MÁQUINA DE DESAPARECER – GAEL RODRIGUES

|ESCRITORXS DE QUINTA
Por Gael Rodrigues

 

Colagem 01

 

Quando Laura perguntou se podia me visitar logo respondi sim, sem pensar em como a acomodaria, claro, havia espaço, mas falo de trâmites, se eu estaria trabalhando, se sobraria tempo para fazer companhia, levá-la para passear, afinal não faz sentido ela vir e ficar presa em casa, já que nunca veio a São Paulo, acostumada apenas a João Pessoa, quando saí de lá tinha menos de meio milhão de habitantes e hoje, dez anos depois, deve ter apenas um pouco mais que isso. Os ‘se’s foram se multiplicando assim que desliguei o celular, ao ponto de que em diversas vezes me vi prestes a digitar o número dela e pedir desculpas,  não poderia recebê-la, eu não estava bem, não, Laura, sei que você vem apenas daqui a dois meses, mas meu mal estar provavelmente durará mais que dois meses, afinal me acompanha há anos. No início, Otávio me acalmava, dizia que me ajudaria, que a visita faria bem não só a ela, como a mim também. Mas ele se fora. Olho para o gato esperando dele alguma resposta, algum sinal para que eu ligue antes que ela pegue a mala no desembarque, cancele de vez, invente alguma desculpa ridícula salvadora, mas um raio de sol laranja da tarde acerta seu focinho e ele gira o corpo gordo na cama pedindo carinho. Não tenho tempo, tenho que pegá-la no aeroporto.

Seria mais prático ela chamar um uber, afinal anotou meu endereço, não há nada complicado nisso, mas ela sempre me busca no aeroporto quando a visito no natal, braços abertos, sorriso largo, seja bem-vindo, isso quando a visito, na última vez desisti de última hora, perdendo o direito até ao reembolso, porque não conseguia me levantar da cama, mas menti, não queria deixá-la preocupada, culpei o trabalho extra, tinha croquis de última hora para entregar à empresa. Preferi eu pegar o uber, chegar um pouco antes, tomar um café, relaxar, não queria que ela me encontrasse ansioso. Pedi um moccha, que ideia essa minha, o preço daria para comprar quatro coados no Centro, mas ok, já tinha pago, tinha tempo, era melhor aproveitar, respirar. Afundei o biscoito no café e lembrei de quando éramos crianças, eu e Laura, ela um ano a mais que eu, nos divertíamos com o biscoito maizena no café quente. Nossa missão era medir o tempo necessário para que apesar de molenga ele não se quebrasse e chegasse inteiro a nossa boca. Bons tempos em que as consequências de uma má avaliação seria tirar pedaços de biscoito com colher, ou simplesmente aceitar o café doce cheio de pedaços. Meu biscoito demora a amolecer, deve ser culpa da espuma e engulo de uma vez. No painel vejo que o vôo dela já chegou.

Espero próximo ao portão, as pessoas vão saindo como frangos numa grande esteira, ainda frangos, surpresos por não terem virado nuggets e abraçam seus familiares também surpresos por receberem a mesma pessoa que se despediram tempos atrás. Avisto Laura assim que cruza o portão. Traz apenas uma mala. Parece mais magra. Está mais magra. Também pudera, seu último ano não foi fácil. O cabelo preto liso tenta esconder os ossos dos ombros mas uma pontinha e outra surge. Um pouco encurvada nada lembrando a adolescente que empinava os peitos antes mesmo deles brotarem. Antes que me veja, forço um sorriso, não por falsidade, mas para ela se sentir acolhida, e me dou conta que não estou mais forçando, estou realmente sorrindo, feliz por vê-la. Ela enfim me encontra e sorri instantaneamente.

Tomo a mala, pergunto se está com fome, diz que não, mas está cansada, a viagem mesmo curta foi cansativa, você está bonito, como está Otávio? Conto que acabamos, há quanto tempo? uns meses, sim, esqueci de contar, não tinha importância, que bom que gostou do bigode, quando chegarmos em casa você descansa. No banco de passageiros ficamos um bom tempo calados como se três anos sem se ver não fosse motivo suficiente para conversar como quem mata sede. Ela olha para fora do carro, vendo os motoqueiros passarem ou apenas perdida em pensamentos. Tenho medo de falar e sem querer acionar a palavra que fará uma memória ruim sangrar. O ar dentro do carro é pesado. Está claro que ela ainda não conseguiu superar as mortes dos últimos meses. Os mortos ocupam os dois bancos vazios do carro.

