O MUNDO QUER VIVER EM NÓS – MARCELO ARIEL

|ESCRITORXS DE QUINTA
Por Marcelo Ariel

. A vida do espírito e a vida filosófica foram apartadas pelos diversos feixes de centramento criados pela imagetocracia que rege as distorções, aceleramentos e derrisões do tempo, da existência e do outro como eles são concebidos hoje pela maioria dos seres, tornando comuns as distorções, aceleramentos, derrisões e fantasmagorizações da vida do espírito, vida movente e comunicativa, matéria do pensamento que deseja sair de si mesmo e tocar a outridade das coisas e da vida filosófica, ponto onde o ser e o entreser se encontram com a música difícil da harmonia entre a memória e a experiência. Essas duas emanações das forças de dentro são dimensões criadoras que pedem para serem novamente reconciliadas. E é justamente essa urgente e necessária reconciliação entre a interioridade e o viver que imanta cada frase do recém-lançado livro de Liliane Prata: O MUNDO QUE HABITA EM NÓS.

Fui o maravilhado espectador de um gesto essencial realizado pela autora durante o processo de criação do livro: a mudança do título, que inicialmente era O MUNDO QUE HABITA EM MIM, para a inclusão desse fraterno e inclusivo  NÓS. Gesto que nos inclui na medida em que avançamos na leitura sensível do livro, que materializa uma voz que não se nega a intuir em nós as feridas e fendas abertas pelo peso de vivermos intensamente a violenta separação entre a vida e o viver. Esse é um livro escrito por um voz que ouve a voz do outro antes de ouvir a si própria, por uma voz que sabe ser a inclusão do outro, o milagre possível de ser realizado por cada um desde que se mova até esse NÓS.

Para mim, esse é o legítimo gesto fundador do pensamento filosófico, o que promove um preciso afastamento em relação àquela figura do saber apenas para uma esfera privilegiada. É um gesto contra a privatização do saber, de recusa da apropriação da Sophia por círculos exclusivos que criaram com a associação entre vida antissocial e poder político, uma falsa oposição entre a Sophia ( saber) e a Philia.( amizade). Liliane, movida por uma lucidez afetiva, se recusa aqui a praticar a diluição da philia no tecnicismo meramente acadêmico que fechou  a filosofia em uma concha historiográfica a afastando da vida filosófica e da via comum ao mesmo tempo. Não é mais possível conceber um saber sem amizade, uma Sophia sem Philia, e esta é outra das reconciliações propostas pela leitura de mundo realizada por ela, ao praticar em sua escrita uma filosofia acessível, uma filosofia capaz de pensar a energia da recusa não como principio de negação do mundo, mas como uma positividade que interroga o presente e suas certezas e, ao mesmo tempo, opta pela escuta de um outro tragado pelo pântano narcísico do senso comum de uma época que muitos erroneamente julgam irremediavelmente perdida. Liliane, neste belo e conciso livro, pressente em nosso mundo um desejo de harmonia que não exilou a esperança nas ilhas do desumano.

Em diversos momentos do livro, a poesia é evocada como um instrumento através do qual a filosofia amplia sua potência de decodificação. Peter Sloterdjik e Lucia Berlin se entreolham gentilmente nessa rua que dá para um bosque imunológico. O MUNDO QUE HABITA EM NÓS é, portanto, um livro dialógico, um livro-conversa, continuando uma longa tradição de filósofos e filósofas que optaram por essa via feliz de acesso ao outro que inclui, por exemplo, o chinês Lin Yutang e seu A IMPORTÂNCIA DE VIVER, citado pela autora e com o qual ela conversa de modo bem próximo. Ao colocarmos os dois livros lado  a lado,  os dois títulos criam um haikai.

Por fim, eu não poderia concluir  sem falar da capa criada pela artista Alessandra Lemos (Lole). Sempre considerei que as capas dos livros eram vizinhas das máscaras, nessa capa esse conceito aparece transfigurado em uma inversão onde a capa e as máscaras são figuras de imanência e desvelamento.


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Marcelo Ariel é poeta, performer e teatrólogo. Autor de “Jaha ñade ñañombovy’a  (Penalux), entre outros livros, lança em breve “Ou o Silêncio Contínuo” (Kotter Editorial), com sua poesia reunida.