MAIS UMA MARIA – CHRISTIANE ANGELOTTI

Maria Luiza tinha apenas sete anos quando deixou a casa da mãe na cidade de Descalvado, interior de São Paulo. Daquela época ainda guardava na memória as brincadeiras com os irmãos menores na rua. Havia outras crianças também, mas não se lembrava mais delas. As risadas infantis, a poeira do chão de terra, a bola colorida rolando e levantando poeira. Dos dois irmãos só conseguia lembrar da fisionomia da irmã do meio, Maria Rita. Maria Rita, então com três anos, era a sombra de Maria Luiza. Onde ela ia a pequenina a seguia com seus passos trôpegos. Tomás era o bebê chorão. Dele, lembrava-se apenas de estar sempre no colo da mãe e de mamar. Talvez o leite fosse pouco, pois o pequeno esmurrava o peito da mãe e gritava e chorava. Maria Luiza vivia com raiva dele.

A mãe era uma mulher triste e cansada em sua memória. Fugira com os filhos de um marido alcoólatra que a espancava. Maria Luiza recorda dessas cenas, embora se esforçasse para esquecer. Mas eram delas que reteve mesmo os detalhes, para sua tristeza.

Não conseguia se lembrar do rosto do pai, apenas das cenas de violência, do barulho de garrafas quebradas e do medo que sentia quando ouvia que ele havia chegado em casa. E do cheiro dele também. Era um odor forte de álcool. E isso lhe causava repugnância, mesmo depois de tantos anos.

A nova vida era difícil. Raramente tinham algo para comer. A mãe trazia pão, mas era raro. O leite que ganhavam de vizinhos era diluído em água para alimentar os quatro. Por vezes, Maria Luiza não via a mãe comendo e, como era criança, nem imaginava que os adultos também comem. Quando a barriga doía de fome a mãe fazia uma mistura de água com açúcar e os colocava para dormir.

Uma manhã, a menina acordou com os gritos da mãe que sacudia o pequeno Tomás com força e desespero. O caçula havia morrido de fome. Era o que diziam aos cochichos os vizinhos que vieram à porta ver o que havia acontecido, alguns com olhares de julgo, outros de comiseração.

Após a morte de Tomás a mãe passou dias catatônica. Não falava com as filhas, não se levantava para nada. Maria Luiza preparava farinha de milho com água para as três.

Foi em uma tarde, dias depois da morte de Tomás, que bateram na porta do casebre de três cômodos, cozinha, banheiro e a sala que servia também de quarto para a família, três senhoras bem vestidas. Uma delas parecia ser conhecida da mãe, e vieram lhe fazer uma proposta. Até que ela se recuperasse da morte do filho e arrumasse trabalho, Maria Rita ficaria sob os cuidados de uma das senhoras e Maria Luíza ficaria com a outra. Prometeram-lhe escola para as meninas, roupas, comida e que seriam cuidadas como pessoas da família. Daquela tarde, Maria Luiza só se recorda do olhar da mãe, longe, como se estivesse sem vida, e do choro da irmãzinha que não queria soltar sua mão.

Maria Luiza viajou de carro com dona Solange e um motorista por tantas horas que não saberia dizer. Imaginou que sua nova casa seria longe. Comunicaram-lhe que era no Rio de Janeiro, que tinha praia, mar. Mas como ela nunca havia saído de sua região, não tinha muita ideia de onde estava indo morar.

Logo em sua primeira noite no novo lar, Maria Luiza dormiu em um quarto que disseram que seria seu a partir daquele dia, um dormitório sem janelas com um colchão e um pequeno banheiro, nos fundos da casa de Solange. A menina sentiu medo, pois foi trancada lá sem nenhuma instrução.

Na manhã seguinte recebeu um copo de leite e um pão com manteiga de café da manhã, roupas novas e itens de higiene. Recebeu também uma caneca de porcelana, prato e talheres que seriam de uso exclusivo dela, não podendo usar outros utensílios da casa para se alimentar.

Solange lhe apresentou seu marido, Jonas, os cômodos da casa e o cachorro Pepe. Passou a chamá-la de Marta.  A menina estranhou e a mulher explicou que Maria era um nome muito comum e que teria novos documentos com o nome de Marta.