Chegamos, e os olhos dela correm os detalhes da casa, parece avaliar, contida, talvez meça palavras, o que é estranho porque sempre falou sem pensar, sagitariana, como gosta de salientar, mas não comenta o chapisco na parede, nem recrimina a falta de fotos pela casa, deve estar cansada, só isso. Pede para tomar banho, aponto o caminho, deixei toalha e sabonete separados. Quando sai do banheiro, o gato se enrola nos seus pés. Faz carinho sem nem perguntar se é bravo. Chamo para a mesa onde já deixei o jantar posto.

— Qual nome dele?

Custo a entender a pergunta mas por fim compreendo que fala do gato. Sampa.

— Por causa da cidade ou do nosso pai?

Caio na gargalhada. Nunca tinha associado o nome de gato a painho. Sampaio. Não me dava bem com ele. Com certeza não seria uma homenagem, mas não haveria como negar que era uma coincidência sugestiva que eu levaria para a análise na próxima semana. Explico que o nome é por causa de São Paulo sim, uma forma de ela ser mais gentil comigo, nem que fosse forçadamente por meio de um animal domesticável. Sirvo um pouco mais da massa. Ela está com fome.

— Engraçado você ter gato. Você odiava o que eu tinha quando éramos pequenos.

Sim, nunca fui muito de gatos. Otávio que gostava, adotou esse quando estávamos namorando, e não podia levar quando se foi. Ou eu fiz questão para que ficasse. Que o gato ficasse. Ele podia ir, mas eu ficaria com o gato, tinha me apegado a ele, e Otávio poderia visitar se assim quisesse, não haveria incômodo. Ela ri, encontrando subtextos no que falei, me analisando, odeio quando faz isso. Penso em dar uma resposta para a não resposta, mas desisto. Ela afunda o pedaço de pão no molho branco da massa quando se dá conta da máquina de costura na sala.

— Lembra da vez que painho bateu em nós dois quando você fez uma roupinha para minha barbie?

Mais uma vez estou rindo, relembro da blusa com dois buracos nos lugares do peito, e de depois organizarmos um desfile das bonecas. Painho odiava quando eu fazia essas roupas, me batia enquanto mainha tentava me defender, o menino não tem culpa, gritava atrás dele enquanto ele corria atrás de mim. Laura não ri hipnotizada pela máquina de costura.

— Nesse dia, ele ficou possesso. Jogou minhas bonecas. Bateu na gente. A máquina de costura de mainha era igual a essa né? Esse trambolhão de madeira. Tem uma porta nela também, né, essa mesma, você adora essas coisas antigas. Painho bateu na gente, disse que a culpa era minha de você ser assim. Ele começou a procurar Fofinha. Fiquei com medo. Como não podia matar a gente, pensei que ia usar a gata como exemplo, sei lá, você sabe, ele era louco. Então escondi ela dentro da máquina de costura. Ela com aqueles olhões de medo. Ficou quietinha, sem nenhum miado como se entendesse. Fiquei deitada na cama esperando ele esquecer. Você devia ter corrido para casa de voinha como sempre fazia. Teve uma hora que eu tenho certeza que ele abriu a caixa da máquina de costura. Blam. Me tremi toda, mas não ouvi nenhum miado. Blam. Ele fechou. Foi trabalhar. Isso foi de manhã e Fofinha ficou tão calada que esqueci dela. Só a noite quando ele voltou é que lembrei que tinha escondido ela. Abri a porta e estava lá, toda encolhida, com medo. Mesmo com medo, não miou o dia inteiro. Por um bom tempo fiquei pensando… se na hora que ele abriu ela estava lá. Se o medo tinha feito ela desaparecer. Ou sei lá. A máquina fez ela desaparecer.

Tento entender se Laura está brincando. Ela parece mais magra ainda como se em uma hora pudesse emagrecer ainda mais. As olheiras fundas. A pele seca. Deve ser a luz. Pergunto se ela quer dormir e ela confirma tocando minha mão.

 

***

Pela manhã, aviso que tenho que ir para reuniões mas volto à tarde, lembro que tem comida na geladeira, lista de emergências se precisar ligar, ou lugares para visitar, o painel de vidro da varanda tem que ficar fechado por causa do gato, pode usar a piscina do prédio ou a academia se quiser. Ela vira para o outro lado e volta a dormir.

Entrego os modelos que desenhei para o desfile da próxima coleção, gostam, pedem alguns ajustes. Se eu estivesse mais concentrado rebateria ponto a ponto, defenderia o conceito, explicaria minha arte, daria ênfase na palavra arte, enquanto fingiria não ver Domenique revirar os olhos. Por sorte dela e minha, estou pensando em Laura. Procurando formas de animá-la.

