortas,
E por mortas e vivas eternamente abertas,

Alguma noite em dor eu encontro suas pupilas

Sob um trapo de sombra ou uma renda de lua.
Bebo nelas a calma como em uma laguna.
Por fundos, por caladas, por boas, por tranquilas

Um leito ou uma tumba parece cada uma.

 

INEXTINGUIBLE…

O tú que duermes tan hondo que no despiertas!
Milagrosas de vivas, milagrosas de muertas,
Y por muertas y vivas eternamente abiertas,

Alguna noche en duelo yo encuentro tus pupilas

Bajo un trapo de sombra o una blonda de luna.
Bebo en ellas la calma como en una laguna.
Por hondas, por calladas, por buenas, por tranquilas

Un lecho o una tumba parece cada una.


*

A ESTÁTUA

Olha-a, assim, por sobre os ramos escuros
Recortando a silhueta soberana…
Não parece o rebento prematuro
Da grande raça que será amanhã?

Assim, qual raça inabalável, sã,
Talhada a golpes no mármore duro,
Que das vastas campanhas do futuro
Desalojasse a família humana!

Veja-a assim – de joelhos! – em augusta
Calma impondo a sua nudez que assusta!…
Deus!… Move esse corpo, dá-lhe uma alma!

Vê a grandeza que em sua forma dorme…
Veja-o lá em cima, miserável, inerme,
Mais pobre do que um verme, sempre em calma!


LA ESTATUA

Miradla, así, sobre el follaje oscuro
Recortar la silueta soberana…
¿No parece el retoño prematuro
De una gran raza que será mañana?

Así una raza inconmovible, sana,
Tallada a golpes sobre mármol duro,
De las vastas campañas del futuro
Desalojara a la familia humana!

Miradla así – de hinojos ! – en augusta
Calma imponer la desnudez que asusta!…–
Dios!… Moved ese cuerpo, dadle una alma!

Ved la grandeza que en su forma duerme…
¡Vedlo allá arriba, miserable, inerme,
Más pobre que un gusano, siempre en calma!

 

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Mariana Basílio (Bauru-São Paulo, 1989). Escritora, poeta, ensaísta e tradutora. Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora de Nepente (São Paulo: Giostri Editora, 2015), Sombras & Luzes (Brasil, Editora Penalux, 2016; Portugal, prelo 2019) e Tríptico Vital (São Paulo: Editora Patuá, 2018. Prêmio ProAC; finalista Residência Literária Sesc 2018). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais. Mantém o site Mariana Basílio