Em sua nova vida Marta aprendeu a limpar a casa, fazer a comida e lavar e passar as roupas. Marta tinha horários rígidos para acordar e fazer suas tarefas. Podia assistir televisão com o casal, sentada no chão, à noite, após deixar a cozinha toda arrumada, e apenas nos dias em que permitissem.

O tempo passou e o dia de ir à escola nunca chegou. Marta só podia sair de casa acompanhada de Solange para ir à feira e ao mercado. Enquanto limpava o quintal ou estendia as roupas no varal, via as crianças na rua brincando. Lembrou-se que era criança, será que poderia sair para brincar?

Na primeira vez que Solange a viu cumprimentar uma criança da vizinhança levou uma surra ao entrar em casa. E assim a menina foi tendo cada vez mais medo de Solange e de seu marido.

 Jonas também batia em Marta. Se ela falava mais alto, se demorava para levar algo que pediam, se a comida ficava salgada ou o arroz passava do ponto. As surras dele eram as piores, pois ele batia usando um cinto.

O único momento de brincadeira de Marta era com o cachorro da família. Quando recebiam amigos a menina era trancada em seu quarto. Quando o filho do casal ia visitá-los com a esposa, a menina era proibida de interagir com eles. Certa vez ouviu Solange dizer ao filho que ela tinha problemas e quase não falava. A esposa dele, Graça, lhe dirigia um olhar gentil, mas nunca tentou saber mais sobre ela.

A vida de Marta era cerceada de todas as formas. Havia dias em que mal via a luz do sol, quando era castigada por algum mau comportamento e trancada novamente no quarto dos fundos.

Viver assim era quase um não viver. E Marta mal tinha ideia do que havia do lado de lá do portão. Nunca havia visto o mar, como fora prometido. Não sabia ler nem escrever.

Os anos se passaram. Pepe morreu. Marta sofreu muito com a perda. Já tinha quinze anos e sua vida era a mesma. Alegrava-se quando as crianças de Júnior e Graça chegavam para visitar os avós. Nessas ocasiões ela podia cuidar das crianças e brincar com elas. Alice, de cinco anos, era sua preferida, pois lembrava sua irmãzinha.

Mais cinco anos se passaram e Marta, agora com vinte anos, acompanhava Jonas na sessão de fisioterapia no hospital. Ele sofrera um derrame e tivera várias sequelas. “Bem feito!”, pensava Marta. Mas logo se arrependia, pois era ela quem cuidava de Jonas debilitado e trocava suas fraldas.

A família precisou contratar uma enfermeira para ficar durante o dia. Elza era seu nome. Ela tentava conversar com Marta, estranhava o fato de a jovem não conversar. Escreveu-lhe um bilhete, recebido pelas mãos trêmulas de Marta. A jovem não sabia ler. Picou o papel e jogou na descarga com medo de ser descoberta por Solange.

Pouco tempo depois Jonas veio a falecer. Elza não apareceu mais. Marta continuou a cuidar da casa sob os olhares de Solange. Permanecia trancada no quarto com frequência cada vez maior. Certa vez passou o final de semana trancada e sem comida.

No ano em que Marta completou vinte e dois anos, em uma manhã morna de outono, Solange saiu para fazer compras e não retornou. Marta achou estranho. Passaram-se dois dias. Ela não sabia usar o telefone e era proibida de atendê-lo. Fora espancada mais de uma vez por isso.

No terceiro dia, o filho de Solange apareceu. Marta soube que Solange havia sofrido um mal súbito na rua e morreu antes de chegar ao hospital.

Marta correu para o quarto dos fundos, trancou a porta e chorou.

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Christiane Angelotti
é escritora, fonoaudióloga, especialista em Distúrbios da Comunicação / Neurorreabilitação, editora de livros de literatura, literatura infantojuvenil e educação. Desde 2002 trabalha com conteúdo para sites infantis. Tem textos publicados em livros didáticos e sites de educação. É produtora de conteúdo, pesquisadora em infância e educação, fundadora do portal Para Educar.