Tiro o celular a cada minuto para ter certeza que não recebi nenhuma ligação, não sinto quando ele vibra, mas a cada minuto também calculo se não devo ligar para Otávio, pedir algum conselho, ouvir a voz dele me acalmaria, com certeza, sempre foi um porto seguro mesmo sendo um cuzão tantas vezes. Melhor não.

Volto para casa um pouco mais tarde do que o planejado e ela está deitada. Fico na dúvida se continua deitada ou tirou um cochilo pós almoço que se transformou num sono mais longo. Toco no ombro dela e pergunto se quer dar uma volta. Faz que não com a cabeça mas pede café.

Esquento a água, mostro a prensa francesa que comprei, ela vestida de lençol, diz que quer uma igual. Ela separa as xícaras e coloca as poltronas viradas para a varanda. Sirvo e ela sorri quando o vapor do café quente acerta suas narinas e encobre seu rosto. Eu queria tirar uma foto mas apenas sorrio de volta. Tomamos café próximos a varanda, uma calmaria, apesar do barulho dos carros que correm no Minhocão.

Me conta que mainha está bem, conheceu um homem na igreja, divorciado também. Até cortou o cabelo. Sério?, pergunto. Nunca a vi com cabelo menor que um metro. Pergunto se ela tem notícias de painho, mas nem responde e entendo que não. Desde que o marido de Laura, ex-marido no caso, saiu de casa, o ódio pelo nosso pai, que fez o mesmo com nossa mãe quando ainda éramos pequenos, aumentou. Além da genética estaríamos fadados a carregar as narrativas de nossos pais. Ao menos ela poderia cortar os cabelos.

Ouvimos um grande estrondo.

Levanto e consigo entrever um acidente. Uma moto deitada no chão. De um carro sai um homem. Não vejo o motoqueiro. Pessoas se aproximam, e também parecem procurá-lo. Mudo minha posição e ainda não o encontro. Talvez o prédio ao lado esteja encobrindo o corpo, ou ela tenha voado para debaixo do viaduto. O som de buzinas. Olho para Laura e ela continua sentada tomando o café. As mãos tremem.

***

Colagem 02

— Como ela está?

Otávio pergunta ofegante no celular. Aproveito que Laura está no banho para ligar para ele. Me arrependo na mesma hora. Nem para parar a esteira. Nem para perguntar do gato que está no meu colo e ronrona próximo ao celular como se reconhecesse a voz dele. Conto que ela perguntou por ele, está magra, calada, ainda sob estresse pós-traumático.

— Mas ela falou algo das crianças?

Não. Falou quase nada depois desses três dias. E por isso deve estar com dificuldade de superar: evita confrontar. O confronto é necessário para superar os traumas.

Ele mesmo correndo, gargalha. Se ainda estivéssemos namorando ele diria que me acho inteligente demais, penso que as pessoas são livros que podem ser lidos. Dessa vez se basta com a gargalhada, certo que nossa intimidade garantirá minhas conclusões.

Sem pensar, desligo. Penso em retornar, dizer que caiu a ligação, mas Laura sai do banheiro e pede para ir ao cinema enquanto seca o cabelo. Me visto, ela escolhe algum que está passando no Frei Caneca. Me mostra na tela do celular. Uma animação da Disney.

Termino de me vestir e da varanda encontro uma mulher no Minhocão que parece procurar algo se desviando das pessoas que correm. Ela para e olha em direção aos prédios. Seus olhos parecem encontrar o meu mesmo no vigésimo andar. Laura me chama, vamos nos atrasar, fecho os vidros e saímos.

 

***

Depois de uma semana inteira, sinto sinais de melhora em Laura. Foi à piscina sozinha, sai para comer ou prepara comida para ela e para mim, fica pouco na cama. Quando voltei na terça-feira ouvia música dançando com o gato nos braços. Conversamos mais. Sobre nossa infância, sobre o trabalho, sobre a separação dos nossos pais. Continuo cheio de dedos sobre o que falar, esperando que ela se abra quando for o momento certo.

Uma tarde na piscina, nadamos sozinhos, tomamos alguns drinks. Tremo quando uma vizinha se aproxima com suas gêmeas. As duas pulam na piscina e Laura brinca com elas, olha, tia já sei nadar, e ela parabeniza, coloca as mãos embaixo do corpinho de uma, e faz a pequena voar sobre a água. Olha para mim, e de sua boca consigo ler ‘está tudo bem’, e finjo não entender, nem estava preocupado, desanuvio meu rosto para evitar mal-entendidos.

— Ela vai ser uma boa mãe.

A vizinha fala para mim e concordo num sorriso nervoso torcendo para que minha irmã não tenha ouvido.

