CONVERSAS COM SARAMAGO – CHARLES BERNDT

|LORCA
Por 
Charles Berndt 

De pedras e estorninhos conversaram, agora falam de decisões tomadas. Estão no quintal por trás da casa, José Anaíço sentado no poial da porta, Joaquim Sassa numa cadeira por ser a visita, e estando Jose Anaíço de costas para a cozinha, donde a luz vem, continuamos sem saber que feições são as suas, parece este homem que se esconde, e não e tal, quantas vezes aconteceu mostrarmo-nos como quem somos, e não valeu a pena, não estava lá ninguém para ver. (…) – José Saramago em A Jangada de Pedra.

Há alguns meses, quando publiquei aqui um texto sobre Mario Cesariny, disse que vez ou outra escreveria, nesta coluna, textos sobre os escritores, artistas e pensadores que, de alguma maneira, me tocam e fazem parte de minha vida. Na altura, decidi que esses textos fariam parte de uma série intitulada “Vozes que me tocam”. Pois bem. Gostaria de falar de mais uma dessas vozes. Trata-se de José Saramago, escritor português, autor de romances emblemáticos como Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis e Ensaio Sobre a Cegueira, o único, até o momento, dentro do universo da literatura de língua portuguesa, a ser galardoado com o Prêmio Nobel de Literatura.

Conheci Saramago em 2009, quando ingressei no curso de Letras. Na altura, eu era apenas um jovem recém-saído do ensino médio e meu horizonte de leitura ainda era bastante pequeno. Saramago apareceu, assim, nas aulas de literatura portuguesa. Naquele ano, ele lançava seu último livro publicado em vida, Caim. Confesso que a princípio não percebi o tamanho deste ser humano e a importância de sua literatura, mais do que isso, não me dei conta do quão revolucionário e transgressor era este homem que nos presenteou com uma vasta obra literária, revolucionando o cenário romanesco de Portugal. Seria preciso que se passassem mais alguns meses, para que finalmente eu me encontrasse com Saramago, isto é, para que eu pudesse debruçar-me com tempo sobre sua literatura, algo que só aconteceu quando recebi a triste notícia de que ele nos deixava, em junho de 2010. Na universidade, houve uma série de palestras e seminários sobre os romances de Saramago, a fim de reverenciar este polêmico e apaixonante escritor e nos lembrar de que ele continuaria vivo, através de seus textos, de sua obra. De fato, essa sempre foi a visão de Saramago, a crença de que dentro de cada livro há uma pessoa, o autor.

Defensor da ideia de que “a obra é o romancista”, conforme afirmou em diversas entrevistas[1], e de que cada livro leva consigo seu autor[2], Saramago construiu uma literatura permeada por questões sociais e humanitárias, em que ouvimos, claramente, a sua voz confundida e entranhada tanto na voz do seu narrador neobarroco, veemente e mordaz quanto na voz de muitas de suas personagens. Reconhecemos, facilmente, a voz rouca, teimosa e revolucionária de Saramago quando, em Levantado do Chão, por exemplo, diz João Mau-Tempo: ‘’Ficará a seara no pé, que nós não vamos por menos’’ (SARAMAGO, 2013, p. 150). O episódio em questão trata-se de uma das primeiras greves realizada pelos cavadores de Monte Lavre que trabalham nos latifúndios alentejanos. Assim, publicado em 1980, Levantado do Chão é o romance através do qual Saramago inaugura seu modo próprio e peculiar de escrita, contando-nos a história dos Mau-Tempo, uma família de cavadores do Alentejo, explorados e oprimidos há séculos nos latifúndios, que aos poucos, já no tempo da decadência do salazarismo e da Revolução dos Cravos, vão despertando, levantando-se do chão e lutando por direitos e por uma vida mais justa. Lemos um excerto abaixo:

Porém, tão pouco tempo passado depois de Abril e Maio, voltaram ao latifúndio os rigores conhecidos, não os de guarda e pide, que uma se acabou e outra vive dentro do posto, olhando a rua pela janela fechada, ou, tendo de sair, por máxima obrigação, vai renteando as casas, nem te vi nem te conheço. Rigores são os outros costumados, dá vontade de tornar atrás neste relato e repetir palavras ditas, Estava o trigo na terra e não o ceifaram, não o deixam ceifar, searas abandonadas, e quando os homens vão pedir trabalho, Não há trabalho, que é isto, que libertação foi esta, então já se fala que vai acabar a guerra em África e não acaba esta do latifúndio. Tanto se apregoou de mudanças e de esperanças, saíram as tropas dos quartéis, coroaram-se os canhões de ramos de eucalipto e os cravos encarnados, diga vermelhos, minha senhora, diga vermelhos, que agora já se pode, andam aí a rádio e a televisão a pregar democracias e outras igualdades e eu quero trabalhar e não tenho onde, quem me explica que revolução é esta. A guarda já se espreguiça ao sol, são como os gatos quando estão a afiar as unhas, afinal a lei do latifúndio são os mesmos que continuam a fazê-la para que continuem a cumpri-la os mesmos, eu Manuel Espada, eu António Mau-Tempo, eu Sigismundo Canastro, eu José Medronho de cicatriz na cara, eu Gracinda Espada e minha filha Maria Adelaide que chorava quando ouvia dizer, Viva Portugal, eu homem e mulher deste latifúndio, herdeiro de não mais que petrechos de trabalho se não se gastaram ou partiram antes, como partido e gasto vou eu estando, voltou a desolação aos campos do Alentejo, voltará a correr sangue.[3]

Desse modo, pouco a pouco, tornei-me mais próximo de Saramago e fui, como um amigo, ganhando mais intimidade na sua casa, isto é, na sua obra. Ainda em 2010, eu seria agraciado com uma bolsa de estudos e teria a oportunidade de cursar metade da minha graduação na Universidade de Coimbra, em Portugal. Assim, partiria para o país de Saramago e no avião levaria uma edição de O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Lembro-me com especial carinho desta leitura, desta primeira leitura de Saramago, a sensação de vagarosamente acostumar-me com aquela forma única e inusitada de narrar, a ausência de travessões, a sintaxe modificada, a pontuação insólita… Enquanto o avião avançava pelas nuvens e levava-me ao velho continente, fui mergulhando naquele universo, admirando as manhãs ao lado do carpinteiro José e sua esposa Maria, observando o seu cotidiano simples e sua vida comum, como era a vida de qualquer pastor ou trabalhador daquele tempo. Terminaria a leitura já em Coimbra, estupefato com o modo como Saramago questiona a ideia de bem e de mal, evidenciando e criticando, alegoricamente, o discurso opressor e autoritário das religiões cristãs, através de um Deus ciumento, opressor e autoritário, tal qual o Yavé do Velho Testamento. Mais do que isso, o que mais surpreende neste romance, a meu ver, é a humanidade de Jesus, que sente dor, angústia, raiva, medo e que é oprimido por um Criador nefasto e orgulhoso. Assim, no romance de Saramago, Jesus também morre na Cruz agonizante, mas é de José, seu verdadeiro pai, que irá lembrar no derradeiro momento:

Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca,  e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência.  Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez. Depois, foi morrendo no meio de um sonho, estava em Nazaré e ouvia o pai dizer-lhe, encolhendo os ombros e sorrindo também, nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas. Ainda havia nele um resto de vida quando sentiu que uma esponja embebida em água e vinagre lhe roçava os lábios, e então, olhando para baixo, deu por um homem que se afastava com um balde e uma cana ao ombro. Já não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde o seu sangue gotejava.[4]

