CROCODILO – ANTÔNIO LACARNE

Comece redistribuindo as partes, ou melhor, segure a lâmina com delicadeza de pluma e rasgue as vértebras, como se os dedos fossem dentes de crocodilo. Imagine esticar o braço diante do gigantesco réptil. Os pés mergulhados no lodo deslizante e verde do pântano, tão sujo quanto você, pois você é um enorme pântano no buraco de um vulcão, dentro da boca de um crocodilo. E por um milésimo de segundo, ele arranca a tua mão do corpo. Não somente o teu braço se transforma num cotoco humano desprovido de “a + b” ou “não se bate em mulher nem com uma flor” ou “o que é do homem o bicho não come”. Você delira de dor com os dentes mortos na boca. Você ainda é um pântano dentro de um vulcão em decadência. Você sofre enquanto se debate na areia do lamaçal. Folhas verdes salpicadas de vermelho-sangue que jorra do braço que não é braço – braço que se transformou numa mangueira de incêndio. Mangueira dos bombeiros relapsos e musculosos, perdidos no fim do mundo de suas entranhas e de seu próprio mundo. Suas próprias mangueiras.

Não é comum deixar-se esvaziar pelo ralo. Não é comum que a tua única perspectiva seja observar sacos de ovos presos na barriga da viúva-negra. No pote de maionese, construímos buracos, os orifícios impediriam que a aranha morresse sufocada. E o crocodilo também morreu sufocado com o teu braço e os teus anéis presos no estômago. Crocodilos e viúvas-negras não morrem de amor por você. Muito menos eu, que luto contra meu crocodilo íntimo de forma que cada mordida arranca um pedaço de mim. Um pedaço sem volta.

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Antônio LaCarne é cearense, autor de Salão Chinês (2014), Todos os poemas são loucos (2017) e Exercícios de fixação (2018). Além de contista, seus poemas já foram publicados na Colômbia, Alemanha e Grécia.