No apartamento, mudou o sofá de lugar, colocou um arranjo de rosas sobre a máquina de costura, além de organizar os cadernos com os desenhos, meus lápis, guardar linhas e alfinetes e tesouras em caixas, perguntou há quanto tempo não lavo o banheiro, mas lavar de verdade, enquanto enxuga o suor da testa segurando o esfregão,  comprou porta-retratos e colocou fotos minhas, dela, de mainha e até do gato, foto que ela mesma tirou em frente às plantas da varanda. Respiro algumas vezes, me seguro, agradeço pelas mudanças, é melhor isso que a apatia dos primeiros dias.

 

***

Um dia antes de voltar para João Pessoa, sugere ir a uma festa, quer lembrar a época que me acompanhava nas boates gays. Por pouco nego, não saía mais para balada, nem me sentia mais a vontade, não prefere ir ao cinema de novo?, mas reflito e respondo que sim, vamos, deixa apenas eu saber para onde as pessoas saem à noite. Antes sai para comprar uma roupa, esqueceu de colocar alguma roupa mais bonita na mala. Aproveito e a acompanho, compro uma calça e uma blusa. Como sempre Otávio estava certo e a vinda dela estava fazendo bem aos dois.

Luzes piscando, pessoas piscando, música atravessando nossa pele, pés esquecendo de pousar. Brindamos a cada drink. Eu com minha longneck de cerveja e ela com tequila. Desde adolescente bebia mais que eu, mas nunca chegou bêbada em casa, ou sabia interpretar bem. E eu com duas cervejas já me sentia mais bêbado do que ela aparentava.

— Viadinho — gritou para eu ouvir por causa da música alta. E me abraçou.

Ela estava quente e realmente feliz. Mesmo abraçados, eu conseguia ver o sorriso dela. Depois se afastou e dançou. Girava o corpo, vestido rodando, o corpo leve, dançando como se estivesse sozinha na pista, no universo, como se a solidão não pesasse quando se dança.

— Ela está feliz, não?

Procuro a voz, e atrás de mim, Otávio. Continuava o mesmo. Um belo sorriso, dentes perfeitos, a pele negra reluzindo, a roupa bem passada. Sem saber o que fazer, minha boca procura a dele. Ele retribui o beijo. Nos beijamos. Procuro alguma diferença na língua, na mão que aperta minha cintura. Tudo igual. Ainda somos os mesmos.

Passamos um tempo juntos, conversamos, digo que o filho felino sente falta dele, e quando voltamos à pista, Laura está beijando. Um cara uns dez anos mais novo que ela percorre o corpo com as mãos enquanto ela de olhos fechados se entrega.

— Pronto. Ao menos alguém esqueceu o ex.

Otávio solta uma de suas piadas inoportunas. Continua o mesmo. De qualquer forma, fico feliz por Laura ter dado esse passo. Mainha havia me contado que desde que o marido saiu de casa ela não conseguiu se relacionar com ninguém. Se sentia culpada pelo que aconteceu. Mesmo que fosse apenas um beijo, aquilo poderia representar muito mais para ela. Otávio tenta me beijar novamente, mas me afasto.

No uber, o cheiro de álcool ocupa cada espaço não deixando espaço para fantasmas e o motorista abre as janelas. Conto para Laura que Otávio me chamou para passar a noite na casa dele, mas neguei, queria gastar os últimos dias com minha irmã. Que otário você, ela responde, mas logo depois encosta a cabeça na minha e seguimos assim, calados, até chegar em casa. O gato nos recebe na porta com cara de sono.

— Saideira?

Laura pergunta já servindo o gin que eu guardo no armário. Com ele, ela traz um álbum de fotografias que roubei na última vez que visitei mainha. Ela nunca deixaria levar se eu tivesse pedido. Fazemos o último brinde da noite e sentamos no chão.

Folheamos o álbum de fotos e paramos ao ver nossa foto juntos, eu com seis e ela sete anos, cabeças próximas, um encostando no outro, como se assim o mundo pudesse se  manter equilibrado, e se um se afastasse um pouco, o ao redor desmoronaria. O que era esse dia? Ela lembrou.  Minutos antes de dublarmos Sandy & Júnior na escola. Rimos das roupas, dos cabelos, apesar de estarmos fofos e bonitinhos.

— Não sei como tive coragem de fazer isso.

— Nem eu — concordo mesmo lembrando que eu adorava aparecer.

