O SINISTRO – VERA SAAD

|ESCRITORXS DE QUINTA
Por Vera Saad

Creio que eu siga a linha de Sigmund Freud (1856-1939) e que me interesse tanto na literatura quanto na arte em geral menos pela beleza e mais pelo insólito. Por isso decidi estrear minha coluna na Vício Velho com um tema que me é muito caro: o estranho, inquestionavelmente associado ao que é assustador, que provoca medo e horror, analisado por Freud no artigo Das Unheimliche (O Estranho), escrito em 1919.

Freud faz um estudo etimológico da palavra alemã, porquanto a complexidade de sua estrutura, uma vez que abriga o vocábulo “casa” (Heim) em sua raiz. Por intermédio de vários e diferentes significados, o autor nos mostra que em algum momento a palavra unheimlich, estranho, tem o mesmo sentido que seu contrário, ou seja, heimlich, familiar. Por conseguinte, conclui, à luz da sentença do filósofo alemão Friedrich Schelling, que “unheimlich é o nome de tudo que deveria ter permanecido… secreto e oculto, mas veio à luz”, unheimlich (estranho) é de um modo ou de outro uma subespécie de heimlich (familiar).

 

Homem de Areia

No artigo, Freud retoma ainda o estudo do estranho no conto O Homem de Areia de E. T. A. Hoffmann, feito pelo psiquiatra alemão Ernst Jentsch, que associa o efeito de estranheza à Olímpia, um ser autômato por quem o personagem Natanael se apaixona perdidamente tomando-a como uma mulher de fato. Vale enfatizar o ponto de vista de Jentsch acerca do sentimento de estranheza: “dúvidas quanto a saber se um ser aparentemente animado está realmente vivo, ou, do modo inverso, se um objeto sem vida não pode ser na verdade animado”, que ele se refere à impressão causada por figuras de cera, bonecos e autômatos engenhosamente construídos.

Essas dúvidas já foram engendradas pelo próprio Hoffmann, na boca de seu personagem, Luiz, no conto Os Autômatos, e convém serem transcritas:

“Eu”, disse Luiz, “sinto uma grande repugnância por todas as figuras que não são propriamente construídas à imagem do Homem, mas que imitam grosseiramente o comportamento humano, estas verdadeiras estátuas de uma morte viva ou de uma vida morta. Já na infância fugia em pranto quando levado a um gabinete de figuras de cera, e ainda hoje não posso entrar em um desses lugares sem ser acometido por uma sensação horrível e sinistra. Sinto ímpetos de gritar as palavras de Macbeth: ‘Por que me fitas assim com olhos que não veem?’” (HOFFMANN In: CESAROTTO, 1996, p. 53-54).

Nota-se que a causa do sentimento de estranheza é basicamente a mesma entre Luiz, e Jentsch, a confusão entre um ser de uma morte viva ou de uma vida morta. Há, porém, uma fundamental diferença suscitada nas últimas palavras do personagem de Hoffmann que o distancia de Jentsch e o aproxima da análise freudiana. Trata-se da alusão à frase de Macbeth. É de crucial importância assinalarmos que o personagem de Shakespeare pronuncia tais palavras ao ver o fantasma de Banquo, general do exército da Escócia que ele mandara matar. Ou seja, o terror de Macbeth não reside no fantasma como entidade alheia, mas no fantasma de suas próprias atrocidades. O horror não reside no outro, mas nele próprio, em sua causa secreta. Assim também o boneco de cera aterroriza o personagem de Hoffmann, menos por sua imitação grosseira do comportamento humano, mais pelo que desperta no próprio personagem, tão estranho e, ao mesmo tempo, tão familiar.

 

Medo da castração

Não é de se estranhar quando Freud desvia o foco do autômato para o Homem de Areia, como propulsor do unheimlich. O Homem de Areia arrancava os olhos das crianças. Freud relaciona o medo de perder os olhos com o temor da castração. Consequentemente, o terror suscitado pelo Homem de Areia corresponde ao “pai temido, de cujas mãos é esperada a castração”. É possível concluir, portanto, que o sentimento de terror de Nataniel mesmo do leitor, não provém da Olimpia, tampouco do Homem de Areia, nem mesmo do velho advogado Coppelius, quem Nataniel acredita que seja o homem de areia, mas de “tudo que deveria ter permanecido… secreto e oculto mas veio à luz” provocado por esses três personagens.

