TUDO QUE EU AINDA QUERO TE CONTAR – MURILLO GARCIA

São seis ou sete caixas grandes de papelão. Rio pensando que isso é tudo o que eu tenho para carregar, seja lá para onde for. E são livros. Seis ou sete caixas pesadas com livros. As roupas eu resolvi com minha mochila de sempre e dois ou três sacos. Mas o que ocupa agora o centro dessa quitinete vazia são as caixas de livros que eu ainda nem sei como guardar. Não faço ideia de quando chegam os móveis, apesar dos e-mails prometerem algumas entregas para a próxima semana. Tudo fica meio desorganizado no começo do ano e o que tem me preocupado mesmo é se vou receber notícias suas. Improviso um pouco no armário embutido e aguardo a chegada de um amigo que traz um colchão. Ele pede um copo d’água logo que entra e lembro que preciso comprar utensílios para a cozinha. Pego a garrafinha que enchi no escritório e esqueci no bolso de fora da mochila desde a semana passada. Ofereço como se tivesse acabado de comprar. Sigo improvisando. Apartamento bom esse aqui. Olho o celular mais uma vez. A localização é ótima também. Nada. É, acho que vai ser bacana morar por aqui. Penso se você vai morar aqui também. Meu amigo pergunta se estou bem.

Fico sem graça quando me dou conta que sou o único chorando quando as luzes se acendem. A moça sentada ao meu lado percebe, mas não diz nada. Eu me pergunto como ninguém parece se comover com aquele filme tão poético. Um casal que não se comunica. Inábeis. Eu me identifico. Saio do cinema e te escrevo uma mensagem longa. Eu me exponho mais para você, se é que isso ainda é possível. Penso em apagar, não dá. Mimetizo o avesso da tela e me arrependo. A culpa me arrasa. Você responde horas depois dizendo que sabia que aquilo estava para acontecer. Depois de tudo o que vivemos e você prometeu, era a minha mensagem que estava para acontecer. Você me pede calma. Eu sinto que tudo pode mesmo dar errado e você me pede calma. Relembro um verso antigo que escrevi e você me pede calma. Eu sei que ali começa nosso final e você me pede calma. Durmo e sonho com cartas de tarô. Incontáveis cartas de tarô. Você me pede calma.

Diferente de todas as minhas expectativas, você não morreu em um acidente de carro. Meu terapeuta estranha quando digo e percebo que não sabe se ri ou fica preocupado. Você está falando sério? Resolve se preocupar. Confesso que coisas assim passaram pela minha cabeça, mais de uma vez. A explosão do posto de gasolina que tem bem atrás do prédio onde você mora. Uma overdose nas festas que frequenta aos finais de semana. Reagindo a um assalto. Loucura, eu sei. Mas não estranharia que a combinação de álcool, cocaína e amigos pouco responsáveis resultasse em algum tipo de tragédia pela estrada no retorno da sua viagem de fim de ano. Eu também nunca soube se encarava esse seu comportamento como a vivência de uma brutal liberdade que eu desejava e não me permitia ou apenas observava como uma imaturidade típica da adolescência tardia a qual você se prendia. Eu também me sinto preso num eterno drama juvenil. Acho que sempre nos confundimos de alguma maneira.

Ouço com atenção a história que aquele cara conta no aniversário do meu melhor amigo. Não sei se é por conta do álcool ou pela necessidade de saber que tem gente mais fodida da cabeça do que eu por conta de alguém. Cinco anos pra acabar assim? Dando de cara com seu namorado trepando com outro no vestiário da academia? Sinto um alívio absurdo por não ter passado tanto tempo junto com você. E pena de me ver nessa situação. Mais de quinze dias sem receber notícias suas. Talvez tudo o que eu sinto fizesse mais sentido depois de cinco anos. Foram meses. Meses que pareceram cinco anos ou mais e todas as trepadas nos vestiários de academias que eu te imaginei envolvido. Um amigo mais próximo que também ouve a história pergunta de você. Só falo sobre você com todos, o tempo todo. Digo que não sei. Alguém reclama da música que colocaram para tocar. Esse mesmo amigo sugere um som que diz ter tudo a ver com nossa conversa. É uma cantora que eu queria escutar há tempos e sempre deixava para depois, mas ele não sabe. Pergunta o nome daquela música que fala das tatuagens e eu minto, digo que não lembro também. O cara que conta a história pergunta se não é aquela dos cavalos. Ouço pela primeira vez e não entendo porque não o fiz antes. Talvez não fizesse tanto sentido. Sincronicidade. Chego em casa e coloco o álbum todo para tocar. Desabo e tenho vontade de ficar com o corpo contra o chão. Penso em te mandar uma das primeiras faixas, como tudo o que encontrava de interessante e queria te contar primeiro. Acho mesmo que ia gostar. Fissura.

