SEM VOZ – THÁSSIO FERREIRA

Era cantor. E homossexual. Ou homossexual e cantor. E também coisas outras, tantas, e outras tantas não, mas das muitas definições que construímos sobre nós, e dentro dessas, as que escolhemos empunhar como fundamentais, as que verdadeiramente nos definem, ou definimos que nos definem, ou pelo menos desejamos que nos definam, as dele eram essas: amar homens como ele próprio, e cantar. Deixa o cara. Quer dizer, deixa-o ser quem ele quiser. Mas vem comigo.

Então cantava e se homossexualizava pelos bares da cidade calorenta, pela qual também gostava de se definir: carioca. Às vezes até o raiar da manhã seguinte.

Embora lhe faltasse certa extensão vocal, a respiração absolutamente silenciosa dava-lhe um charme que começava a fazer sucesso pelos ouvidos atentos do Rio. Por essa época, calhou de conhecer um baterista.

Ah, mas antes: tinha um sonho. Isso talvez seja importante para a história. Um sonho que ele mesmo oscilava entre considerar um pouco brega, um pouco bobo, aceitando ainda assim sonhá-lo sem culpa; e considerar legitimamente interessante: cantar um show inteiro dedicado a um único homem. Um amor assim com ‘a’ de alfômega, dos que constituem um universo em si, o início, o fim e o meio, Gita; um amor já extinto; até um simples crush platônico! Até mesmo um patrocinador, pensava vez ou outra com ironia, e uma ponta de desejo desesperado, quando a grana apertava. O lance era o conceito. Era meio conceitual, nosso cantor: o Marcelo.

O baterista: Guilherme. Cabeludo na casa dos trinta, já sem muitos sonhos de qualquer tipo, levando os dias. Anestesiado, talvez, como talvez seu pai, sua mãe, seus avós, tanta gente morta que viveu anestesiada e tanta gente viva –– nesse mundo de sete bilhões –– que vai morrer anestesiada. É difícil dizer se fora sempre assim ou dessensibilizara-se com alguma frustração dessas que a vida distribui. Talvez até várias. As pessoas anestesiadas não se dão muito a conhecer, nem mesmo aos narradores.

Mas ele tinha um quê. E Marcelo, inteiro sensível, magnetizou-se desse quê praticamente ao primeiro sorriso, quando o amigo comum os apresentou naquela noitada em Madureira: Guilherme, este é o Marcelo, você tem que ouvi-lo cantar, menino, é incrível! O Gui é baterista. Taí, vocês podem inventar um show diferente, hein, só voz e bateria — e o amigo arregalou os olhos e moveu a mão direita espalmada frente ao peito, de dentro pra fora, a caricatura do gesto de nada adiantando para salvar a piada forçada, quando bastava ter apresentado os dois com a simplicidade de quem diz: este é um, este é outro, conheçam-se, a vida é curta. Mas o amigo era uma besta.

–– Prazer.

–– Tudo bom?

–– Tudo.

Os sorrisos perdurando, pendurados feito roupas no varal quando o tempo quer virar e elas hesitam entre se agarrar à corda ou se entregar à ventania. Marcelo, o sensível, decidiu primeiro correr os riscos, talvez porque sentisse mais forte aquele magnetismo sem nome, talvez curioso quanto à direção do vento, talvez porque sonhava acordado por aí sem nem se dar conta –– as pessoas sensíveis, ao contrário das anestesiadas, até se dão a conhecer, mas são mais difíceis de serem compreendidas. Ou talvez seja um problema do narrador. Enfim:

–– Do jeito que eu bebendo hoje é capaz de acabar cantando Exagerado pra você sem mais nem menos — ele disse com o sorriso alargado em riso, equilibrando-se entre sacana e despretensioso. Mas aceito pedidos também. E riu de novo, mais sacana e menos despretensioso.

–– E o que você está bebendo? — o outro perguntou sem muita criatividade, levando a conversa como leva os dias, vendo onde vai dar.

–– Michelada.

–– Duvido que eles façam michelada de verdade aqui. Como é?

–– Cerveja com limão e sal na borda, não é? É fácil.

Foi a vez de Guilherme rir:

–– Não, essa é a chelada. Michelada de verdade leva tabasco, molho inglês, mais uns outros troços. É horrível, aliás — e riu mais uma vez, largo, entregue à ventania.