O psicanalista Oscar Cesarotto, autor do livro No olho do outro, em que analisa o artigo de Freud, explora o estranho (unheimlich) como aquilo que, familiar e íntimo, estava apagado e é reativado por um fato extrínseco, para ser projetado como alheio. Segundo ele, o efeito concomitante é “a sensação sinistra que se produz ao se esfacelar a realidade, porque nessa hora, qualquer resguardo revela-se insuficiente”.

 

O sinistro

Cesarotto também retoma as possíveis traduções do vocábulo em outras línguas enumeradas por Freud e aponta como a melhor tradução do unheimlich freudiano para o português o significado “sinistro”, cujo campo semântico abrange diversas acepções, tais como, “funesto, de mau presságio, ruim”, como adjetivo, e “desastre, ruína, prejuízo”, como substantivo. Além disso, o verbete sinistro se caracteriza por um aspecto revelador, pois equivale primeiramente a “esquerdo”, em oposição a “destro”.

Para ele, essa dialética teria seu fundamento no “estádio do espelho” formalizado por Lacan, que se resume “no interesse lúdico que a criança dá mostras, entre os seis e os dezoito meses, por sua imagem especular, aspecto pelo qual a criança se distingue, certamente, do animal.” (Miller apud Santaella, 2007, p. 103).

 

Alteridade

Cesarotto associa o estádio do espelho ao “momento fecundo de cristalização do eu, na pregnância da forma especular”:

Numa primeira e definitiva identificação consigo mesmo, o sujeito humano se aliena de si quando mais esperava se integrar. O espelho, parâmetro de exterioridade, oferece-lhe a chance de se enxergar interior, mas ao preço de se ver como um outro. Nesta relação com o semelhante, a figura que se reflete aparece invertida, coincidindo o lado direito com o esquerdo, e vice-versa. Esta assimetria é o elemento que impõe a diferença no registro do idêntico, forçando a alteridade. Por este viés, aquilo que seria o mais conhecido e familiar, a própria imagem, vira estranho. Sinistro, então aludiria ao que excede à dimensão do narcisismo, ficando fora da alçada do eu, incontrolável (CESAROTTO, op. cit., p. 115).

O lado direito (destro) coincide com o esquerdo (sinistro), tal qual unheimlich assemelha-se, em um dado momento, ao seu antônimo.

Ao que concluo que o que me agrada na arte diz respeito ao sinistro, ao desastre, à ruína. Mas também diz muito de mim, quando meus dois lados, esquerdo e direito, se coincidem. O que me amedronta também me fascina: aquela imagem que me foge no sumidouro do espelho.

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Vera Saad é autora dos romances Dança sueca (Patuá, 2019) e Telefone sem fio (Patuá, 2014) e do livro de contos Mind the gap (Patuá, 2011), Vera Saad é jornalista, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP e doutora em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP. Ministrou no Espaço Revista Cult curso sobre Jornalismo Literário em 2012. Tem participações nas revistas Cult, Língua Portuguesa, Metáfora, Portal Cronópios e revista Zunái. Vencedora do concurso de contos Sesc On-line 1997, avaliado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, foi finalista, com o romance Estamos todos bem, do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Seu romance Dança sueca foi selecionado pela Casa das Rosas para o projeto Tutoria, ministrado pela escritora Veronica Stigger.

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Referências bibliográficas

CESAROTTO, Oscar. No olho do outro: O Homem de areia segundo Hoffmann, Freud e Gaiman. São Paulo: Editora Iluminuras, 1996.

FREUD, Sigmund. Obras Completas. Trad. C. Magalhães de Freitas … et al. Rio de Janeiro: Delta, s.d.

SANTAELLA, Lúcia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.

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Imagem: The Ghost of Banquo, Theodore Chasseriau