UMA PEÇA PERTURBADORA-ONÍRICA E TRÊS LIVROS SEM FRONTEIRAS – MARCELO ARIEL

|ESCRITORXS DE QUINTA
Por Marcelo Ariel

 

1.

Os fantasmas de um país que sofre de excesso de metáforas

É preciso ver com urgência a peça Relatos efêmeros da França Antártica do encenador amazonense Francisco Carlos, porque ela expõe um preciso desvelamento das vozes fantasmáticas do que poderíamos chamar de inconsciente do Brasil, vozes vindas de fora mas que se entranharam dentro de nosso cotidiano. Suely Rolnik, em seu importante ensaio Esferas da Insurreição, aponta para a necessidade de irmos até a fábrica de inconscientes e lá encontrarmos a forma do nosso inconsciente colonial e criarmos outro inconsciente. É exatamente essa viagem até a fábrica de nosso inconsciente enquanto país um dos vetores dessa peça de Francisco Carlos. Francisco Carlos tem como impulso o Tristes Trópicos de Lévi-Strauss e Viagem à terra do Brasil de Jean Léry, mas transfigurados em uma chave perspectivista que é problematizada pela peça que fala do passado como uma usina de metáforas que até hoje contaminam o nosso presente.  A peça está em cartaz, informem-se!

 

2.

Um tratado sobre a solidão como uma força

“Há três meios imediatistas sobre os quais me debruço para sentir as costelas estalarem. Uma cura temporária em três atos. Choro, me masturbo, rabisco um papel.”Assim começa o conto Notas sobre vazio do livro Ninguém vai se lembrar de mim, de Gabriela Soutello (Ferina, 2019). Um suave paroxismo gravita de dentro para fora desses textos que possuem um tom epistolográfico, mas longe da cifragem de uma Ana C. Você leitoraleitor, se estiver realmente atento, irá talvez me ou se perguntar como pode o paroxismo ser suave? Desde que ele esteja impregnado de um lirismo que se veste de autoinvestigação, ele caminha para a suavidade como salvação possível de uma interioridade que se incendeia em contato com a vida. Aqui é possível contornar estrategicamente o insuportável peso do ser para chegarmos a um equilíbrio entre fissão e confissão. Antes de prosseguir, é impossível não elogiarmos a edição delicada e cuidadosa de Jarid Arraes e o projeto gráfico de Débora Lopes Serralheiro, que construiu um poema visual ao longo do livro acrescentando mais uma camada de leitura cujo sentido o próprio leitorleitora terá de significar ou ressignificar. Ao invés de continuar, o melhor é expor e analisar com atenção, a atenção é mais do que uma forma de generosidade, é o ideal meio de saber algo sobre nós mesmos. Se tomarmos, por exemplo, uma narrativa concisa como Uma inverdade entre outras, perceberemos como sutilmente este livro se converte em um tratado sobre a solidão como uma força, em um momento histórico horroroso em que ela é vista por muitos como uma prisão dentro de um labirinto. Os contos de Gabriela, como aponta Jarid na contracapa, esticam as paredes da solidão até que apareça entre um tijolo e outro uma pequena fenda por onde podemos ver algo de um delicado e selvagem horizonte. O grande truque desta resenha é que chamei o amor de solidão e nossa animalidade incontornável de horizonte.

 

3.

Canções que cortejam o heroico silêncio da eternidade

Homero, Virgílio, Ovídio e Píndaro formam uma espécie de coluna que sustenta o pensamento poético da humanidade.

Um livro como este recém-lançado Epinícios e Fragmentos de Píndaro, maravilhosamente traduzidos por Roosevelt Rocha para a Kotter Editorial, deveria ser festejado como a boa nova que é, apesar de sua antiguidade. O único defeito do livro é não ser bilíngue. Justifica-se isso talvez para que a edição não se tornasse economicamente inacessível, num país em que os preços dos livros são uma forma de segregação. Este é, apesar disso, de longe o mais importante lançamento do ano para os que apreciam realmente  a poesia como forma de conhecimento do mundo, em especial do mundo antigo, que tem muito a nos ensinar sobre o numinoso, o sublime que, nesses cantos, deixam de ser alegoria, abstração e se tornam parte da vida comum, aqui representada pelos jogos olímpicos cujos heróis são homenageados pelo poeta.

É possível chegarmos a uma iluminação laica lendo os cantos de Píndaro. Não se trata de associar estes poemas perfeitos em forma e conteúdo com a autoajuda ou a clínica, mas a um além destas duas coisas. Trata-se da mesma iluminação que pode ser obtida pela contemplação da beleza espontânea de um oceano ou de um céu, potências que transmitem a sensação de uma melodia extraordinária a qual faltam palavras. Em Píndaro, ocorre uma inversão disto e temos palavras sublimes às quais falta uma melodia que se perdeu no tempo. Ainda assim essas letras de canções cortejam o heroico silêncio de corpos que se dissolveram na eternidade e foram de lá resgatados para habitarem no poema, no mesmo poema que habitamos quando concluímos a leitura destes Epinícios e Fragmentos.

 

4.

Da novela como desenho imanente da vida (trans) nacional

Maurício Salles Vasconcelos há tempos realiza um percurso ficcional que propõe um fusionamento estilístico a partir das formas dissolvidas umas dentro das outras. Ela não fuma mais maconha, Telenovela, Meu rádio Coletivo Animal, DiscoDublê são livros que operam esse alargamento de modos de pensamento que buscam a visão fusional e não-binária das pulsações da vida através da forma híbrida ensaio-poema-novela. Temos uma amálgama dessas linhas de força em Bráulio Pedroso (novela da noite) publicado pela Giostri.

Nessa novela, acompanhamos o personagem Niro Zaremba, um pesquisador de literatura comparada, talvez um duplo do próprio autor em outra chave, no sentido de um paralelismo dimensional que transborda, mistura e costura várias realidades dentro do livro, a realidade-novela, a realidade-jogo de espelhos-televisão-filme-sonho, realidade-pensada como ensaio-transmigração-ensaio onde mais do que interpretar ou mimetizar um real que escapa de qualquer conceituação ou enlace semântico. Maurício prefere deixar que se manifeste no texto uma hibridização de ensaio-novela, em uma alternância de módulos ficcionais que se conectam entre si formando uma espécie de visão de séries de realidades ficcionais que são como mundos que foram irradiadas por um pensamento que estava atrás do pensamento em um jogo de avessos, onde os textos de ficção-ficção pensam de modo ensaístico e o ensaio acontece dentro de possíveis procedimentos ficcionais. Temos então um livro complexo que se lê extra-formas e de modos diversos sem que nenhuma de suas partes se desconecte da outra, estamos durante a leitura acompanhando não os procedimentos de exposição de uma linearidade biográfica ou semibiográfica pela colagem repetidora de seus signos e léxicos, mas algo mais ousado e inventivo. Bráulio Pedroso (novela da noite) é um livro que se escreveu em torno da ressonância com uma forma de organização do real (a novela) em encontro com outra forma crítica e ao mesmo tempo alegorizante do real (a novela televisiva) tensionando-as com outra forma, gerando uma crítica-criadora de realidades (o ensaio-novela) e tudo isso sem deixar de expor um panorama epocal imantado por uma enorme vitalidade de pensamento e performance.

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Marcelo Ariel é poeta, performer e teatrólogo. Autor de Jaha ñade ñañombovy’a  (Penalux), entre outros livros, lança em breve Ou o Silêncio Contínuo (Kotter Editorial), com sua poesia reunida.