O que sem dúvida marca a literatura de Saramago é o seu olhar para aqueles que não fazem parte do “cortejo dos vencedores da História”, como diria o filósofo alemão Walter Benjamin. Em outras palavras, Saramago dá centralidade, em seus romances, para os subalternos, para aqueles que não têm voz nem lugar em nossa sociedade, para aqueles que são excluídos, marginalizados, privados dos louros e das alegrias do progresso econômico e social capitalista. Mais do que isso, Saramago ajusta a lente de seus romances e escova a história a contrapelo[5], focando naqueles que não são heróis, que não fizeram nem fazem parte da História, do discurso histórico oficial, as pessoas comuns e simples, os trabalhadores, os pobres, os agricultores, os camponeses, as mulheres – vale dizer que as suas personagens femininas ocupam, quase sempre, um lugar central nos seus romances, são elas que tomam as atitudes, que auxiliam os homens, que seguram o mundo e participam ativamente das revoluções, quando não são elas a própria revolução, basta lembrar da mulher do médico, de Ensaio Sobre a Cegueira, a única a não ser contagiada com a cegueira branca, ou então da Blimunda, de Memorial do Convento, mulher mágica, que tem o poder de enxergar através dos objetos e “colher” as vontades dos homens, aquelas que eles precisam pra mudar e transformar o mundo. Podemos lembrar, ainda, de Gracinda Mau-Tempo e de sua filha, Maria Adelaide, mulheres comprometidas e conscientes, que participam de manifestações políticas ao lado dos homens, que estão presentes no momento da Revolução dos Cravos, ou, também, podemos lembrar de Joana Carda e Maria Guavaira, de A Jangada de Pedra, mulheres afetuosas, decididas, fortes, que tomam as rédeas de suas vidas, que  fazem suas escolhas sem precisar da permissão de seus companheiros. Enfim, não faltam exemplos nos romances de Saramago de mulheres emancipadoras, que descontroem a lógica patriarcal, misógina, sexista e preconceituosa que ainda se mantém em nossas sociedades.

Em um dos dois discursos proferidos em Estocolmo, na ocasião da premiação do Nobel, em 1998, Saramago fez questão de marcar sua origem humilde, fazendo menção ao seu avô Jerônimo: “O homem mais sábio que conheci em toda minha vida não sabia ler nem escrever”[6]. O escritor deixa, claro, portanto, a sua preocupação social com os pobres, com os trabalhadores e a sua constante crítica ao academicismo, ao elitismo. Saramago, em lugares prestigiados, frequentados por pessoas “ilustres” da sociedade, jamais deixou de criticar o status quo, de defender os direitos humanos e uma sociedade mais justa, mais igualitária, jamais deixou de ser quem sempre foi, um homem com ideais humanitários, que nunca deixou de manifestar sua revolta com a desigualdade social, com a fome, com a miséria, com as diversas opressões e situações degradantes vividas por seres humanos em todo o mundo. Ainda num dos discursos de Estocolmo, diz ele: “Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante”, fazendo menção aos milhões de dólares gastos para enviar satélites e sondas ao espaço enquanto milhares de pessoas morrem de fome por aqui, na Terra, ao nosso lado, em regiões suburbanas de todo o mundo, mais esquecidas e desconhecidas do que as montanhas e as planícies arenosas do planeta vermelho.

Dessa maneira, por mais pessimista que José Saramago possa parecer algumas vezes, sobretudo quando lemos romances como Ensaio Sobre a Cegueira, em que há uma verdadeira e escatológica representação do mal, do mal que o ser humano causa ao seu próprio semelhante, a verdade é que sempre, em alguma medida, há uma nota de esperança em seus romances, como se, por trás da distopia, estivesse sempre um desejo forte de utopia, ou melhor, um desejo premente por mudança, por transformação, que só pode vir através das mulheres e dos homens, das suas vontades – todos somos Baltasar Sete Sóis e Blimunda Sete Luas, ou talvez possamos ser uma espécie de Bartolomeu Lourenço, outra personagem de Memorial do Convento, padre revolucionário e questionador, que sonha em voar, em alcançar as nuvens, “elevar-se num dia de sol”, na sua passarola mágica. Todos temos o poder de questionar, de problematizar, de pensar criticamente, quebrar paradigmas e, talvez, transformar o mundo, a realidade, a sociedade, basta que nossas vontades e nossas ações nos unam.  Posso dizer, sem dúvida, que esta é uma das muitas lições que aprendi lendo os romances de Saramago. Através da literatura, da arte, muitas vezes temos a oportunidade de refletir sobre questões que não nos chegariam tão facilmente por outros caminhos. A arte desautomatiza a linguagem e o nosso pensamento e nos ajuda a perceber o mundo de outra maneira, é por isso que ela nos é tão essencial quanto outras coisas vitais, tais como o alimento do nosso corpo, a vestimenta, a casa que nos abriga etc. Sempre que vivermos tempos de autoritarismo e de violações dos direitos humanos, a arte, a cultura e a própria educação serão as primeiras a serem atacadas, vistas como inimigas.