Foram para a casa de Marcelo aquela noite, mais bêbados de tesão que de álcool. Encontraram-se de novo dois dias depois. E no seguinte. E por umas três semanas viram-se com frequência, treparam, jantaram, pegaram um cinema. Literalmente um só, o foco era mesmo trepar, eu não vou mentir, assim como eles não mentiam para si próprios nem para o outro: curtição, ventania, a cidade calorenta que o mar um dia vai beber.

Mas aquele cara. Aquele quê. O jeito sensível de Marcelo, os sonhos que trazia exatamente como sonhos: no inconsciente. As pequenas coisas que nunca prevemos ser o que farão nos apaixonarmos, e nem poderíamos, sutilezas diferentes a cada vez: o formato dos pés, a mania do outro em puxar a pele do nosso cotovelo, aquele elogio feito a esmo que por algum insondável alinhamento entre o ângulo do sol, a temperatura da manhã e nossos próprios hormônios marca-se em nós como um sinal de deus. Aquelas mãos de baterista, firmes, habilidosas, ô delícia. Numa terça-feira, uma sutileza qualquer a mais, e Marcelo se apaixonou, às dezenove e trinta e oito, de cueca na cozinha.

Com cuidado, porque o amor recém-nascido requer muito cuidado, a boca seca, um arrepio leve, sondou o terreno do outro:

–– Se a gente continuar assim acho que vou acabar me apaixonando, sabia?

Guilherme anestesiado, algumas paixões desfeitas, uma preguiça triste de se incendiar de novo. Habituado a escorregar sem dar bandeira, levando o tempo. A diplomacia da fuga num meio sorriso:

–– Cão que ladra não morde, garoto. Já já você repara nos meus defeitos.

Marcelo riu de boca fechada, quase um muxoxo, recuando, diplomático também. Então não. Ainda não, pelo menos. Mas sem desistir (ainda não, pelo menos):

–– Tem defeitos que são apaixonantes também. Já já você descobre os meus, vai que.

Mas não. Assim como um amor se desenha nas pequenas coisas, feito os antigos desenhavam constelações no emaranhado do céu, outras tantas pequenezas podem desenhar o inalcance, soletrar: r-e-c-u-s-a. Guilherme não queria, talvez nem conseguisse, mesmo se quisesse, e não foi difícil ler a seu próprio modo os gestos de busca e entrega com que Marcelo tentava conquistá-lo: r-e-c-u-s-a. Mas a trepada era boa, né. Ia levando.

Outra terça-feira, porque as histórias também se desenham traçando coincidências entre as pequenezas, tão inventadas quanto as constelações: as pupilas dilatadas, o peito aberto de quem não consegue mais ter cuidados, ensaiar diplomacias como João Gilberto ensaiando a mesma nota repetidamente, calar a pulsão em fazer-se voz que era mais do que uma profissão, era ele próprio, ele todo, quem –– ou o que –– ele mais era: Dalva de Oliveira, Cauby Peixoto. Ou vai ou racha, porra:

  –– Cara, eu apaixonado por você.

Se o narrador tivesse o luxo de acompanhamento musical, talvez aqui rufasse uma bateria, ironicamente, como numa comédia fajuta em que algum apresentador de prêmio anuncia e o vencedor ééé… Mas eu nem sei quantos rufares cabem no silêncio de quando a gente diz eu te amo e não sabe o que vai acontecer depois, mesmo que a gente não tenha dito exatamente eu te amo, mesmo que o baterista à nossa frente esteja sem baquetas, sem pratos, sem palco, sem roupas sequer. Quantos clichês cabem numa história de amor?

— Olha, Marcelo, eu gosto muito de você, e curtindo a gente pra caramba, a nossa química é foda, mas eu me conheço, cara. Eu não vou me apaixonar. E nem quero, na real. Eu não quero me envolver, não quero compromisso… Eu só quero curtir.

O que a gente faz com o desenho de uma constelação que ninguém mais vê?

Ele quis dizer vai embora. Quis xingar o outro de babaca. Lembrou da letra de Exagerado, porra, era pra ser só uma cantada, não um destino.

–– Tudo bem — a voz mais triste que uma cuíca em dó menor. A gente curte, eu não te cobrando nada. Um sorriso sem graça, o rosto meio inclinado, é difícil descrever os sorrisos que doem. Os olhos brilhando lágrimas feito um soluço engasgado. Foda.

Guilherme o abraçou e anunciou lacônico: vou tomar banho.

