Contra a invenção – notas sobre os limites da ficção e dos discursos do real na contemporaneidade – Camilo Gomide

|ESCRITORXS DE QUINTA
Por Camilo Gomide

1.

Existe em nosso tempo um sentimento geral de perda de referências. Para os teóricos da pós-modernidade vivemos o fim das grandes narrativas organizadoras do mundo. Os sistemas que antes definiam os sujeitos em suas relações identitárias foram desestabilizados. As formas identitárias variam de acordo com os tipos de relações que estabelecemos, são cambiáveis, portanto. Em alguns períodos, como na pré-modernidade, essas formas eram mais fixas; em outros, como no que vem sendo denominado pós-modernidade, elas são mais fluidas. Em um contexto de tanta fluidez e instabilidade, uma das noções mais afetadas foi o conceito de verdade.

2.

Ao falarmos em pós-verdade estamos aludindo a um tempo em que o que se entendia por verdade entra em descrédito. Em algum momento, a crítica ao saber absoluto, uma possibilidade que se abria com a desestabilização das grandes narrativas, que, obviamente, mereciam ser questionadas, parece ter dado lugar a outro fenômeno que se tornou muito mais importante: o falseamento da realidade e a criação de “verdades alternativas” que vêm erodindo saberes consolidados em todos os campos do conhecimento. Nesse cenário, alguns escritores se viram, de repente, na obrigação de cumprir o estranho papel de se posicionar contra a invenção e recuperar na literatura o sentido da verdade.

Em alguns casos de maneira bem radical, como no do escritor francês Cristophe Donner, em seu livro-manifesto Contra la imaginación (2000). Para o autor, a imaginação procede da ignorância e “serve para salvar a pele e infecta a literatura”. Donner afirma que os escritores “recorrem à imaginação para esconder aquilo que verdadeiramente importa e se esforçam em ocultar os vestígios das marcas dos passos que lhes conduziram a esse nirvana, ‘o imaginário’. Quanto mais pura, luminosa e suspensa no vazio seja a imaginação, maior e mais poderoso se sente o escritor. No entanto, a função principal da literatura é ‘dizer as coisas, transmiti-las’[1]”. Donner coloca a “verdade” como ideal estético e defende que a única forma de conseguir atingi-lo é por meio de uma literatura experiencial, escassamente ficcionalizada[2], uma escrita fundamentada em um “eu” autêntico, capaz de se posicionar com firmeza em primeiro plano, se livrando da “peste que é a imaginação”. [3]

3.

Donner, no entanto, parece ignorar o caráter imaginário que a noção do eu pressupõe. Entendimento, este, intuído por Rousseau em suas Confissões, demonstrado por Freud em seus estudos sobre o inconsciente, e comprovado pela neurociência, desde os estudos de Eric Kandel sobre a memória até os dias de hoje. Até mesmo entre os autores pioneiros da autoficção, existe a consciência da natureza fictícia do relato autobiográfico. Serge Doubrovsky, criador do termo autoficção, quarenta anos depois da escrita de seu primeiro romance autoficcional, disse: “Nenhuma memória é completa ou fiável. As lembranças são histórias que contamos a nós mesmos, nas quais se misturam, sabemos bem disso hoje, falsas lembranças, lembranças encobridoras, lembranças truncadas ou remanejadas segundo as necessidades da causa. Toda autobiografia, qualquer que seja sua ‘sinceridade’, seu desejo de ‘veracidade’, comporta sua parte de ficção[4]”.

4.