Portanto, caros leitores e caras leitoras, convido-os a revisitar ou a conhecer, se for o caso, a obra de José Saramago. Da minha parte, resta dizer que em diversas ocasiões e situações, aproveito para conversar com ele, imagino-o ao meu lado, sentado num café ou à beira do mar, com o coração igualmente angustiado e indignado com tudo que temos visto nos últimos tempos. E assim, tal como Saramago “roubou” o Ricardo Reis do Pessoa e tentou inquietá-lo, criticar o seu estado contemplativo da vida, colocando em cheque um de seus versos que melhor traduz o estoicismo do heterônimo pessoano[7], eu me pego muitas vezes também “roubando” as suas personagens, isto é, conversando mentalmente ora com Blimunda ora com José Anaíço ou Pedro Orce, passeando, contando histórias e debatendo ora com António Mau-Tempo ou com o próprio narrador saramaguiano, que é, como ele nos disse tantas vezes, ele mesmo, o José Saramago em pessoa.

Concluo, dessa maneira, com uma frase dita por Saramago, parafraseando Bernardo Soares, pouco antes de falecer, numa das apresentações do romance Caim: “Escrevo para desassossegar, não quero leitores conformados, passivos, resignados”[8]. Pois bem, longe do intuito de esgotar qualquer discussão ou os detalhes sobre a vida e a obra deste que é um dos maiores escritores contemporâneos de língua portuguesa, este texto, com a sua devida brevidade, é muito mais um singelo convite para que nos desassosseguemos também, que tragamos à baila outras discussões, nos mais variados espaços da sociedade e de nossas vidas, acerca da obra de José Saramago e de tantos outros escritores e escritoras tão importantes quanto ele, que nos inquietam e nos provocam sempre que os lemos. Enfim, mais do que qualquer outra coisa, esta é apenas uma pequena e humilde homenagem, um “muito obrigado”, a alguém que não conheci pessoalmente, mas que vive ao meu lado, como um amigo, através de seus livros, de suas palavras[9].

 

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[1]
Sobre este assunto ler o livro As palavras de Saramago, em que o professor e pesquisador espanhol Fernando Gómez Aguilera reúne e organiza uma série de declarações que Saramago deu aos meios de comunicação sobre esse assunto e muitos outros. No Brasil, este livro foi publicado em 2010 pela Companhia das Letras, assim como toda a obra de Saramago.

[2] Destoando de grande parte da crítica literária canônica, que compreende o narrador como uma instância literária à parte, dissociada da figura do autor, Saramago defendeu, em muitas ocasiões que, pelo menos no que diz respeito à sua obra, autor e narrador estão confundidos, são uma mesma coisa. Na visão do escritor português, o narrador de seus romances e até mesmo os personagens carregam em si uma pessoa, no caso, ele próprio, o autor.

[3] SARAMAGO, J. Levantado do Chão. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 387.

[4] SARAMAGO, J. O Evangelho Segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.444-445.

[5] Em suas Teses Sobre o Conceito de História, publicadas em 1940, Walter Benjamin defende a ideia de que o materialista histórico deve escovar a história a contrapelo, isto é, percebendo e atentando para aqueles que não estão nos livros de História, as personagens invisibilizadas, silenciadas, que não integram a galeria dos heróis, dos vencedores. Portanto, trata-se de uma crítica ao discurso histórico oficial.

[6] SARAMAGO, J. Da Estátua à Pedra E Discursos de Estocolmo. Belém: Ed. UFPA, 2013, p. 90.

[7] Referência ao primeiro verso de uma ode de Ricardo Reis: “Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo’’. Ler poema completo neste endereço

[8] Fonte

[9] De modo a conhecer um pouco mais sobre Saramago e o seu cotidiano enquanto escritor e companheiro de Pilar del Río, sugiro o filme ‘’José e Pilar’’, dirigido por Miguel Gonçalves Mendes e lançado em 2010. Neste belíssimo filme, podemos conhecer um pouco mais a respeito da personalidade de Saramago e da sua relação com Pilar, que sem dúvida é uma outra personalidade interessantíssima e que merece um outro texto, sobre a sua pessoa e sobre a sua ligação com o escritor português. Hoje, Pilar del Río é a presidenta da Fundação José Saramago, que, entre outras atividades envolvendo arte, cultura e literatura, é uma importante voz na luta pela defesa dos Direitos Humanos.