— Mainha que gostava de exibir a gente. Se fosse Cecília…

Antes de terminar a frase, para. O nome da filha morta há um ano veio sem autorização. Junto a ela outras lembranças não bem-vindas. Coloca o copo de gin no chão. Continua olhando a foto mas deve enxergar a filha. Como eram parecidas. A mais nova, também morta, parecia mais com meu pai, mas a mais velha, uns cinco anos, era como ver Laura pequena. Uma lembrança a espreita a cada espelho ou reflexo.

Passo a página e tento desviar a atenção para outra foto, outra lembrança, mas ela fecha o álbum.

Corre para o banheiro e vou logo atrás. No espelho, tira a maquiagem com força, lágrimas pelo rosto. Arranca o vestido. Entra embaixo do chuveiro quente. Quer voltar ao que era dias atrás. Quer ser consumida pela dor novamente. Sem batom, sem roupas brilhantes, sem álcool.

Espero do lado de fora, desligo o telefone ao ver as chamadas perdidas de Otávio. Laura sai nua do banheiro, magra novamente, corcunda novamente. Senta ao meu lado. Chora compulsivamente, corpo se tremendo prestes a implodir.

— Eu sou um monstro, um monstro.

Repete sem parar, mãos escondendo o rosto. Quero dizer que ela não tem culpa na morte das filhas, que foi um acidente, que o ex-marido deveria ter ficado ao lado dela, foi um frouxo, saiu de casa quando ela mais precisava de amparo, queria dizer tudo isso, mas me calo deixando que ela enfrente a própria dor, e por fim, adormeça no meu colo.

***

Acordo no outro dia com o gato tocando meu rosto com suas patas. Deve estar com fome. É quase meio-dia, dormi demais. Coloco a ração dele enquanto tento equilibrar minha cabeça, pesada e ameaçando explodir. Prometo nunca beber novamente. Laura ainda na cama, ronca.

Preparo tapioca, ovos, como às pressas, tenho uma reunião em uma hora. Depois posso voltar e acompanhá-la ao aeroporto. Deixo um bilhete. Torço para que acorde bem.

Passo a reunião inteira tirando o celular do bolso, esperando alguma mensagem dela, ou de Otávio, penso em ligar para ele, dizer que hoje minha irmã vai embora e posso dormir com ele, algum problema?, Domenique pergunta, e digo que não, não. Está tudo bem.

Não me contenho, ligo para Otávio, mas ele rejeita três ligações e desliga na quarta. Minha cabeça dói muito e peço que o uber pare na farmácia, compro tylenol, tomo dois de uma vez, volto para o carro. Pode desligar a música? e ele finge não escutar. Mando mensagens para Laura e ela não responde. Ligo para o celular mas dá fora de área. Mando mensagem para a empresa, me desculpo, explico que estou com enxaqueca e tenho que voltar para casa,  mudo a rota no aplicativo, aviso ao motorista e ele solta uma bufada. Lá fora, uma ventania levanta poeira  e ameaça derrubar árvores.

Abro a porta do apartamento e está vazio, chamo por Laura e ela não responde, a cortina voa, os porta retratos estão no chão, o vento tenta derrubar cada móvel. A janela de vidro da varanda está aberta. Corro enquanto me defendo do vento, e antes de fechá-la, olho para baixo com medo do que possa ver. Vazio. Tranco a janela e volto a procurar dentro do apartamento. Um vendaval passou por ali.

O gato. O gato também não está. Tanto avisei para Laura não deixar a janela aberta. Ligo novamente para o celular dela e ainda está desligado. O de Otávio também. Procuro o gato no banheiro, em caixas, em cantos. Nada.

Abro novamente a janela, olho para baixo, vento bagunçando meu cabelo, nenhum vestígio encontro do alto do vigésimo andar.

As malas! As malas de Laura continuam no apartamento. Seu voo é daqui a quatro horas.

Interfono para a portaria e o porteiro diz que não viu minha irmã hoje. Agradeço. Tomo outro tylenol. Pego os porta retratos que o vento jogou no chão, tento colocá-los nos lugares de volta e noto que estão vazios. Sem fotos. Minha cabeça pode explodir a qualquer momento.

Sento na beirada da cama e seguro minha cabeça. À minha frente a máquina de costura. Levanto devagar com medo, pé ante pé. Abro a porta de madeira da máquina. Dentro, escuro e vazio. Seguro.

Fecho, volto a sentar na cama e, sem tirar os olhos da máquina, espero.

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Gael Rodrigues é paraibano de 33 anos. Seu romance ‘Terra Laranja’ venceu os Prêmios Literários da Fundação Cultural do Pará em 2017 e o juvenil ‘A menina que engoliu um céu estrelado’ ganhou o prêmio CEPE 2018 (além de ter sido finalista dos prêmios CEPE 2017 e  Barco a Vapor 2018).

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