O FOGO DENTRO DO ICEBERG OU DAS POSSIBILIDADES INSURRECIONAIS DO POEMA – MARCELO ARIEL

Porque o poema deseja a ruptura

Apenas evitando sempre os diversos sistemas de mistificação da atividade poética, tão comuns, poderemos nos debruçar sobre a experiência do pensamento na trajetória dos poemas, seguindo na contramão das abordagens do senso comum, que se ocupa mais da biografia dos poetas do que do pensamento dos poemas. Ao invés disso, seria uma imensa saúde investigarmos quais seriam as proposições de estratégias insurrecionais por trás do pensamento de alguns poemas emblemáticos, levando em conta que os poemas e, em alguns casos, também os poetas, operam em uma topologia estrangeira, às vezes a anos luz do senso comum e do sistema do poder literário, que, de formas variadas, sempre se esforçam para atualizar uma certa segregação das poéticas. Principalmente das que são parte da longa tradição de exceção, diferença, tensão e estranhamento diante do sistema literário ou de qualquer outro. O  sistema, seguindo uma demanda absurda e explicável do senso comum, volta-se para as biografias em detrimento de profundas e democráticas investigações do pensamento dos poemas, não por uma anemia intelectual ou insuficiência derivada da falta de capacidade de compreensão daquilo que os poemas realmente querem dizer, mas por uma deliberada e insistente política de anulação da força de crise que é o centro de quase todas as grandes poéticas. A cultura e principalmente a cultura poética existem para converter em crise a existência, porque em sua gênese estão as fendas trincadas do real construído pelo mesmo senso comum que é um dos pais do eficiente sistema do poder literário, parte essencial da manutenção do conjunto e dos setores da produção do livro. Há, e todos nós sabemos disso, uma nada sutil separação entre os processos do escritor e do poeta, unidos por algumas ressonâncias, mas separados por uma espécie de subsistema de castas culturais que coloca o poeta em um plano inferior dentro do mercado literário, embora ele atue num plano central dentro do sistema de criação de sentidos para a língua, ou seja, no plano ontológico é o poeta quem sustenta e cura a língua e, num plano mercadológico, é o escritor de prosa quem sustenta e revitaliza o mercado literário. Isso pode ser comprovado com uma simples visita a uma livraria de qualquer grande cidade. É claro que existe e sempre existiu a produção em série de imitações de poesia com fins de ocupar de modo cínico demandas pseudo-terapêuticas criadas pelo senso comum e pela enorme distribuição sistêmica de insatisfação, que é o principal vetor da vida hoje.

 

Não há mapas para atravessar abismos

O  mercado de autoajuda, com seu elogio da funcionalidade e eficiência terapêuticas, conecta-se de modo direto com uma ética da eficiência e imperceptivelmente imita e até deturpa os procedimentos da filosofia de autoinvestigação cunhada por Montaigne, Proust e Amiel, manifestando-se como um plágio desses procedimentos que são, de certo modo, tensionados pela chamada literatura de autoficção, ambas camaleonicamente  capazes de se disfarçar de qualquer gênero e, podemos dizer também, contaminadas tanto pelos métodos da filosofia de autoinvestigação, cuja dobra resvala na instauração das crises poemáticas do autoconhecimento quanto de processos narcísicos e esquemáticos que se desdobram em um fenômeno de maquiagem e desvitalização das linhas de força dos métodos da filosofia de autoinvestigação tornada poemática por Montaigne, Proust e Amiel, que, ao ser diluída por essas formas de formas da cultura da eficiência terapêutica, acaba contrariando suas próprias fontes históricas produtoras de crise, ruptura e caos, e compactua com a indústria da insatisfação, geradora de catarses  pré-fabricadas, e ao mesmo tempo a oxigena ao estabelecer uma paisagem de referências que, com sorte e talvez por acaso, podem até servir de atalho para uma dimensão cênico-gnosiológica.

É também mais do que óbvio que os poemas em prosa são também segregados para zonas de obscurantismo, porque instauram uma dupla crise da infestação de várias espécies alienígenas nas monoculturas dos gêneros com seus nada raros elogios do hibridismo como parte da disseminação da crise. Precisamos sair do óbvio, que aqui é a  crucificação sem ressurreição dos poemas no lixão de uma fraca metafísica binária onde se alimentam a maioria dos leitores magnetizados por uma funcionalidade eficiente para a literatura, sair desse lugar asfaltado pela desvitalização para um zona inédita: a zona do pensamento insurrecional dos poemas, onde eles realmente nascem ou estão em estado de possíveis sementes de pensamentos inclusivos revitalizantes e de práticas insurrecionais de despensamento e novas negociações com o mundo no sentido da criação de uma outra ortografia topológica do ser – que é justamente a ortografia poemática de uma insurreição contra os léxicos e gramáticas do poder que inclui uma insurreição contra todos os governos que as sustentam. Essa outra ortografia poemática foi anunciada pelo africanizado negro Rimbaud quando ele menciona a necessidade de um desregramento dos sentidos. Uma insurreição fenomenológica que retire nosso corpo das regras que esquadrinham nossos modos de vida ao condicionarem nossos cinco sentidos a um pensamento binário, a uma metafísica da pureza, e a pureza, como sabemos, é uma alteridade doente que não se relaciona com nada a não ser consigo mesma. Sabemos através de um desregramento interno de nossos sentidos, que há um gelo em volta do nosso rosto, em volta da nossa interioridade que precisamos derreter com o fogo de nossas pulsões de vida.

 

Conclusão radical

Glauber Rocha problematizou a questão de uma certa convergência adiada pela contradição implícita dentro da tradição poética que confronta sua práxis com a práxis política, na nietzschiana frase de seu filme Terra em Transe: “Poesia e política são demais para um homem só”. A frase, se lida dentro de uma chave reducionista e fracassomaníaca, esconde seu principal enunciado: a evocação de uma comunidade capaz de realizar essa convergência que, de modo radical, foi anunciada pela iconização poemática de Marielle  Franco que, em sua tese e em sua vida, esboçou a equação insurrecional: favela=polinização de uma corajosa política poética. Lamentamos que isso tenha passado despercebido nos primórdios de sua trajetória por causa do embaçamento provocado pela burocracia partidária que, em suas dobras, esconde pactos de conciliação tanto com as formas conservadoras e coloniais quanto com a cultura da eficiência. Concluímos que sua morte é o elemento central de uma ortografia ética que é, por sua vez, a gênese da convergência poemática entre poesia e política, convergência que vivemos hoje como a metáfora de uma insurreição inadiável que irá cobrir todos os campos do humano.

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Marcelo Ariel é poeta, performer e teatrólogo. Autor de Jaha ñade ñañombovy’a  (Penalux), entre outros livros, lança em breve Ou o Silêncio Contínuo (Kotter Editorial), com sua poesia reunida.