Todavia, desde meados do século XX, o eu reivindica seu espaço e, apesar de seu caráter inegavelmente fictício, os gêneros autobiográficos continuam a produzir efeitos de real[5]. Uma explicação possível para essa legitimidade da escrita de si está nas transformações nos campos da sociologia e dos estudos culturais que teve início na segunda metade do século XX. Beatriz Sarlo[6] defende que, se os anos 1960 foram marcados pelo desaparecimento do sujeito, nos anos 1970 e 1980 experimentamos uma “guinada subjetiva”. Nessa época, os estudos da memória coletiva reivindicaram ao relato de vítimas de experiências traumáticas (como o Holocausto) o direito de servir como prova fiável. Em situações como a Shoa, o testemunho era uma evidência fundamental – quando não a única – para se entender o que aconteceu. Mesmo reconhecendo o papel decisivo do testemunho e a possibilidade de se extrair alguma verdade do relato autobiográfico, Sarlo ratifica as críticas da subjetividade e da representação: “Como na ficção em primeira pessoa, tudo o que uma ‘autobiografia’ consegue mostrar é a estrutura especular em que alguém, que se diz chamar eu, toma-se como objeto. Isso quer dizer que esse eu textual põe em cena um eu ausente, e cobre seu rosto com essa máscara”.

5.

Como poderia, então, um escritor, ciente da impossibilidade de alcançar algo tão fugidio como a verdade, persistir na tarefa de se diferenciar dos discursos falsificadores da realidade? Um caminho possível é incorporar a desconfiança sobre o próprio relato ao mesmo tempo em que se busca, rigorosamente, a verdade. Algo na linha do que tem defendido o escritor Julián Fuks. Em artigo publicado no livro Ética e pós-verdade (Dublinense, 2017), Fuks menciona dois escritores que assumem em seus romances o compromisso de contar a verdade por meio da ficção e encaram esse paradoxo. Um deles é Sebald, que rejeita a estetização da realidade e defende uma literatura mais documental. É importante destacar que Sebald não sustenta a ilusão de acesso total à realidade. É sabido que, no fim das contas, tudo o que se pode criar é um retrato parcial do real. A diferença aqui está nos procedimentos e na forma pela qual se acessa o real. Sebald recusa efeitos convencionais do romance de sua época (o pós-guerra), como “belas imagens, jogos de linguagem, seduções falaciosas[7]” e lança mão do hibridismo e do recolhimento de vestígios do real. O romance dessa forma, argumenta Fuks, “se aproxima do ensaio, da reportagem, da autobiografia, do relato historiográfico, dessas outras formas que já lhe pertenciam, mas assemelhando-se a elas como em nenhum outro tempo[8]”.

Outro ponto importante destacado por Fuks é que a defesa de uma literatura comprometida com essa noção de verdade não tem como finalidade criar uma oposição entre ficção e verdade. Fuks retoma uma visão antiga, formulada por diversos autores como Juan José Saer, Henry James e Flaubert, que define a ficção como um discurso a serviço da complexidade. Dentro dessa concepção, a ficção é “…a forma que o romancista cria para enfrentar a infinitude do mundo, um círculo que o ficcionista desenha para restringir a vastidão do real. A ficção seria uma parte do real, sua circunscrição em espaço reduzido, e só assim, metonimicamente, se poderia conceber algum princípio de representação. Só abolindo, então, a ficção realista, esta sim em efetiva crise, só nos desfazendo da ficção tão conhecida em sua infinidade de convenções, só escrevendo ficções numa era da pós-ficção, algum resquício de realidade o ficcionista poderia alcançar por fim[9]”.

 

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Camilo Gomide 
é jornalista, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP e escritor.


REFERÊNCIAS

DOUBROVSKY, Serge. O último eu. In: NORONHA, Jovita Maria Gerheim (Org.). Ensaios sobre a autoficção. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.

FUKS, Julián. A era da pós-ficção: notas sobre a insuficiência da fabulação no romance contemporâneo. In: DUNKER, Christian et al.,. Ética e pós-verdade. Porto Alegre: Dublinense, 2017.

KLINGER, Diana. Escritas de si, escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnográfica. 2ͣ edição. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012.

SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. Trad. Rosa Freire d`Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007.

[1] Apud KLINGER, 2012, p. 108.

[2] Ibid.

[3] Ibid.

[4] DOUBROVSKY (2014, p. 121-122)

[5] KLINGER (2012, p. 108)

[6] SARLO (2007)

[7] FUKS (2017, p. 81).

[8] FUKS (2017, p. 82)

[9] FUKS (2017, p. 92)