Continuaram se encontrando. Curtindo, né. Bom, mais ou menos. Um tentava curtir, apenas: levando. O outro tentava conquistar, e ao mesmo tempo se distanciar. Levando, também. Noites de tesão, tensão e medo. Medo do amor: do que existe e do que pode vir a ser.

Um amigo metido a literato, mas que aliás não sacava picas de música, ameaçou uma filosofia pseudoprofunda típica de bar: o amor é como uma sonata… e Marcelo mandou o cabra se foder antes que pudesse continuar, aquela outra besta.

Não havia música naqueles silêncios, nem nas risadas, nem nas trepadas que seguiam tão gostosas quanto antes, por algum outro alinhamento insondável desenhado no céu.

Até que a curtição acabou, uns poucos meses depois. Por nada, assim do jeito sem mais nem menos com que ele ameaçara cantar para o recém conhecido na primeira noite. Sem rufar de bateria também, nem ameaças dessa vez. Numa quinta-feira, porque nem tudo são convergências nas histórias de amor, o baterista disse que: não estava mais a fim. De um jeito qualquer meio clichê, que nem vale a pena registrar.

As pessoas sensíveis, às vezes, parecem estranhamente –– ou talvez não tão estranhamente, tudo pode ser tão estranho –– se intoxicar do sofrimento que a multidão anestesiada lava no banho com a poeira dos dias, levando, levando, feito algum equilíbrio cósmico de energias ou insondável razão evolutiva a desenhar perigos no mapa do tempo. Marcelo, Marcelo: pessoa sensível. Artista também, como o narrador, né: dói-me também.

E dentre os sensíveis há os que não aguentam: o que exatamente define a loucura? De início, pareceu sofrer como sofrem(os) muitos. Como se sofre por aí. Assim, apenas: sofrer apenas o tanto e o como se sofre sem evocar espantos. Mas foi definhando. Apagando em si as estrelas que ainda pudessem transar novas constelações. Será que na imensidão do equilíbrio cósmico o desequilíbrio inteiro de pessoas sensíveis, com seus sorrisos e mãos de ternura, é realmente necessário?

Marcelo cantava: e nada mais. Doído, tão doído. Comia (quase não) no bar em que se apresentava, voltava para casa, não via ninguém. É difícil saber o que ele pensava, como se sentia, exatamente. Isso o narrador já explicou. Guilherme seguia a vida. Sentindo(-se) como antes, do mesmo jeito ralo que também já conhecemos.

Mas o sensível. Sensibilizava-se: cada vez mais, mais fundo, mais doído, mais escuro. O que mais escutava nesses tempos não se arriscava a cantar: a Nessun Dorma. O narrador não tem certeza do porquê, mas ele sim arrisca: deve ser aquele tom lá dela, dói-me muito agora simplesmente imaginar Marcelo ouvindo a Nessun Dorma, chorando sem voz, e tentar compreender este ser que sente e definha. Desespera-se.

Tenho dificuldades, talvez de desconhecedor mesmo, de entender os desesperos. Talvez isso não se perdoe em um narrador.

Ele não teve forças. We are not that strong, my lord, you know we ain’t that strong, cantava Caetano. It’s a long way. Talvez gerar aquela dor que ele nem sabia propriamente capaz de gerar assim, por um amor distraído, tenha-lhe drenado muito. Não conseguiu buscar Guilherme. Tentar, vai que. Ou curar-se, vai que. Não conseguiu mais cantar. Não conseguiu mais.

Quando acharam seu corpo, Guilherme já tinha apagado do celular, sem ouvir, os treze áudios recebidos: um setlist inteiro de despedida, a capella, para ele. Seguiu: anestesiado.


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Thássio Ferreira
, escritor radicado no Rio de Janeiro, é autor dos livros de poemas (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016) e Itinerários (Ed. UFPR, 2018), além de colaborador, curador e editor-executivo da Revista Philos de Literatura. Participou da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) em 2017, como convidado da Liga Brasileira de Editoras, e em 2018 na Casa Philos. Tem poemas e contos publicados em diversas revistas (virtuais e impressas) e antologias, como Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de Letras, Gueto, Mallarmargens, Germina e Vício Velho. Seu livro inédito de contos Cartografias foi semifinalista do Prêmio Sesc 2017 e seu conto Tetris foi o vencedor do Prêmio Off Flip 2019. Mantém a página facebook.com/thassioescritor e o perfil de instagram @thassiof.