O primeiro conta que os pais morreram quando ele ainda era pequeno. Penso que sei pouco sobre o seu pai. O segundo comenta os meus textos e fica na dúvida se escrevo sobre coisas que realmente aconteceram. Nem sempre. Lembro que só voltei a escrever por sua causa. O terceiro pergunta se faz tempo que terminamos. Acho graça porque pode ser que nem tenhamos começado. Levo outro para a cama e trepo pensando em você.

Saio do banho e você está no sofá. Acho lindo o fim de tarde pela janela e você ali, fumando despreocupado. Sinto certa inveja dessa tranquilidade, mas gosto. Um pouco de segurança diante de toda a ansiedade que carrego faz bem. Você faz sinal pra eu me aproximar e deito com a cabeça na sua perna. Ficamos em silêncio. Minha vontade é dizer tanto, mas evito. Eu me distraio com a sombra da cadeira que acompanha o pôr do sol pela parede. Você pergunta se eu não quero comer alguma coisa antes de ir para a rodoviária. Digo que não e reclamo por ter que ir para a rodoviária. Você ri e diz que logo estará morando perto. Eu não acredito, mas compro a promessa. Aproveita para soltar uma frase de impacto sobre a distância física parecer cada vez menor por tudo o que sentimos. Acho meio cafona. Não falo nada porque percebo que encarar vinte horas dentro de um ônibus, entre a ida e a volta pra São Paulo, contra doze horas ao seu lado é a maior cafonice de todas. Nunca fui muito bom em matemática.

O telefone toca. Você conta que chegou de viagem. Chegou bem de viagem. Fala de algumas coisas que trouxe pra mim e vai guardar pra quando nos encontrarmos. Provavelmente mês que vem. Eu penso que isso não vai acontecer. Agradeço. Reclama de uma briga com a mãe logo que chega em casa. Quinze dias fora de casa e a mulher te recebe de cara cheia, pronta pra falar tudo o que não devia. Ouço em silêncio. Você também fica em silêncio e diz que não sabe porque me ligou. Digo que estava preocupado e solto a máxima de que somos amigos, apesar de tudo. Apesar do quê? De tudo, insisto. Mesmo que ainda não soubesse que em poucas semanas você postaria a foto de um café da manhã de domingo com uma legenda tendenciosa ao lado de um outro cara. Silêncio. Você pede desculpas por me encher de reclamações em um dia que eu estou todo feliz por ter me mudado. Fala que logo vem conhecer o apartamento. Duvido. Respondo que vai ser ótimo ter você por perto. Sei que deveria mesmo estar todo feliz. Por algum motivo, não consigo. Invento que alguns amigos me ajudaram a organizar tudo. É, acabaram de sair. Se eu soubesse que essa seria nossa última conversa, teria enrolado um pouco mais. Desligamos. Acho tudo muito esquisito. Estranhos, apesar de tudo. Penso no que nos tornamos. Em quem me tornei nos últimos meses. E em tudo que eu ainda quero te contar, mesmo que seja sobre um apartamento vazio, seis ou sete caixas grandes de livros e um colchão emprestado.

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Murillo Garcia
 (Site), tem 31 anos, queria fazer Cinema, mas foi estudar Psicologia. Cogitou a possibilidade de morar na Espanha, mas ficou em São Paulo. Pensa em escrever um romance, mas não larga a poesia. E tem a Lua em Libra.